O Tottenham finalmente colocou um ponto final no jejum de 17 anos sem levantar uma taça. O que até outro dia era tratado como uma temporada perdida, talvez até uma das piores dos últimos anos, ganhou um enredo de virada cinematográfica ao bater o Manchester United na final da Europa League. E olha… o que rolou na última quarta-feira (21) pode mudar totalmente o que parecia ser o destino certo de Ange Postecoglou.
Logo de cara, na primeira temporada do treinador australiano, os Spurs já mostraram uma cara nova. O time passou a jogar com linhas avançadas, marcando alto, pressionando como se cada jogo fosse final, e apostando na velocidade da defesa para manter a linha do impedimento. No ataque, blocos bem definidos, troca rápida de passes e muita movimentação para explorar os espaços. Era um Tottenham que dava gosto de assistir, e que não lembrava nem de longe os estilos mais travados dos últimos comandantes.
Mas como toda boa história, essa também teve seus perrengues. E o maior vilão da vez foram as lesões. Um time que liderava a Premier League jogando o fino acabou se desmontando com o tempo. O estilo de Ange exige intensidade, e por mais que a pré-temporada tenha sido forte, não foi suficiente pra segurar o rojão físico da temporada.
A segunda temporada, então, virou basicamente um remake da primeira, mas com mais drama. As contratações pontuais feitas para dar profundidade ao elenco e poupar peças-chave até pareciam boas no papel, mas foram por água abaixo. Em boa parte de 2024/25, os Spurs tiveram que lidar com a ausência da zaga titular, Cristian Romero e Micky Van de Ven, e o nível caiu vertiginosamente. Quando a dupla estava disponível? A coisa fluía. Mas sem eles? Caos completo.

A situação chegou a tal ponto que até Archie Gray, jovem promissor que veio para o meio-campo, precisou virar coringa: jogou de lateral-direito, esquerdo e até de zagueiro. Ange virou praticamente técnico e mágico ao mesmo tempo. Só que nem mágica deu jeito em tanto problema. Foram tantas derrotas que ele acabou batendo um recorde indesejado: perdeu mais do que venceu. E isso, para um time do Big Six, pesa e muito.
Por tudo isso, as especulações sobre sua saída no fim da temporada começaram a ganhar força. Mas agora, com o título da Europa League e a vaga garantida na Champions, esse papo pode mudar de tom, e vai depender só da diretoria. O fato é: mesmo com todos os tropeços na Premier League, o Tottenham colocou um fim na seca de quase duas décadas. E isso só foi possível porque Ange engoliu o orgulho e mexeu no seu jeito de jogar.
Ange Ball 2.0: o Tottenham se reinventa e encontra a glória
As características clássicas do “Ange Ball” ficaram bem evidentes nas horas mais difíceis dessas duas temporadas. A maior prova disso foi o jogo contra o Chelsea, em que o Tottenham, com nove jogadores em campo, ainda insistia em manter as linhas altas, resultado? 4 a 1 para os Blues. Teimosia ou coragem? A linha é tênue.
Se fosse pra comparar, dá pra dizer que Ange tem um quê de Fernando Diniz. Os dois são do tipo que preferem morrer abraçados com suas ideias do que ceder a uma adaptação. Só que, em alguns momentos, essa postura pode mais atrapalhar do que ajudar, e Postecoglou percebeu isso.
Em vez de continuar insistindo no estilo “joga bonito ou nada feito”, o técnico australiano decidiu escutar as críticas (ou pelo menos fingiu que escutou), botou o orgulho no bolso e fez ajustes. Na Europa League, ele escolheu jogar pra ganhar, não pra dar show. E aí nasceu o Tottenham versão mata-mata: mais físico, mais direto, menos preocupado com posse de bola e mais focado em vencer.
O resultado? Um Tottenham com duas caras. Quando a musiquinha da Europa League tocava, parecia que os jogadores ligavam o modo turbo. A intensidade aumentava, e dava pra ver que todo mundo queria e muito, essa taça. Romero, especialmente, parecia possuído em alguns jogos.
Ok, o caminho até a final pode não ter sido tão tortuoso quanto o do United, mas dizer que foi fácil é piada. O Eintracht Frankfurt, por exemplo, vivia uma fase parecida com a dos londrinos e tinha Ekitiké voando. Só que quando deu de cara com Van de Ven e Romero, o francês bateu num muro. O cara provavelmente ainda acorda suando à noite lembrando daquela noite na Alemanha.
E só pra dar um toque de drama extra, vale lembrar que Ange não tinha nenhum meia-armador disponível pra decisão contra o United. E mesmo assim, o Tottenham encaixou. Desde as oitavas, o time já vinha jogando com mais pegada e menos firula, abrindo mão da posse de bola, algo impensável no “Ange Ball raiz”.

Foi assim que passaram por AZ, Eintracht, Bodo/Glimt e, no fim, pelo próprio United. O Tottenham não teve a bola, mas teve o controle. Usando uma analogia do futebol brasileiro recente: foi tipo o Flamengo contra o Botafogo com três volantes. A ideia era clara: povoar o meio-campo, atrapalhar Bruno Fernandes, Casemiro e companhia, e cortar o mal pela raiz.
O grande trunfo dessa reta final foi o coletivo. O Tottenham se uniu em torno de um objetivo, mesmo com o time desfigurado e o treinador praticamente de malas prontas. A vaga na Champions via Premier League parecia distante, mas via título europeu virou realidade. Quando todos jogam juntos por uma causa, o resultado aparece. E que resultado.
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