Roberto de Zerbi Tottenham
Futebol Premier League

Tottenham mudou demais? Reformulação milionária vira problema para De Zerbi; confira

O Tottenham passou por uma transformação enorme durante a última janela de transferências, mas o início da temporada 2026/27 mostra que tantas mudanças podem estar cobrando um preço alto. Com mais de 300 milhões de libras investidos em reforços, novas peças espalhadas pelo elenco e Roberto De Zerbi tentando implementar suas ideias, os Spurs ainda parecem longe de funcionar como uma equipe pronta.

O começo é preocupante. Pela primeira vez em sua história, considerando qualquer divisão, o Tottenham iniciou uma temporada com quatro partidas sem marcar gols. Além disso, o clube já foi eliminado de uma das duas competições de mata-mata que disputava.

A derrota para o Liverpool pela Copa da Liga trouxe alguns sinais positivos. O Tottenham teve sua melhor atuação da temporada, criou chances importantes e chegou a controlar boa parte da posse de bola. Lucas Bergvall e Mohammed Kudus desperdiçaram grandes oportunidades no primeiro tempo, e os Spurs produziram 2,33 gols esperados, o famoso xG.

Mesmo assim, o resultado foi novamente negativo. O Tottenham até marcou, mas o gol saiu em uma jogada de bola parada, e o Liverpool entrou em campo com uma equipe formada em grande parte por jovens e reservas.

Tottenham ainda parece um time em construção

O principal problema está na falta de entrosamento. Em vários momentos contra o Liverpool, o Tottenham conseguiu construir jogadas interessantes, mas perdeu a posse cedo demais ou tomou decisões erradas quando chegou ao terço final.

A defesa também sofreu. Os Spurs permitiram que o adversário encontrasse espaços com facilidade e perderam a bola diversas vezes próximos da própria área. Contra um Liverpool completo, a punição poderia ter sido ainda maior.

Ainda assim, alguns números mostram que houve evolução. Os 2,33 xG contra o Liverpool representaram a maior marca do Tottenham diante de um adversário inglês desde dezembro de 2024, em uma partida contra o Southampton.

O problema é que esse volume ofensivo ainda não virou gols com regularidade. Antes da partida em Anfield, o Tottenham havia produzido apenas 2,22 xG em jogadas de bola rolando nas quatro primeiras rodadas da Premier League, pior número entre todas as equipes da competição.

A dificuldade também é compreensível. O clube investiu mais de 300 milhões de libras em novos jogadores durante o verão europeu, além de contratar atletas sem custos de transferência. Com tantas peças chegando ao mesmo tempo, seria difícil esperar um encaixe imediato.

O próprio De Zerbi já reconheceu isso publicamente. Depois da derrota para o Brentford na primeira rodada, o treinador afirmou que o Tottenham “ainda não era um time”.

De Zerbi promove mudanças em ritmo acelerado

O Tottenham fez 12 alterações em seu time titular de uma partida para outra neste início de temporada, maior número da história do clube considerando os quatro primeiros jogos de uma edição da Premier League.

Isso reforça a sensação de que o projeto ainda está em fase de testes. De Zerbi tenta encontrar sua melhor formação enquanto, ao mesmo tempo, precisa dar minutos para vários reforços e adaptar o elenco a uma nova maneira de jogar.

A mudança também afetou uma das poucas armas que funcionaram na temporada passada. Em 2025/26, o Tottenham marcou 18 gols em escanteios, quebrando o antigo recorde da Premier League. O Arsenal, porém, terminou com 19 e superou a marca.

Nesta temporada, o perigo em bolas paradas diminuiu bastante. Os Spurs produziram apenas 1,22 xG em lances desse tipo na Premier League, sétima pior marca da competição, e ainda não conseguiram marcar.

Parte disso está ligada à reformulação do elenco. O Tottenham vendeu ou liberou jogadores que não faziam parte dos planos do novo treinador, incluindo Cristian Romero, e buscou atletas considerados mais adequados ao estilo de De Zerbi.

Esse movimento pode fazer sentido no longo prazo, principalmente depois de duas temporadas consecutivas terminando na 17ª colocação. O clube precisava mudar. A dúvida é se tentou fazer tudo de uma vez.

Histórico mostra que grandes reformulações exigem tempo

O Tottenham se tornou apenas o 12º time da história da Premier League a dar pelo menos 20 titularidades, somando as quatro primeiras rodadas, para jogadores que não haviam atuado pelo clube na temporada anterior.

Entre os 11 casos anteriores, apenas cinco equipes terminaram a temporada em uma posição melhor do que no ano anterior.

Algumas conseguiram crescer, como o próprio Tottenham em 2004/05 e o Manchester City em 2008/09. No caso do City, porém, a evolução também esteve ligada aos altos investimentos realizados no início da era Sheikh Mansour.

Outros exemplos mostram como grandes reformulações nem sempre trazem resultados imediatos. West Ham, Sunderland e Chelsea tiveram períodos de instabilidade depois de modificar boa parte do elenco em uma única janela.

Isso não significa necessariamente que o Tottenham esteja destinado ao fracasso. O atual grupo possui qualidade e, em teoria, deveria evitar uma nova luta contra o rebaixamento.

O problema é que bons jogadores também precisam de tempo para aprender a jogar juntos. Quando muitas peças são encaixadas simultaneamente, o processo costuma ser mais lento.

Pressão sobre os reforços aumenta ainda mais

A situação também coloca enorme responsabilidade sobre os recém-chegados. Sávio e Mateus Fernandes, por exemplo, têm apenas 22 anos, mas já carregam a expectativa de transformar imediatamente o nível do Tottenham.

Jogadores mais experientes, como Sandro Tonali, de 26 anos, e Omar Marmoush, de 27, também enfrentam cobrança semelhante.

O valor investido em contratações aumenta ainda mais essa pressão. Como os torcedores ainda não criaram uma relação forte com boa parte dos novos jogadores, existe menos margem para paciência caso os resultados continuem ruins.

Não há uma história compartilhada entre torcida e boa parte do elenco. Sem esse vínculo, o desempenho dentro de campo acaba sendo ainda mais importante para conquistar confiança.

O Tottenham até conseguiu marcar contra o Liverpool pela Copa da Liga, mas na Premier League o jejum já chegou a 407 minutos. O último gol da equipe no campeonato foi marcado por João Palhinha, contra o Everton, na reta final da temporada passada, em um resultado importante para manter os Spurs na primeira divisão.

O cenário exige evolução rápida. Existem sinais de que o time pode melhorar, especialmente pelo que mostrou em alguns momentos contra o Liverpool, mas também há muitos problemas para resolver.

De Zerbi recebeu um elenco reformulado e construído para suas ideias. Agora, terá o desafio de transformar um grupo cheio de jogadores novos em uma equipe organizada.

Talvez o Tottenham realmente precisasse mudar quase tudo depois de duas temporadas tão ruins. Mas o início de 2026/27 deixa uma pergunta cada vez mais difícil de ignorar: o clube mudou demais e rápido demais?

Foto: Getty Images