A trajetória recente de Arman Tsarukyan dentro do UFC é um estudo curioso sobre como um atleta de elite tenta se adaptar às exigências de um esporte cada vez mais pautado pelo entretenimento. Durante anos, o armênio foi visto como um dos lutadores mais completos da divisão dos leves, mas constantemente acusado de não ser “vendável” o suficiente para conquistar uma disputa de cinturão.
Agora, ao que tudo indica, ele decidiu mudar isso, ainda que pelo caminho mais questionável possível: a polêmica. E, a partir desse raciocínio ele passou a polemizar na maioria de suas aparições públicas.
Tsarukyan figura no topo do ranking e soma vitórias importantes, inclusive sobre Charles Oliveira. Porém, agora ele passou a ocupar as manchetes muito mais por atitudes fora do octógono do que por seu desempenho técnico.
E esse reposicionamento de imagem levanta uma discussão inevitável: até que ponto vale a pena forçar rivalidades e comportamentos controversos para ganhar relevância? É exatamente essa questão que iremos abordar.
Entre provocações e episódios controversos: a construção de uma nova imagem
O primeiro grande sinal dessa mudança não é recente. Ainda em 2024, Tsarukyan se envolveu em uma confusão com um fã durante sua caminhada para o octógono, chegando a agredi-lo após uma provocação. O episódio resultou em multa e suspensão, prejudicando diretamente sua trajetória esportiva.
Mais tarde, outro momento igualmente controverso aconteceu em um evento de grappling, modalidade em que o armênio também compete com frequência. Em uma dessas ocasiões, ele venceu um adversário ao apagá-lo com um mata-leão, algo permitido dentro do contexto competitivo, mas que repercutiu negativamente pela forma como foi conduzido e explorado midiaticamente, reforçando uma imagem de agressividade desnecessária.

Mas é no campo das declarações que Tsarukyan parece ter dobrado a aposta. Nos últimos meses, ele passou a atacar verbalmente nomes relevantes da organização. Após o UFC 326, por exemplo, ele minimizou a vitória dominante de Charles Oliveira sobre Max Holloway, atribuindo o resultado mais às falhas do havaiano do que aos méritos do brasileiro.
Como se não bastasse, o armênio elevou o tom ao declarar que Max Holloway está “acabado” e próximo da aposentadoria, ignorando completamente o histórico e a relevância do ex-campeão no esporte.
Essa postura, embora comum em tentativas de autopromoção no MMA, foi vista por muitos como desrespeitosa, especialmente por vir de um atleta que ainda busca consolidar seu próprio legado e está no momento em que ele se encontra.
E talvez o ponto mais emblemático dessa nova persona seja sua ousadia ao afirmar que venceria Khabib Nurmagomedov, um dos maiores nomes da história da divisão. Ainda que o russo esteja aposentado, a simples menção de superioridade sobre uma lenda invicta soa mais como provocação calculada do que como análise esportiva.
O preço da exposição forçada para Tsarukyan
O problema central dessa estratégia é que ela parece artificial. Diferentemente de figuras naturalmente carismáticas ou controversas, Tsarukyan transmite a sensação de estar seguindo um roteiro, como se tivesse entendido que precisa gerar manchetes, mas ainda não soubesse exatamente como fazer isso de forma autêntica.
No MMA moderno, nomes como Conor McGregor provaram que a construção de uma persona pode ser tão importante quanto o desempenho esportivo. No entanto, há uma diferença fundamental: McGregor construiu sua imagem com base em carisma, timing e autenticidade. Já Tsarukyan parece recorrer a críticas gratuitas e episódios questionáveis, o que pode acabar afastando fãs em vez de conquistá-los.
Além disso, existe um efeito colateral claro: o risco de que suas atitudes prejudiquem sua própria carreira esportiva. A perda de oportunidades no passado, seja por suspensão, lesão ou decisões controversas, já atrasou sua caminhada rumo ao cinturão. Ao insistir nesse caminho, ele corre o risco de ser visto mais como uma figura problemática do que como um desafiante legítimo.
É inegável que Tsarukyan possui nível técnico para disputar o topo da divisão. Seu wrestling de elite e evolução constante o colocam como uma ameaça real a qualquer adversário. Mas talento, no cenário atual do UFC, não basta. A questão é como esse talento é apresentado ao público.
Ao optar por uma promoção baseada em polêmicas, o armênio pode até ganhar visibilidade a curto prazo, mas compromete algo muito mais valioso: sua credibilidade. E, no fim das contas, a história mostra que lutadores que dependem exclusivamente de controvérsias raramente conseguem sustentar esse modelo por muito tempo.
Se Tsarukyan realmente quer o “title shot” que tanto busca, talvez o caminho mais eficiente ainda seja o mais óbvio, deixar que seu desempenho fale mais alto do que qualquer declaração, ou pelo menos equilibre a balança.
(Imagem de capa: Jeff Bottari/Zuffa LLC via Getty Images)
