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UFC: por que vender apenas momentos pode ser um risco para a organização

O presidente do UFC, Dana White, tem repetido nos últimos meses uma frase que resume bem a forma como ele enxerga o próprio negócio. Segundo ele, sua função é vender momentos marcantes para o público, aqueles instantes de nocaute, finalização ou reviravolta capazes de viralizar em segundos nas redes sociais. A ideia apareceu de novo na entrevista coletiva do UFC Belgrado, na Sérvia, quando ele foi questionado sobre qual luta mais o empolgava no card e respondeu apenas esperar alguns momentos de “tirar o fôlego”.

O evento do UFC na Sérvia, inclusive, parecia dar razão a essa lógica. Das 14 lutas do card, 10 terminaram ainda no primeiro round, um número que chamou atenção justamente por sugerir um espetáculo daqueles que rendem bons vídeos curtos para as redes sociais. O problema é que essa métrica, sozinha, diz muito pouco sobre a qualidade real do entretenimento entregue, e é exatamente esse ponto que merece ser discutido com mais profundidade.

A lógica dos momentos que geram corte e o projeto Power Slap

Essa filosofia de vender apenas momentos isolados fica ainda mais evidente quando se observa o outro grande projeto de Dana White fora do UFC, o Power Slap, um campeonato de tapas no rosto que ele fundou ao lado de Lorenzo Fertitta em 2022. Em entrevistas recentes, Dana White chegou a afirmar que o projeto será maior que o UFC, justamente por não exigir dos competidores anos de treinamento, disciplina ou preparo físico, apenas a disposição de trocar tapas até um dos dois desistir ou apagar. Hoje, o Power Slap já conta com cerca de 35 patrocinadores, contratos de transmissões e recebe algo em torno de US$ 2,5 milhões (cerca de R$ 13 milhões) por evento realizado no Fontainebleau, em Las Vegas.

Porém, os números de audiência nas redes escondem uma fragilidade importante quando comparados ao MMA. É raro encontrar um acompanhante do Power Slap capaz de citar de cabeça o nome de um campeão da liga ou de descrever uma luta específica que tenha marcado a temporada, mesmo entre quem consome os vídeos curtos regularmente. A recepção crítica também segue dividida, o comentarista Joe Rogan, parceiro histórico de transmissões do próprio UFC, já classificou publicamente a modalidade como uma forma de “dano cerebral de graça”, enquanto outros nomes ligados ao esporte, incluindo ex-campeões, expressaram desconforto com a proposta em entrevistas recentes.

O que realmente sustenta um grande momento no UFC e no MMA em geral

O contraponto a essa lógica de momentos soltos está justamente na história do próprio UFC. Um dos combates mais lembrados da era moderna da organização é a luta entre Forrest Griffin e Stephan Bonnar, na final da primeira temporada do The Ultimate Fighter, em 2005. A luta foi recheada de trocação intensa e momentos de impacto, mas o que a transformou em um marco histórico do esporte foi o contexto em torno dela, visto que o vencedor levaria um contrato milionário com a organização e realizaria o sonho de se tornar lutador profissional em tempo integral. Era possível entender o que estava em jogo, e isso deu peso emocional a cada golpe trocado.

Esse é o ponto central que separa entretenimento passageiro de esporte com apelo duradouro. Um vídeo de quinze segundos pode gerar engajamento imediato, uma curtida, um compartilhamento, mas raramente cria vínculo de longo prazo entre o espectador e o atleta. O que sustenta uma modalidade de combate ao longo dos anos é a construção de rivalidades, trajetórias, expectativa em torno de um resultado e a sensação de que aquilo que está sendo decidido dentro do octógono realmente importa para quem está lutando. Retirar essa narrativa, restando apenas o choque do momento, é reduzir o esporte a uma sequência de vídeos cortados descartáveis.

Será que a estratégia de vender apenas instantes de impacto é suficiente para manter um esporte relevante no longo prazo, ou ela corre o risco de esvaziar justamente aquilo que faz o público voltar evento após evento. Para quem acompanha o UFC há anos, a resposta parece óbvia, é a junção da tensão construída ao longo de uma carreira, de uma rivalidade ou até de uma única luta inteira que transforma um golpe de nocaute em algo memorável, e não o contrário. Os momentos impactantes continuam sendo parte essencial do espetáculo, mas dificilmente sobrevivem sozinhos sem a estrutura de significado que só o esporte completo consegue oferecer.

Créditos da foto de capa: Chris Unger / Zuffa LLC via Getty Images