A divisão dos leves do UFC vive um momento de transição. Com um cinturão interino nas mãos de Gaethje, movimentações estratégicas e mudanças de categoria entre os principais nomes, o cenário em na divisão está longe de ser estático. Nesse contexto, Arman Tsarukyan se posiciona como um postulante evidente ao topo, e, ao mesmo tempo, admite uma coisa: durante muito tempo, apenas um homem conseguiu superá-lo no wrestling dentro da categoria.
Segundo o próprio Tsarukyan, esse nome foi Islam Makhachev. “Era o Islam, mas ele subiu”, afirmou o armênio, ao ser questionado por Demetrious Johnson sobre quem poderia dominá-lo na luta agarrada entre os leves. A resposta carrega duas mensagens claras: respeito técnico ao ex-campeão e confiança absoluta em seu momento atual.
Um desafiante à espera, e fora do radar imediato
Apesar de ser visto por muitos como o desafiante natural ao cinturão, Tsarukyan ficou fora da disputa pelo título interino no UFC 324. A oportunidade acabou nas mãos de Justin Gaethje, que capitalizou o momento e conquistou o cinturão provisório. Agora, Gaethje é projetado para enfrentar Ilia Topuria em um duelo de unificação que pode acontecer no meio do ano.
Para Tsarukyan, a exclusão momentânea da rota direta ao título não significou inatividade. Pelo contrário. Ele optou por se manter ativo em outras frentes, aceitando desafios em formatos distintos de combate, como competições de grappling. A estratégia revela maturidade: manter ritmo, visibilidade e evolução técnica enquanto aguarda nova oportunidade no octógono.
Ainda assim, a ausência na disputa imediata pelo cinturão levanta debate. Se o armênio é, de fato, o número um em espera, por que não esteve no centro da discussão? Parte da resposta envolve timing e narrativa. Em uma divisão marcada por nomes carismáticos e lutas explosivas, o estilo técnico e cerebral de Tsarukyan nem sempre recebe o mesmo apelo promocional, apesar de sua eficiência.
O reconhecimento a Makhachev e a lacuna deixada
A menção a Makhachev não é trivial. O russo construiu reputação como um dos grapplers mais dominantes da organização, combinando controle posicional, economia de energia e precisão tática. Ao destacar que o ex-campeão “não desperdiça energia” e é “calmo”, Tsarukyan aponta para um diferencial técnico que vai além da força física: inteligência de combate.
Com a subida de Makhachev para os meio-médios, abre-se uma lacuna na hierarquia do wrestling entre os leves. Tsarukyan parece enxergar nesse movimento uma confirmação implícita de sua posição. Ao afirmar que hoje “ninguém” o supera na luta agarrada em 155 libras, ele reivindica supremacia técnica em um dos fundamentos mais decisivos do MMA moderno.
Essa autoconfiança não surge do vazio. Desde sua estreia na organização, justamente contra Makhachev, em luta equilibrada, Tsarukyan evoluiu consideravelmente. Seu jogo de quedas se tornou mais refinado, a defesa de transições mais sólida e o controle no solo mais paciente. Ele deixou de ser promessa para se consolidar como ameaça real.
A equação do cinturão para Tsarukyan
O cenário atual projeta Gaethje e Topuria no centro das atenções, mas o xadrez da divisão pode mudar rapidamente. Se o campeão linear estiver indisponível ou se lesões interferirem na programação, o nome de Tsarukyan volta automaticamente ao debate. Além disso, seu perfil técnico representa desafio distinto para qualquer campeão: pressão constante, grappling de alto nível e capacidade de neutralizar strikers agressivos.
Contra Topuria, por exemplo, o confronto seria um teste de estilos. O georgiano-espanhol tem demonstrado potência e precisão no boxe, mas enfrentaria um dos melhores controladores de ritmo da categoria. Já contra Gaethje, a dinâmica envolveria contenção de agressividade e gerenciamento de risco,áreas em que Tsarukyan tem demonstrado evolução.
O armênio parece entender que seu caminho ao título não depende apenas de mérito esportivo, mas também de contexto. Por isso, manter-se ativo em outras plataformas ajuda a sustentar relevância e ampliar base de fãs.
A trajetória de Tsarukyan é marcada por progressão consistente. Ele combina base sólida de wrestling com desenvolvimento contínuo no striking, além de resistência física comprovada em combates de alta intensidade. O reconhecimento público de que apenas Makhachev conseguiu superá-lo no grappling reforça sua legitimidade técnica.
No entanto, no MMA, legitimidade precisa ser traduzida em cinturões. A divisão dos leves é historicamente uma das mais competitivas e imprevisíveis da organização. Talento não basta; é preciso timing, oportunidade e execução perfeita na noite decisiva.
Ao assumir que Makhachev foi seu parâmetro mais alto, Tsarukyan também estabelece referência clara: para ser campeão incontestável, precisa não apenas herdar espaço deixado por rivais que mudam de categoria, mas superar o legado técnico que eles construíram.
O próximo passo
Enquanto Gaethje e Topuria se preparam para possível unificação, Tsarukyan trabalha nos bastidores e nas competições paralelas. Sua confiança pública sugere que ele se vê não como alternativa, mas como inevitabilidade na corrida pelo ouro.
A divisão dos leves vive fase de redefinição. A saída de Makhachev altera a hierarquia. A ascensão de novos campeões reorganiza prioridades. E, no meio desse processo, Arman Tsarukyan aguarda — convicto de que, no wrestling, ninguém mais dita o ritmo além dele.
Resta saber quando terá a chance de provar isso valendo o cinturão.
(Foto: Getty Images)