O UFC Catar prometia respostas. E poucas foram tão contundentes quanto a que veio dos punhos, joelhos e pulmões de Arman Tsarukyan. Diante do sempre perigoso Dan Hooker, o armênio não apenas venceu, ele se impôs, controlou as ações e reforçou uma verdade que boa parte dos fãs já sussurra há meses: Tsarukyan é, hoje, o melhor desafiante possível para o cinturão dos leves. Melhor, inclusive, do que nomes mais midiáticos como Justin Gaethje e Paddy Pimblett, apesar de não receber o mesmo entusiasmo por parte do UFC.
A vitória no Catar, dominante do início ao fim, não só consolida sua ascensão: expõe uma realidade desconfortável para o topo da categoria. A cada luta, Tsarukyan mostra que o cinturão dos leves inevitavelmente passa por ele — quer a organização goste ou não.
Uma performance que não deixa dúvidas
Desde o primeiro segundo no octógono contra Hooker, Tsarukyan deixou claro que o resultado não estaria em debate. Ele não deu ao neozelandês tempo para se encontrar na luta. Aplicou um ritmo sufocante, mesclando quedas, pressão na grade, combinações em potência e um volume de golpes que desmontou progressivamente o ex-desafiante ao título.
Hooker, conhecido por sua resiliência quase sobre-humana, tentou responder. Segurou algumas investidas, buscou ângulos, tentou contragolpes. Mas Tsarukyan parecia sempre dois passos à frente — uma leitura que poucos conseguem impor a um atleta tão experiente. Quando o segundo round chegou, a diferença física e técnica era nítida. O armênio já havia reduzido o arsenal do rival, controlava as ações e administrou a vantagem com maturidade de campeão.
Não foi apenas uma vitória. Foi uma declaração.
O melhor desafiante que a divisão pode oferecer
A discussão sobre quem deveria ser o próximo da fila no peso-leve é antiga e, frequentemente, contaminada pelo apelo midiático. Justin Gaethje, mesmo vindo de altos e baixos, segue sendo um favorito de Dana White e um ícone para os fãs por seu estilo insano. Paddy Pimblett, por sua vez, ainda não venceu um atleta do top 5, mas seu carisma e seu apelo comercial o colocam sempre sob os holofotes.
Tsarukyan, por outro lado, nunca contou com hype artificial. Seu caminho foi o mais espinhoso possível: estreou na organização em 2019 contra Islam Makhachev, atual campeão duplo e o antigo homem mais temido da divisão, e ainda assim deu a ele uma das lutas mais difíceis da carreira. Depois disso, encarou só pedreira: Mateusz Gamrot, Beneil Dariush, Joaquim Silva, Damir Ismagulov, e recentemente derrotou Charles Oliveira no UFC 300 numa atuação soberba.
São anos encarando os rivais que ninguém quer enfrentar. São anos vencendo atletas que, em qualquer outro cenário, estariam disputando o cinturão. Não há hoje, no peso-leve, alguém que mereça mais a chance do que ele.
O estilo que o UFC não quer, mas o esporte precisa
E, no entanto, Tsarukyan ainda não desfruta do prestígio que sua performance esportiva justificaria. Parte disso é explicada por um fato incômodo: seu estilo, extremamente eficiente, nem sempre brilha aos olhos dos dirigentes do UFC.
Tsarukyan não é um “showman”. Ele não vende polêmica, não produz frases de efeito, não posta vídeos exagerados nas redes sociais. Seu estilo de luta também foge do padrão que costuma atrair o grande público: em vez de trocação franca e nocautes cinematográficos, ele mistura alto ritmo, luta agarrada de elite, transições de chão, quedas em sequência e pressão constante, algo muito mais valorizado por analistas do que por fãs casuais.
É, de certa forma, o mesmo preconceito técnico que Islam Makhachev, Khabib Nurmagomedov e tantos outros lutadores do leste europeu enfrentaram antes de se tornarem campeões. A diferença é que Tsarukyan ainda não teve sua chance de ouro. E aí entra um segundo ponto: a rusga com o UFC.
O fantasma do UFC 311 ainda pesa
Tsarukyan foi escalado para enfrentar Makhachev no UFC 311, em uma revanche que finalmente coroaria sua jornada rumo ao topo. Era a luta que ele queria, e a que muitos fãs queriam ver. Mas 24 horas antes do combate, o armênio foi retirado do card.
A decisão, embora correta do ponto de vista médico, não caiu bem internamente. O UFC, que havia investido pesado na promoção, perdeu milhões mesmo mantendo a luta. Fontes do evento afirmam que houve “irritação” nos bastidores, e desde então, a relação entre as partes nunca mais foi a mesma.
O resultado? Um dos atletas mais talentosos do plantel se viu novamente tendo que “provar” algo que, dentro do octógono, já está provado há muito tempo.
A vitória em cima de Hooker não apenas o consolidou como top contender, ela também tornou sua situação impossível de ser ignorada. Com Gaethje perto do final da carreira e com o peso do nocaute sofrido contra Max Holloway ainda na mente e Pimblett longe do nível exigido para uma disputa de cinturão, Tsarukyan se coloca como a opção mais lógica e esportivamente honesta.
Além disso, o armênio traz algo que interessa ao UFC: um enredo pronto, um duelo ainda pendente com o atual campeão Ilia Topuria, e o potencial de finalmente resolver uma rivalidade grande, que vem sendo alimentada por anos.
Se a organização quer a luta mais competitiva e tecnicamente rica possível, o caminho é claro.
(Foto: Getty Images)