A Inglaterra está novamente entre as quatro melhores seleções da Copa do Mundo. A vitória sobre a Noruega nas quartas de final garantiu a equipe em mais uma semifinal, repetindo campanhas históricas como as de 1966, quando conquistou seu único título mundial, além de 1990 e 2018. No entanto, a classificação esteve longe de convencer o técnico Thomas Tuchel.
Mesmo após eliminar uma seleção forte como a norueguesa, o treinador alemão adotou um discurso pouco comum em competições de mata-mata. Em vez de exaltar apenas o resultado, preferiu fazer uma análise crítica do desempenho da equipe, afirmando que a Inglaterra teve sorte e complicou a própria partida com uma atuação abaixo do esperado.
As declarações chamaram atenção porque contrastaram com o clima de festa dos jogadores e da torcida após o apito final. Enquanto Jude Bellingham, Harry Kane e os demais atletas comemoravam intensamente a vaga na semifinal, Tuchel deixava claro que, se a Inglaterra repetir o mesmo nível de atuação diante da Argentina, a classificação para a decisão poderá ficar muito mais difícil.
Ao mesmo tempo, as respostas de Bellingham e o apoio de ex-jogadores ingleses abriram um interessante debate: em uma Copa do Mundo, vale mais jogar bonito ou encontrar maneiras de vencer mesmo quando o futebol apresentado não é o ideal?
Tuchel valoriza a classificação, mas faz críticas duras ao desempenho

Poucos treinadores costumam fazer críticas tão diretas logo após uma vitória em mata-mata de Copa do Mundo.
Depois do triunfo sobre a Noruega, Tuchel reconheceu a importância de alcançar a semifinal, mas afirmou que sua equipe esteve muito abaixo do esperado em praticamente todos os aspectos do jogo.
Segundo o treinador, a Inglaterra tornou a partida muito mais complicada do que precisava. A equipe cometeu diversos erros técnicos, teve dificuldades para acelerar o jogo, mostrou pouca consistência ofensiva e permitiu que a Noruega criasse várias oportunidades claras.
Os números da partida ajudam a explicar esse sentimento.
A seleção norueguesa abriu o placar, desperdiçou uma chance importante para ampliar para 2 a 0, teve um gol anulado e ainda acertou a trave. Durante muitos momentos, esteve mais próxima da classificação do que a própria Inglaterra.
Ainda assim, os ingleses encontraram forças para reagir.
Foi justamente esse aspecto que Tuchel fez questão de destacar. Para ele, a principal qualidade apresentada pela equipe foi a força mental.
Na visão do treinador, o grupo demonstrou personalidade suficiente para suportar momentos de pressão e continuar acreditando na virada até os minutos finais da partida.
Essa característica tem aparecido durante toda a campanha inglesa.
Depois da excelente estreia diante da Croácia, vencida por 4 a 2, a Inglaterra passou a enfrentar dificuldades em praticamente todos os jogos. Empatou com Gana na fase de grupos, derrotou o Panamá sem grande brilho, precisou virar contra a República Democrática do Congo e venceu o México atuando boa parte da partida com um jogador a menos.
O confronto contra a Noruega apenas reforçou esse padrão.
A Inglaterra continua vencendo, mas raramente domina seus adversários.
Bellingham rebate treinador e destaca dificuldade da partida

Se Tuchel adotou um discurso crítico, Jude Bellingham preferiu valorizar o esforço coletivo.
Autor dos dois gols da classificação, o meio-campista respondeu de maneira direta quando foi questionado sobre as críticas do treinador.
Para ele, as condições da partida também precisam ser levadas em consideração.
O jogo foi disputado em Miami, sob forte calor e alta umidade, fatores que aumentaram significativamente o desgaste físico dos jogadores. Além disso, a partida precisou de prorrogação e terminou apenas depois de 122 minutos de futebol.
Bellingham lembrou ainda da qualidade do adversário.
Segundo ele, enfrentar jogadores como Erling Haaland, Martin Odegaard, Antonio Nusa e Alexander Sorloth exige enorme esforço físico e tático durante toda a partida.
Na avaliação do camisa 10, nem sempre uma seleção consegue vencer apresentando um futebol bonito e dominante.
Em alguns momentos, é preciso sofrer, defender e encontrar uma maneira de sobreviver.
Foi exatamente isso que aconteceu diante da Noruega.
As palavras do jogador ajudam a explicar um aspecto importante da campanha inglesa.
Embora o desempenho coletivo ainda esteja distante do ideal, diversos atletas têm assumido protagonismo em momentos decisivos.
Harry Kane decidiu a classificação diante da República Democrática do Congo ao marcar dois gols nos minutos finais da partida.
Contra o Panamá, Kane e Bellingham foram responsáveis pelas principais jogadas ofensivas.
Nas quartas de final, foi novamente Bellingham quem resolveu o jogo ao marcar duas vezes, chegando a seis gols na competição e mantendo média de um gol por partida.
Ex-jogadores concordam com Tuchel e destacam a força mental da equipe
Curiosamente, o discurso crítico do treinador recebeu apoio de alguns dos maiores nomes da história recente da seleção inglesa.
Alan Shearer afirmou que, em outras épocas, talvez um técnico simplesmente destacasse o espírito de luta do grupo e evitasse apontar problemas logo após uma classificação tão importante.
Para o ex-atacante, Tuchel merece reconhecimento justamente por não esconder aquilo que todos conseguiram enxergar durante a partida.
Wayne Rooney compartilha opinião semelhante.
O ex-capitão da Inglaterra afirmou que a atuação realmente ficou abaixo do esperado, mas destacou que a personalidade dos jogadores acabou fazendo a diferença nos momentos decisivos.
Segundo Rooney, boa parte do jogo teve domínio da Noruega.
Mesmo assim, a Inglaterra conseguiu encontrar soluções para sobreviver.
A situação tornou-se ainda mais complicada por causa dos problemas físicos enfrentados durante a partida.
Ezri Konsa deixou o campo lesionado, enquanto Declan Rice, que já havia chegado ao jogo com limitações físicas, precisou ser substituído no intervalo.
Esses acontecimentos obrigaram Tuchel a modificar completamente seu planejamento durante o confronto.
Matt Upson também acredita que a avaliação feita pelo treinador foi correta.
Na opinião do ex-zagueiro, restando aproximadamente 25 minutos para o fim do tempo regulamentar, tudo indicava que a Noruega conquistaria a classificação.
Mesmo assim, a Inglaterra conseguiu mudar o roteiro da partida.
Argentina exigirá uma Inglaterra mais forte

Agora, o desafio cresce ainda mais.
A semifinal colocará frente a frente Inglaterra e Argentina, um dos confrontos mais tradicionais da história das Copas do Mundo.
Ao contrário da Noruega, os argentinos chegam embalados depois de eliminarem a Suíça e contam com uma equipe que mistura jogadores experientes e um Lionel Messi ainda decisivo em momentos importantes.
Diante desse cenário, a principal dúvida gira justamente em torno do desempenho inglês.
A força mental demonstrada até aqui será suficiente para superar outro gigante do futebol mundial?
Tuchel acredita que não.
O treinador deixou claro que ama seus jogadores e mantém total confiança no elenco, mas entende que existem diversos aspectos que precisam evoluir antes da semifinal.
Matt Upson também espera uma mudança de postura.
Na visão do ex-defensor, a Inglaterra deverá iniciar o próximo jogo em ritmo mais intenso, até porque as condições climáticas tendem a ser menos desgastantes do que as enfrentadas em Miami.
O elenco inglês mostrou, ao longo da competição, que possui capacidade para reagir em situações extremamente complicadas. Entretanto, depender constantemente de viradas, atuações individuais e momentos de inspiração aumenta os riscos à medida que a Copa avança.
Chegar às semifinais pela quarta vez na história já representa uma campanha importante. No entanto, para uma seleção que busca conquistar sua segunda Copa do Mundo, cinquenta e seis anos após o título de 1966, será necessário apresentar um futebol mais consistente.
A classificação diante da Noruega mostrou duas faces da Inglaterra.
De um lado, uma equipe resiliente, competitiva e capaz de lutar até o último minuto. Do outro, um time que ainda alterna bons momentos com períodos de instabilidade e que oferece muitas oportunidades aos adversários.
Contra a Argentina, a margem para novos erros será muito menor.
A força mental que levou a Inglaterra até as semifinais continuará sendo um diferencial importante. Porém, como o próprio Thomas Tuchel fez questão de destacar, apenas isso dificilmente será suficiente para colocar os ingleses novamente na final de uma Copa do Mundo.
(Foto de capa: FIFA)