Thomas Tuchel
Futebol Copa do Mundo

Tuchel escapa de vexame, mas Inglaterra chega ao mata-mata cercada por dúvidas na Copa do Mundo

Thomas Tuchel respirou aliviado, mas dificilmente saiu completamente satisfeito após a vitória da Inglaterra sobre a República Democrática do Congo. O placar de 2 a 1, construído graças a dois gols de Harry Kane nos minutos finais, garantiu a classificação inglesa para enfrentar o México nas oitavas de final da Copa do Mundo. Ainda assim, o resultado esconde problemas que acompanham a seleção desde o início do torneio e que podem custar caro daqui para frente.

Durante boa parte da partida, a Inglaterra esteve muito perto de protagonizar uma das maiores vergonhas de sua história em Mundiais. A eliminação para uma seleção considerada azarã certamente entraria na mesma prateleira de tropeços históricos, como a derrota para a Islândia na Eurocopa de 2016 ou o surpreendente revés diante dos Estados Unidos na Copa de 1950.

No fim, Kane apareceu mais uma vez para salvar o time e talvez até o próprio Tuchel. Agora, a Inglaterra embarca para a Cidade do México, onde enfrentará os donos da casa no lendário Estádio Azteca. Só que a sensação é clara: sobreviver foi importante, mas convencer ainda está longe de acontecer.

Harry Kane e Jude Bellingham continuam carregando a Inglaterra

Se existe uma certeza nesta Copa do Mundo, ela atende pelos nomes de Harry Kane e Jude Bellingham.

Os dois têm sido, de longe, os jogadores mais decisivos da seleção inglesa. Ambos marcaram nos triunfos sobre Croácia e Panamá ainda na fase de grupos e voltaram a ser protagonistas diante da República Democrática do Congo.

Enquanto boa parte da equipe encontrou dificuldades para produzir, Kane resolveu mais uma vez. Não é exagero dizer que, sem o camisa 9, a história poderia ter sido completamente diferente.

Bellingham também mantém um nível altíssimo durante toda a competição. Com intensidade, qualidade técnica e personalidade, o meia virou praticamente o motor do time de Tuchel.

O problema é justamente esse. Uma seleção candidata ao título dificilmente pode depender exclusivamente de dois jogadores para decidir todas as partidas.

Ataque ainda deixa muitas dúvidas

Apesar da classificação, alguns nomes importantes seguem devendo na Copa.

Marcus Rashford voltou a fazer uma atuação discreta e pouco conseguiu produzir pelos lados do campo. Noni Madueke também passou longe de justificar uma vaga entre os titulares, oferecendo pouca criatividade durante boa parte do confronto.

Quem mudou o panorama foi Anthony Gordon.

Entrando no segundo tempo, o atacante participou diretamente das duas jogadas que terminaram nos gols de Harry Kane, mostrando mais uma vez que pode ser uma alternativa importante para os próximos desafios.

Já Bukayo Saka continua sendo administrado com cautela por causa de um problema no tendão de Aquiles. Tuchel evita sobrecarregar o ponta, o que limita ainda mais as opções ofensivas da equipe.

A consequência é evidente: quando Kane e Bellingham não resolvem, a produção ofensiva da Inglaterra despenca.

Tuchel ainda parece não saber qual é seu time ideal

Outro ponto que chama atenção é a enorme quantidade de mudanças promovidas por Tuchel desde o início da competição.

A lateral direita virou um verdadeiro quebra-cabeça.

Entre lesões e mudanças de desempenho, nenhum jogador conseguiu assumir definitivamente a posição. O problema começou ainda antes da Copa.

Tino Livramento acabou ficando fora do Mundial por lesão, enquanto Reece James voltou a sofrer com problemas físicos e sequer possui previsão de retorno.

Sem opções confiáveis, Tuchel precisou improvisar diversas vezes.

Na vitória sobre a República Democrática do Congo, por exemplo, Declan Rice terminou novamente atuando como lateral-direito, mesmo sendo um dos melhores volantes do futebol mundial.

A solução funcionou ofensivamente, já que Rice participou da jogada do empate, mas levanta um questionamento importante: vale a pena retirar um dos principais jogadores do meio-campo apenas para tapar um buraco na defesa?

Tudo indica que não.

Ex-jogadores questionam escolhas de Tuchel

As decisões de Tuchel também passaram a ser alvo de críticas de antigos ídolos da seleção inglesa.

Alan Shearer destacou que a defesa voltou a oferecer muitos espaços e afirmou que improvisar Declan Rice na lateral pode até funcionar em determinados momentos, mas não deveria ser uma solução definitiva.

Já Micah Richards acredita que Rice faz muito mais diferença atuando como volante, principalmente pensando no desgaste físico que a equipe enfrentará diante do México, em razão da altitude da Cidade do México.

Para o ex-lateral, uma alternativa seria utilizar Ezri Konsa pelo lado direito e recolocar John Stones ao lado de Marc Guéhi na zaga.

Wayne Rooney foi ainda mais direto.

Segundo o maior artilheiro da história da seleção inglesa até a chegada de Harry Kane, a equipe fica extremamente vulnerável quando perde a posse de bola.

Na visão do ex-atacante, adversários tecnicamente mais fortes podem explorar facilmente os espaços deixados entre o meio-campo e a defesa.

Falta criatividade para quebrar defesas fechadas

Outro problema identificado ao longo da campanha inglesa é a dificuldade para criar jogadas.

A ausência de jogadores mais criativos continua gerando debate.

Tuchel optou por deixar fora da convocação nomes como Cole Palmer e Phil Foden. Embora ambos tenham vivido temporadas discretas por seus clubes, muitos acreditam que poderiam oferecer soluções diferentes em partidas mais travadas.

Morgan Gibbs-White e Alex Scott também chegaram a ser apontados como possíveis alternativas, mas acabaram ficando fora da lista.

A dificuldade apareceu principalmente no empate sem gols contra Gana, quando a Inglaterra teve enorme dificuldade para criar oportunidades claras.

Pensando nas fases decisivas, essa limitação pode se tornar um problema ainda maior.

Kane continua sem substituto de confiança

Antes mesmo da Copa começar, uma das maiores preocupações dos ingleses era simples: o que aconteceria se Harry Kane não pudesse jogar?

A resposta de Tuchel nunca pareceu totalmente convincente.

O treinador chegou a testar Dominic Calvert-Lewin e Dominic Solanke nos amistosos preparatórios, mas acabou levando Ollie Watkins e Ivan Toney para o Mundial.

Na prática, porém, nenhum dos dois parece contar com grande confiança da comissão técnica.

Watkins entrou apenas nos minutos finais da vitória sobre o Panamá, enquanto Toney sequer saiu do banco em toda a competição.

O mais curioso é que, quando a Inglaterra precisou buscar o resultado contra Gana e também diante da República Democrática do Congo, Tuchel preferiu recorrer a pontas e meias ofensivos em vez de utilizar qualquer um dos centroavantes reservas.

A mensagem passada é clara. Hoje, a Inglaterra depende completamente de Harry Kane.

México promete testar de vez a Inglaterra de Tuchel

A classificação manteve vivo o sonho inglês de conquistar a Copa do Mundo, mas também deixou evidente que ainda há muito trabalho pela frente.

Contra o México, em um Estádio Azteca completamente tomado pela torcida local, a margem para erros será muito menor.

Harry Kane e Jude Bellingham dificilmente conseguirão resolver todas as partidas sozinhos até uma eventual decisão. Se a Inglaterra realmente pretende levantar a taça, Tuchel precisará encontrar rapidamente respostas para problemas que já aparecem desde a fase de grupos.

O técnico escapou de um enorme vexame diante da República Democrática do Congo, mas o duelo das oitavas pode mostrar, de uma vez por todas, se os ingleses são candidatos reais ao título ou apenas uma seleção que vem sobrevivendo graças ao talento de seus dois maiores craques.

Foto: Getty Images