A aposentadoria de Terence Crawford no final de 2025 encerrou uma das carreiras mais completas do boxe moderno. Campeão mundial em cinco categorias e dono de uma trajetória marcada por domínio técnico e versatilidade, o estadunidense rapidamente passou a ser comparado a lendas de outras eras do esporte. Uma das perguntas que inevitavelmente surgiu entre analistas e fãs foi: como Crawford se sairia na famosa era dos “Quatro Reis”?
O debate ganhou novo combustível após uma avaliação de Mike Tyson. O ex-campeão mundial dos pesos pesados afirmou que Crawford teria condições de competir (e brilhar) em uma das fases mais competitivas da história do boxe. Para entender o peso dessa análise, é preciso voltar à década de 1980, quando quatro nomes dominaram as categorias intermediárias do esporte: Sugar Ray Leonard, Marvin Hagler, Thomas Hearns e Roberto Duran.
A era dos Quatro Reis
Poucos períodos do boxe produziram rivalidades tão intensas quanto a era dos “Four Kings”. Leonard, Hagler, Hearns e Duran não apenas dominaram as divisões entre o peso meio-médio e o médio, como também lutaram repetidamente entre si em confrontos históricos.
A dinâmica era diferente do boxe contemporâneo, muitas vezes criticado por lutas que demoram anos para acontecer. Nos anos 1980, os grandes nomes se enfrentavam com frequência, criando um circuito de rivalidades que definiu uma geração.
Entre os momentos mais marcantes dessa era está o duelo explosivo entre Hagler e Hearns em 1985, considerado por muitos como uma das maiores lutas da história do boxe. Em apenas três rounds de ação intensa, Hagler venceu por nocaute técnico após uma troca brutal de golpes.
Hagler também derrotou Duran por decisão unânime durante seu reinado dominante na divisão dos médios, período em que realizou 12 defesas bem-sucedidas do título mundial. A única derrota de Hagler nesse período aconteceu em 1987, quando perdeu por decisão dividida para Leonard em um combate ainda debatido até hoje.
Estilos que marcaram época
Cada um dos Quatro Reis possuía características técnicas muito distintas.
Leonard era conhecido por sua velocidade, inteligência tática e capacidade de adaptação durante as lutas. Hearns, por outro lado, possuía um dos jabs mais devastadores da história e um poder de nocaute temido em múltiplas categorias.
Duran era o guerreiro do grupo: agressivo, técnico e com enorme resistência física. Já Hagler representava o arquétipo do campeão dominante: poderoso, incansável e praticamente imbatível em seu auge no peso médio. Esse contraste de estilos criou confrontos memoráveis e consolidou a reputação da era como uma das mais competitivas do boxe moderno.
Onde Crawford se encaixaria
Segundo Mike Tyson, Crawford teria todas as ferramentas para competir nesse cenário. A avaliação do ex-campeão dos pesados é significativa porque ele testemunhou de perto aquela geração de lutadores. Para Tyson, o talento técnico de Crawford seria suficiente para colocá-lo em pé de igualdade com muitos campeões daquele período.
Na visão do ex-lutador, Crawford provavelmente teria se destacado em meio àquela competição intensa. Essa avaliação não é surpreendente para quem acompanhou a carreira do americano.
Embora Crawford tenha conquistado títulos em diversas categorias, muitos especialistas consideram que seu melhor momento ocorreu na divisão dos meio-médios. Foi nessa categoria que ele protagonizou uma das performances mais dominantes do boxe recente ao enfrentar Errol Spence Jr em 2023.
Na ocasião, Crawford controlou completamente a luta e venceu por nocaute técnico no nono round, após uma sequência devastadora de golpes. A vitória consolidou sua posição como campeão indiscutível da divisão e demonstrou a combinação rara de potência, técnica e inteligência que definiu sua carreira.
Antes disso, ele já havia derrotado sete adversários consecutivos por interrupção na categoria, reforçando sua reputação como um dos lutadores mais completos de sua geração.
A ousadia de subir de categoria
Outro capítulo importante da carreira de Crawford aconteceu em 2025, quando ele decidiu subir duas divisões para enfrentar Saul ‘Canelo’ Alvarez. Mesmo sem experiência anterior no peso super-médio, Crawford conseguiu surpreender o mundo do boxe ao derrotar o mexicano por decisão unânime, conquistando mais um título mundial e ampliando ainda mais seu legado.
Essa vitória reforçou a percepção de que o americano possuía uma versatilidade rara, capaz de competir em diferentes categorias de peso contra adversários fisicamente maiores.
A discussão sobre como lutadores de diferentes eras se comparariam é um dos temas mais fascinantes do boxe. O esporte sempre produziu campeões em contextos técnicos e competitivos distintos, o que torna qualquer comparação inevitavelmente hipotética. No entanto, Crawford possui características que facilitam esse tipo de exercício imaginativo.
Sua capacidade de lutar tanto na base ortodoxa quanto como canhoto, por exemplo, lembra a versatilidade estratégica que marcou grandes nomes da história do esporte. Além disso, seu estilo paciente e cerebral poderia ter se adaptado bem a confrontos táticos contra lutadores como Leonard ou Hearns.
Um legado consolidado
Independentemente das comparações com outras gerações, a carreira de Terence Crawford já está firmemente estabelecida entre as mais notáveis do boxe contemporâneo.
Campeão mundial em cinco categorias e campeão indiscutível em três divisões diferentes, ele encerrou sua trajetória profissional sem derrotas, um feito raro em um esporte marcado por carreiras longas e adversários de elite. A avaliação de Mike Tyson apenas reforça a ideia de que Crawford pertence a um grupo seleto de lutadores capazes de transcender sua própria época.
Se tivesse lutado na era dos Quatro Reis, talvez tivesse encontrado desafios diferentes, mas, como sugere Tyson, há boas chances de que ainda assim tivesse deixado sua marca em um dos períodos mais gloriosos da história do boxe.
(Foto: Getty Images)