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UFC 332 expõe crise dos eventos numerados e mostra que vencer já não é suficiente

O UFC 332 gerou uma discussão que vai além da qualidade de seu próprio card. O evento levantou dúvidas sobre o atual modelo de negócios da principal organização de MMA do mundo, especialmente sobre a importância dos eventos numerados, a insistência em possíveis revanches e o espaço cada vez menor para lutadores que entregam bons resultados, mas não conseguem chamar a atenção do público.

A avaliação de muitos fãs é que o UFC 332 apresenta uma das escalações mais fracas da história dos eventos numerados. O problema não está apenas na ausência de grandes estrelas ou de disputas de cinturão muito aguardadas. A principal questão é que o card já parecia pouco atrativo desde o início, sem a sensação de que a organização tenha feito um grande esforço para transformá-lo em um evento especial.

Tradicionalmente, os eventos numerados do UFC eram tratados como grandes noites do calendário. Eles costumavam reunir disputas de cinturão, confrontos entre atletas ranqueados e nomes conhecidos pelo público. A expectativa era maior porque os fãs pagavam separadamente para assistir à transmissão. Porém, esse modelo mudou.

O fim dos pay-per-views muda a forma de avaliar os eventos

natalia silva x wang ufc
Foto: UFC

Com os eventos incluídos na assinatura mensal da Paramount+, a diferença financeira entre assistir a um UFC numerado ou a um Fight Night diminuiu consideravelmente. O fã já não precisa pagar uma quantia adicional para acompanhar cada grande evento. Na prática, todos os cards passaram a fazer parte do mesmo pacote.

Isso altera a maneira como o público enxerga a programação. Se o UFC 332 fosse apresentado como um Fight Night realizado em Salt Lake City, por exemplo, a reação provavelmente seria menos negativa. Um evento desse tipo pode ser considerado apenas uma noite comum de lutas, com alguns nomes interessantes e outros confrontos voltados para o desenvolvimento do elenco.

O problema é a marca “UFC 332”. O número cria uma expectativa maior. O público associa esse formato a grandes combates, cinturões e estrelas. Quando o card não entrega esses elementos, a sensação de decepção aumenta.

A situação é ainda mais complicada para quem comprou ingressos. O torcedor que paga centenas ou até milhares de dólares espera assistir a uma noite histórica. A possibilidade de encontrar apenas uma luta de título pouco convincente e um número reduzido de atletas ranqueados torna a experiência muito mais frustrante.

Outro ponto questionado é a presença de uma disputa pelo cinturão peso-mosca feminino que, na visão do público, não representa a verdadeira disputa pelo título da categoria. A ausência da principal referência da divisão diminui o peso do combate. Além disso, o card conta com poucas lutas envolvendo atletas ranqueados, o que reforça a impressão de que o evento não tem o nível esperado para um UFC numerado.

Ainda assim, existem nomes capazes de despertar interesse. King Green costuma participar de lutas movimentadas, enquanto a estreia de Roberto Soldic representa uma oportunidade de observar como um atleta conhecido fora do UFC se comportará no maior palco do MMA. O problema é que esses pontos positivos não são suficientes para compensar a falta de grandes atrações.

Revanches e a falta de novidades no topo das categorias

Topuria e Gaethje disputando o cinturão do peso-leve
Topuria e Gaethje disputando o cinturão do peso-leve

O público também critica a insistência em possíveis revanches nos pesos-pesados e leves. A discussão aparece em um momento no qual existem outros confrontos capazes de movimentar as categorias.

No peso-pesado, Alex Pereira é apontado como um dos principais responsáveis por alimentar a conversa sobre uma nova luta. Porém, a análise considera que esse confronto não desperta tanto interesse neste momento. Antes de insistir em uma revanche, haveria outras possibilidades para movimentar a divisão e recolocar determinados atletas no centro das atenções.

A situação de Ciryl Gane também é citada. Para os fãns, o francês deveria concentrar seus esforços em resolver sua pendência com Tom Aspinall. No entanto, esse possível combate depende da recuperação de Aspinall, que enfrenta um processo delicado envolvendo uma lesão no olho. A questão médica impede que a luta seja tratada como uma solução imediata.

No peso-leve, a possibilidade de Justin Gaethje enfrentar Ilia Topuria também é questionada. O confronto poderia fazer sentido se a categoria estivesse sem novos candidatos ao cinturão. Mas esse não é o cenário atual. Arman Tsarukyan aparece como um nome que já conquistou o direito de disputar o título e poderia ser priorizado.

Além disso, Topuria ainda tem uma rivalidade em desenvolvimento com Paddy Pimblett. Esse confronto possui uma narrativa própria, envolve dois nomes populares e poderia gerar interesse esportivo e comercial. Portanto, a insistência em uma luta contra Gaethje não seria necessariamente a única alternativa disponível.

A crítica não é contra todas as revanches. Em alguns casos, elas são inevitáveis ou representam os melhores combates possíveis. O problema surge quando a organização escolhe repetir histórias mesmo existindo novos desafios capazes de renovar o interesse do público. Quando não há opções melhores, uma revanche pode ser aceitável. Quando há alternativas, apostar sempre no passado pode limitar o crescimento das categorias.

O caso Michael Page mostra que talento e vitórias não bastam

page ufc
Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC

A saída de Michael “Venom” Page do UFC é usada como exemplo de uma mudança ainda mais profunda. O lutador inglês construiu sua carreira com um estilo visualmente atraente, golpes pouco convencionais e uma postura voltada ao entretenimento. Durante sua passagem pelo Bellator, esse perfil ajudou a transformá-lo em uma das principais atrações da organização.

O Bellator frequentemente colocou Page em confrontos favoráveis, permitindo que ele mostrasse seu estilo e produzisse momentos marcantes. No UFC, porém, o cenário foi diferente. O atleta não conseguiu repetir o mesmo impacto e passou a acumular apresentações consideradas pouco empolgantes.

Page não deixou de ser um lutador talentoso. A questão é que o UFC avalia mais do que o resultado oficial. Uma vitória pode não ser suficiente se o combate for considerado monótono, especialmente quando o atleta possui idade avançada e ocupa espaço que poderia ser destinado a novos nomes.

A frase “vencer não é suficiente” resume essa lógica. O UFC está inserido no esporte, mas também depende do entretenimento. O resultado importa, porém a capacidade de gerar interesse, atrair audiência e criar histórias também pesa nas decisões da organização.

O caso de Demetrious Johnson reforça essa visão. Mesmo sendo considerado um dos melhores lutadores peso por peso de sua geração, ele deixou o UFC em uma negociação que mostrou que excelência esportiva, sozinha, não garante permanência. A organização precisa equilibrar mérito competitivo, popularidade e retorno comercial.

Apesar da saída, Page pode encontrar boas oportunidades fora do UFC. A união entre PFL e MVP cria uma estrutura que precisará de nomes conhecidos. O retorno de Scott Coker ao mercado do MMA também pode abrir espaço para atletas experientes. Page ainda possui valor como atração, principalmente se for colocado contra um adversário agressivo que aceite trocar golpes ou contra um lutador que possa ser utilizado para promover outro nome.

No fim, a análise apresenta uma visão crítica sobre o UFC atual. A organização continua sendo a maior força do MMA, mas seu modelo depende cada vez mais de entretenimento, narrativas e capacidade de atrair o público. O UFC 332 representa essa transformação: um evento que talvez fosse aceitável como Fight Night, mas que decepciona por carregar o peso de um número e de uma expectativa maior.

(Foto de capa: IMAGO)

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Kaique