Alex "Poatan" Pereira UFC
Lutas UFC

UFC no Paramount: o que significa para a organização e para os fãs?

A Paramount adquiriu os direitos exclusivos de transmissão do UFC nos Estados Unidos pelos próximos sete anos, em um acordo avaliado em US$ 7,7 bilhões. O contrato, anunciado nesta segunda-feira, coloca o serviço de streaming Paramount+ como casa oficial de todos os eventos da maior organização de artes marciais mistas do mundo, eliminando a tradicional dependência do modelo de pay-per-view que marcou a história recente do esporte.

A partir do próximo ano, os assinantes do Paramount+ terão acesso aos 13 eventos numerados anuais — normalmente reservados para as maiores lutas e disputas de cinturão — e a mais 30 cards adicionais, incluindo os FIght Nights. Alguns eventos ainda serão transmitidos na CBS, rede de TV aberta, ampliando o alcance e potencializando a exposição do produto.

Essa mudança significa que, nos EUA, o fã não precisará mais passar pela “dupla barreira de pagamento” vigente até agora: assinar um serviço de streaming (ESPN+) e ainda pagar um valor extra por cada evento numerado. Todos os combates estarão incluídos na assinatura padrão do Paramount+, sem custos adicionais — algo que, além de agradar aos consumidores, é uma medida estratégica contra a pirataria.

Impacto para o UFC: receita estável e alcance ampliado

A Paramount pagará cerca de US$ 1,1 bilhão por ano para o TKO Group Holdings, empresa controladora do UFC, mais que dobrando o valor que a ESPN desembolsava no contrato anterior. Para a organização, isso garante um fluxo financeiro previsível e robusto, permitindo planejar com mais segurança o desenvolvimento de novos talentos e a realização de eventos globais sem depender exclusivamente do desempenho de vendas de cada card.

O momento da mudança não poderia ser mais oportuno. Nos últimos anos, o UFC tem sofrido para criar novas superestrelas capazes de atingir os números estratosféricos de pay-per-view conquistados por nomes como Conor McGregor e Jon Jones — ambos já aposentados. A ausência de figuras desse calibre tem impactado diretamente a receita proveniente do modelo PPV, com quedas significativas em relação ao pico da década passada.

Com o novo acordo, a pressão para “vender” um card a qualquer custo diminui. O UFC pode se concentrar em entregar lutas tecnicamente relevantes e narrativas de longo prazo, sem depender do apelo comercial de um único nome.

Por que a Paramount pagou tanto

Para a Paramount, a aquisição representa um investimento estratégico em um esporte com calendário anual e audiência global crescente. O Paramount+ já transmite NFL, golfe, futebol universitário e basquete, mas entre abril e agosto havia uma lacuna de grandes eventos esportivos. O UFC preenche exatamente esse espaço, garantindo engajamento contínuo e reduzindo as taxas de cancelamento do serviço de streaming.

O presidente da Paramount, David Ellison, descreveu o UFC como um “ativo esportivo unicórnio” — ou seja, um produto único, com apelo de longo prazo e forte conexão com o público jovem. Esse público, que já prefere streaming à TV tradicional, é visto como fundamental para o crescimento do Paramount+ diante de concorrentes como Netflix, Amazon Prime Video e Disney+.

E para os fãs?

A mudança é histórica para o fã estadunidense. Até agora, assistir aos eventos numerados exigia pagar algo em torno de US$ 80 por luta, além da assinatura do ESPN+. Agora, tudo estará incluído no valor mensal do Paramount+, que custa bem menos que o preço de um único PPV. Isso deve democratizar o acesso, aumentar a audiência média por evento e atrair novos consumidores que antes não justificavam o gasto.

Por outro lado, há uma questão cultural: a lógica de PPV ajudava a criar a sensação de “evento imperdível” para alguns cards. Com a inclusão no streaming, existe o risco de diluição desse efeito, embora a expectativa seja de que o UFC mantenha um marketing diferenciado para os grandes confrontos.

Para o público brasileiro, a mudança é neutra no curto prazo. O UFC Fight Pass segue como plataforma oficial, oferecendo todos os eventos ao vivo e on demand. Ou seja, nada muda na experiência prática de quem acompanha o esporte por aqui. Ainda assim, a movimentação internacional pode ter efeitos indiretos: caso a Paramount expanda a compra de direitos para o mercado global, há possibilidade de integração de conteúdo extra e até de novas parcerias locais para transmissões abertas ou em TV fechada.

Fim de uma era: do PPV ao streaming

O fim do modelo centrado no PPV nos EUA representa uma guinada no posicionamento da organização. Durante anos, o UFC se orgulhou de seus recordes de vendas, transformando lutas em fenômenos culturais e gerando cifras milionárias por evento. Mas o cenário mudou: o público migrou para o digital, a concorrência por atenção se intensificou e a pirataria corroeu parte da base de consumidores.

O novo acordo com a Paramount é, portanto, uma adaptação à realidade do mercado. Ele consolida o UFC como um produto de assinatura, com valor agregado contínuo, e alinha a empresa a outras ligas que já migraram para o streaming como pilar de distribuição.

Se a Paramount conseguir aproveitar o calendário anual do UFC para manter assinantes engajados, a parceria poderá ser um dos maiores acertos da história do esporte no streaming. Para o UFC, o desafio será aproveitar essa estabilidade para construir novas estrelas, explorar melhor mercados internacionais e manter o interesse alto mesmo sem a urgência de vender cada evento separadamente.

No fim das contas, a mudança é um jogo de ganha-ganha para organização e consumidores — especialmente nos Estados Unidos, onde assistir ao UFC se tornará mais barato e simples. No Brasil, a vida segue praticamente igual, mas com a expectativa de que a globalização do acordo traga, no futuro, benefícios adicionais para os fãs.

(Foto: Zuffa LLC)