A vitória de Charles Oliveira sobre Max Holloway na disputa pelo cinturão BMF reacendeu um debate que vem crescendo entre fãs e analistas de MMA nos últimos dias. Apesar do domínio técnico do brasileiro, que garantiu a vitória por decisão unânime após controlar a luta com grappling e estratégia, a sensação geral foi de que algo não combinou com o espírito do título.
O cinturão BMF, criado para representar o lutador mais durão e perigoso do UFC, sempre carregou a expectativa de combates violentos, intensos e resolvidos de forma definitiva. Por isso, ganhou força a sugestão de uma mudança de regra: o título só poderia ser conquistado por nocaute ou finalização. Caso a luta termine na decisão dos juízes, o resultado contaria para o cartel, mas o cinturão ficaria vago.
A ideia pode parecer radical à primeira vista, mas quando se observa a origem do cinturão BMF, ela faz muito sentido. O título surgiu em 2019, quando Jorge Masvidal e Nate Diaz protagonizaram uma rivalidade que conquistou o público justamente pelo estilo agressivo dos dois.
O UFC aproveitou o momento para criar um cinturão simbólico, que não representava ranking nem categoria, mas sim atitude, coragem e capacidade de decidir lutas de forma contundente. Desde então, as disputas pelo BMF sempre foram associadas a guerras dentro do octógono, com nocautes, trocação franca e ritmo alto. Quando o título vai para as mãos de alguém após uma luta controlada e decidida nos pontos, surge naturalmente a sensação de que a essência do cinturão se perde.
A sugestão de que o BMF só possa ser conquistado pela via rápida reforça exatamente aquilo que fez o título nascer. Diferente dos cinturões lineares, que premiam o lutador mais completo ao longo de cinco rounds, o BMF deveria premiar o lutador mais perigoso, aquele que entra no octógono disposto a terminar a luta a qualquer momento.
Se a regra fosse aplicada, os atletas não poderiam se contentar em administrar vantagem ou controlar o adversário no chão até o fim do combate. Seria necessário buscar o nocaute ou a finalização o tempo todo, o que mudaria completamente a dinâmica dessas disputas.
Além disso, uma regra desse tipo daria ao cinturão uma identidade própria, algo que ele ainda busca consolidar. Hoje, o BMF às vezes parece apenas um título promocional, usado para lutas grandes, mas sem uma diferença real em relação aos cinturões tradicionais.
Se apenas vitórias por interrupção garantissem o título, ele passaria a ser único dentro do UFC. O público saberia que, sempre que o BMF estivesse em jogo, não bastaria vencer, seria preciso acabar com a luta. Isso criaria uma expectativa diferente, transformando automaticamente essas disputas em atrações principais, independentemente do card.

Um cinturão que exige risco pode virar o mais aguardado do UFC
Outro ponto importante é que o próprio debate recente mostra que alguma mudança pode ser necessária. Após a luta entre Charles e Holloway, muitos comentários apontaram que o combate foi tecnicamente excelente, mas não teve o clima de guerra que normalmente se espera de uma disputa pelo cinturão BMF.
Isso não diminui o mérito do brasileiro, que foi superior, mas evidencia que o público espera algo diferente quando esse título está em jogo. O problema não está no estilo do lutador, e sim no fato de que o cinturão carrega uma promessa implícita de espetáculo. Quando essa promessa não se cumpre, surgem questionamentos sobre o sentido da sua existência.
Criar a regra do “só vale finish” resolveria esse conflito, porque deixaria claro que o BMF não é um título convencional. Ele passaria a representar o lutador mais temido, não o mais estratégico. Isso permitiria que o UFC mantivesse o cinturão como algo especial, sem competir diretamente com os títulos oficiais de cada categoria.
Pelo contrário, essa mudança poderia até aumentar o interesse geral pelos eventos, já que toda vez que o BMF estivesse em jogo o público saberia que existe a obrigação de buscar o fim da luta, dando a premissa de uma guerra além de um combate normal.
Se nomes conhecidos pelo estilo agressivo participarem dessas disputas, como os próprios Charles e Holloway, o resultado tende a ser sempre imprevisível e explosivo. Nenhum deles poderia lutar de forma conservadora sabendo que a decisão não garante o cinturão. Isso aumentaria o risco, mas também elevaria o nível de emoção, exatamente o que o BMF deveria representar desde o início.
A proposta de só permitir a conquista do cinturão por nocaute ou finalização valoriza um título que nasceu para ser diferente. Em vez de transformar o BMF em apenas mais um troféu, a regra o colocaria como a disputa mais intensa da organização, aquela em que só existe vitória quando alguém não consegue mais continuar. Para um cinturão que simboliza o lutador mais duro do UFC, não existe conceito mais coerente do que esse.
(Imagem de capa: Jeff Bottari/Zuffa LLC)