Lutas UFC

O UFC Vegas 121 foi um dos eventos mais estranhos dos últimos anos, mas o que explica tudo isso?

Alguns eventos do UFC são lembrados por uma luta histórica. Outros, por um nocaute espetacular, uma atuação dominante ou a ascensão definitiva de uma promessa. O UFC Vegas 121 pode acabar sendo lembrado por algo diferente: a sensação de que alguma coisa estranha aconteceu em praticamente todos os momentos importantes da noite.

Realizado no sábado, 26 de setembro, no Meta APEX, em Las Vegas, o evento terminou com Raul Rosas Jr. derrotando Raoni Barcelos por nocaute no quinto round, depois de uma queda cuja consequência ninguém conseguiu identificar imediatamente. Antes disso, porém, o card já havia produzido uma final do The Ultimate Fighter encerrada por desclassificação após uma joelhada ilegal e uma vitória de Ailin Perez sobre Norma Dumont que provocou surpresa, discussão e quase uma nova luta depois do gongo.

Não foi simplesmente um evento cheio de finais inesperados. Foram situações completamente diferentes umas das outras, mas que produziram o mesmo efeito: o UFC Vegas 121 parecia constantemente escapar do roteiro esperado.

E isso torna o evento particularmente interessante.

O TUF terminou sem realmente ter uma luta final

A primeira grande anomalia veio justamente em uma das lutas que deveriam representar uma conclusão.

Mahammadali Osmanli e Ilimbek Akylbek chegaram à final do peso-galo do The Ultimate Fighter 34 depois de uma temporada na qual os dois haviam construído expectativas diferentes. Osmanli carregava uma sequência de nove vitórias e chegava cercado de expectativa. Akylbek apresentava um estilo mais baseado no wrestling e na pressão.

O confronto, porém, durou apenas 2min19s.

Akylbek conseguiu levar a luta para o chão e estava trabalhando por cima quando Osmanli acertou uma joelhada ilegal na cabeça do adversário, que estava no solo. O golpe aparentemente deixou Akylbek inconsciente. Depois de alguns segundos de avaliação, o árbitro Kerry Hatley encerrou a luta e declarou o lutador do Quirguistão vencedor por desclassificação.

Assim, Akylbek saiu do octógono como campeão do TUF 34 sem precisar completar sequer um round.

É claro que uma desclassificação também faz parte das regras do MMA. O resultado oficial não é controverso nesse sentido: uma joelhada ilegal na cabeça de um adversário no chão pode determinar o fim da luta. O problema está na maneira como uma temporada inteira terminou.

Não houve decisão. Não houve finalização. Não houve nocaute legítimo.

A final simplesmente acabou.

Para Osmanli, foi ainda mais cruel. A derrota encerrou uma sequência de nove vitórias e retirou dele a possibilidade de mostrar, justamente na noite mais importante de sua temporada, se toda a expectativa criada em torno de seu nome correspondia ao nível apresentado dentro do octógono.

E o UFC Vegas 121 ainda estava apenas começando.

Pérez x Dumont mostrou que rivalidade não garante grande luta

Se a final do TUF foi estranha pela maneira como terminou, o co-main event foi estranho pela distância entre aquilo que se esperava e aquilo que aconteceu.

Norma Dumont e Ailin Perez chegaram ao confronto depois de uma rivalidade construída durante anos. As duas já haviam trocado provocações publicamente, e a luta colocava frente a frente duas das principais nomes do peso-galo feminino. O UFC apresentava o confronto como uma disputa importante para a corrida pelo título.

Havia, portanto, todos os ingredientes para uma luta explosiva.

Ela não foi exatamente isso. Perez começou melhor, especialmente na trocação, e terminou o primeiro round com uma queda que ajudou a consolidar sua vantagem. Dumont respondeu no segundo, conseguiu um takedown e teve momentos melhores em pé. O terceiro foi novamente equilibrado, com Perez conseguindo pressionar Dumont contra a grade e acertando uma joelhada no corpo.

O problema apareceu quando os cartões foram revelados. **29-28 para Pérez nos três cartões. **A vitória foi oficialmente unânime, mas o resultado surpreendeu Dumont e provocou discussão justamente porque a luta havia sido muito mais competitiva do que os cartões sugeriam. Não se trata de uma decisão que possa simplesmente ser classificada como objetivamente impossível, os rounds tiveram momentos disputados, mas a unanimidade tornou o resultado mais difícil de digerir para quem enxergou equilíbrio maior no confronto.

E então aconteceu outra cena que parecia pertencer a outro evento. Depois do gongo, as provocações continuaram. Pérez comemorou, Dumont respondeu, as duas permaneceram próximas e a tensão chegou a um ponto em que membros da segurança precisaram entrar no octógono para evitar que a rivalidade continuasse fisicamente.

O combate não havia sido extraordinário. Mas o pós-luta quase virou uma luta diferente.

E o card ainda guardava seu episódio mais inexplicável.

Rosas Jr. e Barcelos entregaram uma grande luta antes do caos

Raul Rosas Jr. contra Raoni Barcelos deveria ser a história de uma mudança de geração. De um lado, um mexicano de apenas 21 anos que havia chegado ao UFC ainda adolescente e que vinha sendo tratado como uma das grandes promessas da divisão. Do outro, um brasileiro de 39 anos, com oito anos e 15 lutas dentro da organização, finalmente recebendo a oportunidade de disputar seu primeiro main event.

O combate acabou sendo muito melhor do que o restante do card fazia imaginar. Rosas começou agressivo, mas Barcelos encontrou respostas rapidamente. O brasileiro utilizou seu wrestling, encontrou espaço na trocação e começou a acumular golpes significativos. No segundo round, chegou a conectar quase 60 golpes significativos, enquanto Rosas começava a apresentar sinais de desgaste.

O terceiro foi equilibrado, mas Barcelos conseguiu momentos importantes no chão. No quarto, o domínio do brasileiro aumentou. Barcelos atacou em pé, trabalhou no solo e chegou perto de encerrar a luta em algumas oportunidades.

Quando o quinto round começou, a situação era bastante clara: **Rosas precisava de alguma coisa. **Barcelos estava à frente nos três cartões antes do último round, com uma leitura de 3-1 em favor do brasileiro.

E Rosas foi buscar justamente o tipo de final que transforma uma derrota praticamente encaminhada em uma vitória.

Rosas voltou para o quinto round pressionando. Ele precisava acelerar, enquanto Barcelos tentava sobreviver à intensidade.

Em determinado momento, Rosas conseguiu levar o brasileiro para a grade e aplicou uma queda. Barcelos caiu, Rosas chegou ao controle por cima e, então, aconteceu algo que ninguém esperava.

**Barcelos apagou. **Não houve um golpe limpo e evidente capaz de explicar imediatamente o que havia acontecido.

Rosas percebeu que o adversário estava inconsciente e parou de atacar. A luta foi interrompida aos 1min38s do quinto round, com vitória oficial do mexicano por nocaute. O resultado foi posteriormente registrado como KO por slam.

O problema é que as próprias imagens não oferecem uma explicação definitiva. A transmissão mostrou repetidamente o lance, mas continuou difícil identificar exatamente o mecanismo responsável pela perda de consciência. A hipótese levantada na cobertura foi de que Barcelos poderia ter batido a cabeça durante a queda. Rosas ainda acertou um golpe depois do impacto, mas, ao perceber que o brasileiro já estava desacordado, imediatamente se afastou.

É justamente essa ausência de uma explicação visual clara que tornou o final tão perturbador. Não foi o tradicional nocaute de MMA. Não houve uma direita que desligou as luzes. Não houve um chute na cabeça. Não houve uma sequência de golpes que permitisse ao espectador entender imediatamente o momento exato em que a luta acabou.

**Houve uma queda. E, de repente, Barcelos estava imóvel. **O brasileiro precisou ser retirado do octógono em uma maca, enquanto a transmissão evitava mostrar diretamente sua condição durante alguns minutos. A cena mudou completamente o tom da vitória de Rosas.

Felizmente, a história teve uma atualização positiva. Barcelos foi levado a um centro de trauma de nível 1, passou por tomografia e avaliação médica completa e, segundo o UFC, estava estável, alerta, responsivo e com movimento completo. Seu treinador, Davi Ramos, também informou posteriormente que o lutador havia recuperado a consciência.

Esse detalhe é fundamental porque impede que o episódio seja tratado apenas como uma curiosidade macabra. O lance foi assustador justamente porque não era possível compreender imediatamente o que havia acontecido com Barcelos.

O UFC Vegas 121 virou uma sequência de exceções

Por que o evento se tornou tão peculiar? Por sempre fugir do padrão.

Não foi simplesmente um card ruim ou um evento marcado por acidentes. Houve boas lutas e performances importantes. Rosas e Barcelos, inclusive, protagonizaram uma das melhores batalhas da noite antes de seu final assustador.

O que tornou o UFC Vegas 121 diferente foi a concentração de acontecimentos fora do roteiro.

Primeiro, uma final do TUF terminou com uma desclassificação após uma joelhada ilegal, entregando o título a Akylbek sem que ele precisasse vencer a luta convencionalmente. Depois, uma rivalidade promovida durante anos terminou em uma luta equilibrada, uma decisão unânime surpreendente e uma intervenção da segurança para impedir que as provocações continuassem. Finalmente, o main event produziu uma virada espetacular seguida por um nocaute cuja mecânica permaneceu difícil de identificar.

E quatro lutadores, Raul Rosas Jr., Raoni Barcelos, Ailin Perez e Ilimbek Akylbek, foram encaminhados ao hospital para avaliações após o evento.

É quase como se cada parte do card tivesse encontrado uma maneira diferente de fugir da normalidade.

A noite começou com uma luta que não pôde terminar normalmente. Passou por uma decisão que deixou uma das vencedoras e uma das derrotadas em estados emocionais completamente diferentes. E terminou com um lutador sendo colocado em uma maca depois de perder a consciência aparentemente durante uma queda.

No fim, porém, existe uma distinção importante. O UFC Vegas 121 não foi necessariamente um evento ruim. Tampouco todos os resultados podem ser classificados simplesmente como injustos ou absurdos. O que ele produziu foi algo muito mais raro: um card em que os acontecimentos mais importantes não aconteceram da maneira que o público esperava.

E talvez seja justamente por isso que a noite ficará marcada. No MMA, o inesperado faz parte do espetáculo. Um golpe pode mudar uma luta em um segundo, uma finalização pode aparecer de uma posição improvável e um azarão pode desmontar todo o roteiro.

Mas, no UFC Vegas 121, o inesperado foi além do resultado. A própria maneira como as histórias terminaram foi estranha.

(Foto: Zuffa LLC)