O Manchester United vive uma transformação silenciosa que vai muito além das contratações. Desde que a INEOS assumiu o comando das operações do futebol, em fevereiro de 2024, o clube tenta abandonar uma imagem que o acompanhou por mais de uma década: a de um gigante disposto a pagar qualquer valor para resolver seus problemas no mercado de transferências.
A filosofia defendida por Sir Jim Ratcliffe é clara. O objetivo já não é simplesmente contratar os jogadores mais badalados disponíveis, mas construir um elenco sustentável, formado por atletas com potencial esportivo e financeiro. Em outras palavras, o United quer deixar de ser o “dinheiro fácil” do mercado europeu.
Essa mudança, porém, não passa apenas pelas compras. Ela também influencia a maneira como o clube olha para o próprio elenco. Em vez de buscar soluções externas para cada necessidade, a comissão técnica de Michael Carrick tenta encontrar respostas dentro de casa. Seja através da recuperação de jogadores lesionados, da adaptação tática de atletas já contratados ou da promoção de jovens da base, o United acredita que pode reforçar o elenco sem gastar centenas de milhões de libras.
Um novo modelo de gestão substitui os erros do passado
Durante muitos anos, o Manchester United foi frequentemente criticado por pagar valores considerados acima do mercado. Contratações como Harry Maguire, Antony e Paul Pogba tornaram-se símbolos dessa política.
O caso de Casemiro talvez seja o mais emblemático. O brasileiro chegou aos 30 anos por cerca de 70 milhões de libras, entre valor fixo e bônus. Embora tenha sido importante em sua passagem, sua idade e o alto salário praticamente eliminaram qualquer possibilidade de retorno financeiro futuro.
É justamente esse tipo de operação que a INEOS pretende evitar. A nova política considera não apenas o impacto imediato dentro de campo, mas também o valor de revenda dos atletas. Isso não significa transformar o Manchester United em um clube vendedor, mas sim reduzir o risco financeiro de investimentos elevados.
Essa filosofia também exige criatividade. Afinal, economizar não significa apenas gastar menos em contratações, mas aproveitar melhor os recursos já disponíveis. É aí que entram quatro jogadores que podem funcionar praticamente como reforços para a temporada.
Shea Lacey representa a aposta mais barata e talvez a mais empolgante
Entre todos os nomes observados durante a pré-temporada, Shea Lacey talvez seja o que melhor simboliza essa nova filosofia. O meia-atacante de apenas 19 anos chamou atenção ainda nas categorias de base pelos dribles e pela criatividade. Contra o Rosenborg, mostrou que está preparado para dar um passo além, marcando seu primeiro gol pela equipe principal e demonstrando maturidade muito maior do que aquela vista em temporadas anteriores.
Sua ascensão acontece em um setor extremamente competitivo, que já conta com Bruno Fernandes, Bryan Mbeumo, Matheus Cunha e Amad. Ainda assim, Michael Carrick parece enxergar o jovem como uma peça de elenco para a temporada, e não apenas como uma promessa da base.
Caso consiga oferecer minutos de qualidade ao longo do ano, Lacey pode evitar que o clube busque mais um meia ofensivo no mercado, economizando uma quantia significativa.
Mason Mount pode encontrar uma nova carreira no meio-campo
Outro jogador que ganha importância é Mason Mount. Desde sua chegada, o inglês conviveu com lesões e dificuldades para encontrar espaço em sua posição preferida. Entretanto, a Copa do Mundo e os testes realizados durante a pré-temporada abriram um novo caminho.
Atuando mais recuado, ao lado de Andrey Santos, Mount mostrou características que poucos imaginavam explorar. Com um volante mais posicional ao seu lado, passou a participar da construção sem perder sua capacidade de chegar ao ataque.
O próprio jogador reconheceu que essa parceria lhe oferece maior liberdade ofensiva. Caso a dupla continue funcionando, o Manchester United pode até adiar a contratação de mais um meio-campista, outra economia importante em um mercado cada vez mais inflacionado.
O maior desafio continua sendo físico. Nas últimas temporadas, Mount perdeu diversas partidas por lesão, impedindo qualquer sequência. Se conseguir permanecer saudável, talvez finalmente entregue o futebol que justificou seu investimento.
De Ligt e Rashford podem representar reforços sem custar um centavo
Existem reforços que chegam através de transferências. Outros chegam quando simplesmente voltam a jogar. É exatamente essa a expectativa em relação a Matthijs de Ligt.
Antes da grave lesão nas costas sofrida em novembro de 2025, o zagueiro vivia talvez o melhor momento desde sua chegada ao clube. Seguro defensivamente, dominante pelo alto e extremamente consistente na saída de bola, havia disputado todos os primeiros compromissos da Premier League antes de deixar o time.
Agora, a expectativa é que retorne antes do Natal. Caso consiga recuperar o mesmo nível apresentado anteriormente, o United ganhará praticamente um novo titular para a segunda metade da temporada sem precisar investir milhões em outro defensor.
Situação semelhante acontece com Marcus Rashford. Embora o clube ainda considere uma venda interessante caso apareça uma proposta adequada, sua permanência deixou de ser encarada como um problema.
Depois do empréstimo ao futebol espanhol, Rashford retorna com números expressivos: 28 participações diretas em gols entre assistências e bolas na rede. Mais importante do que as estatísticas, recuperou parte da confiança perdida nas últimas temporadas em Old Trafford.
Sob o comando de Carrick, ele provavelmente começará como alternativa de Matheus Cunha, mas oferece profundidade suficiente para que o clube não precise contratar outro ponta esquerda imediatamente.
Economizar também pode ser uma forma de evoluir, e o United sabe disso
Durante anos, o Manchester United tentou resolver praticamente todos os seus problemas comprando novos jogadores. O resultado foi um elenco caro, desequilibrado e repleto de atletas que nunca entregaram o retorno esperado.
A estratégia da INEOS tenta romper justamente esse ciclo. Em vez de acumular contratações, o clube procura maximizar aquilo que já possui. Promover jovens como Shea Lacey, reinventar jogadores como Mason Mount, recuperar atletas importantes como De Ligt e reintegrar Rashford representam movimentos que custam muito menos do que investir dezenas de milhões de libras em novos nomes.
Isso não significa que o Manchester United deixará de contratar. Um clube desse tamanho continuará recorrendo ao mercado sempre que necessário. A diferença é que cada investimento agora parece fazer parte de um planejamento maior, no qual o valor financeiro dos ativos pesa tanto quanto o desempenho esportivo.
Se essa filosofia dará resultado apenas o tempo poderá responder. Mas uma coisa já parece evidente: o Manchester United deixou de acreditar que gastar mais é sinônimo de competir melhor. Para um clube que durante anos foi acusado de inflacionar o mercado, essa talvez seja a mudança mais importante de todas.
(Foto: Getty Images)



