O US Open terminou sua edição de 2026 com uma contradição que resume parte dos desafios enfrentados pelo torneio nos últimos anos. O maior Grand Slam disputado no maior estádio de tênis do mundo continua produzindo aquilo que deveria ser seu principal produto: grandes partidas, novos protagonistas e histórias capazes de marcar uma geração. Ao mesmo tempo, boa parte da atenção que cerca o evento parece cada vez mais distante das quadras. Celebridades, influenciadores, experiências gastronômicas e preços exorbitantes passaram a disputar espaço com aquilo que deveria ser o centro de tudo: o tênis.
No entanto, as finais masculina e feminina ofereceram um lembrete importante de que o esporte ainda é capaz de vencer essa disputa quando recebe espaço para isso. No sábado, Elena Rybakina derrotou Aryna Sabalenka em uma partida de três sets marcada por resistência, tensão e intensidade. Sabalenka chegava como bicampeã consecutiva e favorita do público, mas Rybakina conseguiu transformar a pressão em uma atuação de força mental e competitividade. No domingo, Alexander Zverev derrotou Ben Shelton em quatro sets e conquistou o título masculino, enquanto o americano deixou novamente uma impressão de que o tênis masculino dos Estados Unidos pode estar entrando em uma nova fase.
Quando o tênis finalmente volta a ser o protagonista
Existe uma ironia na maneira como o US Open se apresenta ao público. O torneio construiu uma identidade comercial extremamente poderosa em torno de Arthur Ashe Stadium, das celebridades nas arquibancadas, do Honey Deuce e de experiências que transformam a ida a Flushing Meadows em um evento social. Isso funciona para gerar imagens, engajamento e atenção nas redes sociais. O problema aparece quando o espetáculo criado ao redor da quadra começa a competir com o espetáculo que acontece dentro dela.
A edição de 2026 mostrou isso de maneira bastante clara. Durante os primeiros dias, influenciadores e celebridades dominaram parte da cobertura pública do torneio. A presença deles gera cliques e manchetes justamente porque o objetivo dessas figuras é chamar atenção. Mas, conforme o torneio avançou, a lógica se inverteu. Nas semifinais e finais, as partidas passaram a produzir histórias suficientemente fortes para não depender de quem estava sentado na primeira fila.
Shelton e Zverev foram um exemplo perfeito. O americano e o alemão transformaram a final masculina em uma disputa de potência e tensão, com saques próximos dos 150 mph e pancadas que passavam por centímetros das linhas. Quando os dois realmente entraram no jogo, Arthur Ashe deixou de ser um desfile de celebridades e voltou a funcionar como aquilo que sempre deveria ter sido: uma arquibancada reagindo coletivamente ao que acontece dentro da quadra.
O mesmo aconteceu na decisão feminina. Depois de uma temporada em que Sabalenka havia se estabelecido como uma das grandes protagonistas do circuito, Rybakina encontrou uma maneira de controlar o aspecto emocional da partida e superar a força da adversária. O público, inicialmente inclinado à campeã, acabou sendo levado pela própria narrativa do jogo.
Essa talvez seja a maior conclusão do torneio: o US Open não precisa escolher entre entretenimento e tênis. Precisa apenas garantir que o entretenimento exista para valorizar o tênis, e não para substituí-lo.
O problema que realmente ameaça o torneio está no calendário
Mas os influenciadores não são o maior desafio do US Open. Existe um adversário muito mais poderoso e difícil de contornar: o calendário esportivo americano.
A decisão masculina acontece tradicionalmente no segundo domingo do torneio, justamente quando a temporada da NFL começa. Em 2026, o US Open voltou a enfrentar diretamente a primeira semana da liga que domina a audiência esportiva dos Estados Unidos. Não existe exatamente uma disputa equilibrada nesse cenário. A NFL possui uma força cultural e televisiva gigantesca no país, e tentar competir diretamente com ela significa aceitar que uma parcela significativa do público simplesmente estará olhando para outro lugar.
Outros esportes americanos já reconheceram esse problema. O golfe reorganizou parte de seu calendário para evitar a concorrência com o futebol americano, enquanto a NASCAR utiliza frequentemente as noites de sábado para fugir dos jogos de domingo. O tênis, por sua vez, mantém uma tradição que foi construída em uma época na qual o ambiente esportivo e midiático era completamente diferente.
Isso coloca o US Open diante de uma pergunta desconfortável: até que ponto a tradição deve impedir uma mudança que pode aumentar a relevância do torneio?
Antecipar o evento para o início de agosto seria pouco viável por causa do calor extremo em Nova York. Empurrá-lo para setembro significaria perder o tradicional feriado do Labor Day e criar novos problemas no calendário. Transferir a final masculina para o sábado resolveria apenas parcialmente a questão, já que o futebol universitário domina os sábados no outono americano.
Por isso, uma alternativa começa a ganhar força: realizar a final masculina na segunda-feira.
Segunda-feira pode ser uma solução, não um problema
Para o público tradicional do tênis, mudar a final para segunda-feira poderia parecer uma ruptura com a identidade histórica do US Open. Mas, do ponto de vista comercial e de audiência, a ideia possui lógica.
A segunda-feira eliminaria praticamente toda a concorrência direta da NFL. O torneio perderia parte da audiência internacional em função do horário, mas esse argumento também precisa ser colocado em perspectiva. O Australian Open e Roland Garros já exigem que os torcedores americanos acompanhem partidas em horários pouco convenientes. Ainda assim, esses torneios continuam relevantes.
O problema, portanto, não é simplesmente descobrir qual horário é perfeito para todos. É encontrar aquele que maximize a importância da final no principal mercado consumidor do US Open.
E o torneio tem motivos para querer essa proteção.
O tênis masculino começa a construir uma nova era com Carlos Alcaraz, Jannik Sinner e um Zverev que cada vez mais se aproxima do protagonismo que dele se esperava. Ao mesmo tempo, Ben Shelton representa algo particularmente valioso para o US Open: um americano jovem, carismático e capaz de levar o público a se identificar com uma nova geração.
No feminino, Rybakina e Sabalenka podem estar construindo uma rivalidade de enorme potencial. A final de 2026 não precisa ser encarada apenas como o encerramento de uma edição. Pode ser o primeiro grande capítulo de uma disputa que será acompanhada durante anos.
E o US Open deveria querer que o maior número possível de americanos estivesse olhando para isso.
O tênis americano está criando suas próprias histórias
Durante muito tempo, o US Open pôde depender de nomes históricos para carregar seu interesse doméstico. Serena Williams, Venus Williams, Andy Roddick e outras estrelas americanas fizeram com que o público dos Estados Unidos tivesse motivos naturais para acompanhar o torneio.
A transição geracional deixou um vazio. Agora, porém, o esporte começa a produzir novas possibilidades. Shelton não conquistou o título em 2026, mas sua presença na final é justamente o tipo de história que o torneio precisa cultivar. Um americano disputando uma decisão de Grand Slam em Nova York é muito mais valioso para o evento do que qualquer campanha de marketing construída artificialmente.
A mesma lógica vale para o feminino. O crescimento de novas protagonistas cria narrativas que podem sobreviver além de duas semanas em Flushing Meadows.
Esse é o verdadeiro produto que o US Open deveria vender. Não a celebridade que aparece na arquibancada por alguns minutos. Não o preço de um sanduíche. Não o coquetel que virou símbolo comercial do torneio.
O produto é a rivalidade. É o jogador americano tentando conquistar Nova York. É o campeão tentando defender seu título. É a jovem estrela tentando derrotar uma veterana. É uma partida que chega ao quinto set e faz dezenas de milhares de pessoas esquecerem por alguns minutos o celular, a câmera e tudo o que acontece fora da quadra.
O US Open tem algo que nenhum influenciador consegue fabricar: momentos esportivos que podem entrar para a história.
A edição de 2026 terminou justamente quando o torneio voltou a confiar nisso. Rybakina e Sabalenka produziram uma final feminina capaz de iniciar uma nova rivalidade. Shelton e Zverev entregaram uma decisão masculina de alta intensidade. E, por algumas horas, o que acontecia dentro da quadra foi maior do que tudo aquilo que normalmente disputa a atenção ao redor dela.
O desafio agora é fazer com que essa lógica não apareça apenas nas finais. O US Open continuará sendo um evento social, comercial e cultural. Isso faz parte de sua identidade e não precisa desaparecer. Mas existe uma diferença entre transformar o tênis em um grande evento e transformar um grande evento em algo que, por acaso, também possui partidas de tênis.
O torneio precisa escolher a primeira opção. Porque, no fim, a maior estrela de Flushing Meadows ainda não é o Honey Deuce, a celebridade na arquibancada ou o influenciador diante das câmeras.
É a quadra. E talvez o maior erro do US Open seja justamente esquecer o quanto ela já é suficiente.



