Tenis US Open

Por que o US Open está ‘matando’ os aces?

O US Open sempre foi associado a um tênis de potência. As quadras duras de Flushing Meadows, tradicionalmente rápidas, favorecem jogadores capazes de transformar o saque em uma arma para conquistar pontos gratuitos e controlar os games desde a primeira bola. Em 2026, porém, a lógica parece ter sido colocada à prova. Após 44 partidas de simples masculino, foram registrados 874 aces em 10.051 pontos disputados, uma taxa de apenas 8,7%. Se o índice permanecer nesse patamar até o fim do torneio, será o menor registrado em um Grand Slam de quadra dura desde o Australian Open de 2012.

O número chama atenção justamente porque o US Open historicamente apresenta uma taxa de aces superior a 10%. Mais do que uma simples oscilação estatística, a queda sugere que existe algo nas condições desta edição alterando a relação entre sacador, bola e quadra. E o mais curioso é que a própria superfície de Flushing Meadows não parece ser a principal responsável. Pelo contrário: a quadra tem se mostrado mais rápida do que a de Cincinnati, disputada na semana anterior. O problema está em outro lugar, principalmente na maneira como a bola está reagindo ao ambiente de Nova York.

A bola que está mudando o jogo

A Wilson Extra Duty utilizada no US Open possui características diferentes das bolas encontradas nos outros Grand Slams. Peso, composição e tipo de feltro fazem parte de uma equação que ganha ainda mais importância quando a bola é submetida às condições específicas do US Open. Em Nova York, o calor do fim do verão vem acompanhado de níveis elevados de umidade, e essa combinação interfere diretamente no comportamento do equipamento.

O ponto central está no feltro. Em um ambiente muito úmido, a bola tende a absorver mais umidade e sofrer um desgaste mais rápido. O feltro se expande, fica mais volumoso e a bola passa a oferecer maior resistência. Na prática, isso significa uma bola que perde parte da explosividade inicial e exige mais do jogador para produzir a mesma velocidade de saque. Ao longo de uma partida, o efeito se acumula: quanto mais a bola é utilizada, mais ela se afasta das condições ideais encontradas quando sai de uma lata nova.

Em tese, o ar úmido é menos denso do que o ar seco e, portanto, ofereceria menor resistência à trajetória da bola. Seria razoável imaginar que isso favoreceria os sacadores. Mas esse efeito é pequeno diante da transformação provocada pela umidade no próprio feltro. O que importa para o jogador não é apenas o meio pelo qual a bola viaja, mas aquilo que ele está efetivamente golpeando com a raquete. E uma bola mais pesada e menos responsiva reduz justamente a possibilidade de transformar um saque potente em um ponto direto.

O dia e a noite produzem dois US Opens diferentes

A situação fica ainda mais interessante quando se considera a diferença entre as sessões diurnas e noturnas. O US Open não acontece sob uma condição climática única durante todo o dia. Em uma mesma quadra, os jogadores podem encontrar ambientes bastante diferentes dependendo do horário em que entram em ação.

Durante o dia, o calor exerce enorme influência. Temperaturas mais altas aumentam o desgaste físico, dificultam o controle do lançamento da bola e tornam mais complicado repetir mecanicamente o movimento do saque durante várias horas. O suor também interfere na pegada e na estabilidade do gesto técnico. Em partidas longas, um saque que parecia automático no primeiro set pode se tornar progressivamente mais difícil de executar com a mesma precisão.

À noite, especialmente na Arthur Ashe, surge uma dinâmica diferente. Quando as condições internas do US Open são controladas, temperatura, circulação de ar e umidade passam a formar uma espécie de microambiente dentro do estádio. A bola continua sendo influenciada pela umidade e pelo desgaste, enquanto a sensação de velocidade da quadra pode não corresponder à velocidade efetiva que o sacador consegue imprimir à bola.

É justamente essa combinação que ajuda a explicar o paradoxo desta edição. A quadra pode ser rápida e produzir quique baixo, mas isso não significa automaticamente que o saque esteja funcionando como uma arma dominante. O jogador pode encontrar uma superfície que favorece golpes agressivos e, ao mesmo tempo, uma bola que dificulta a produção da velocidade necessária para transformar esses golpes em aces.

Um US Open devolução ganha importância

A consequência tática dessa transformação é talvez mais relevante do que a própria estatística. Jogadores que construíram seu tênis em torno de grandes saques perdem uma parcela de sua principal vantagem. Não significa que deixam de ser perigosos, mas passam a precisar vencer mais pontos depois do primeiro golpe.

Em condições normais, um grande sacador pode utilizar o serviço para encurtar os games, evitar trocas longas e proteger o próprio físico. Se a bola reduz a eficiência desse golpe, o jogador é obrigado a disputar mais pontos no fundo da quadra. Isso aumenta a importância da devolução, da movimentação e da resistência física.

O efeito favorece, naturalmente, jogadores capazes de sobreviver a partidas mais longas e transformar pequenas vantagens em pressão constante. O US Open pode continuar sendo um torneio de potência, mas a potência deixa de ser suficiente por si só. A capacidade de sustentar o nível durante longas sequências de trocas passa a ter um peso maior.

É uma mudança particularmente importante nas fases decisivas do torneio. À medida que os jogos ficam mais longos e a bola acumula desgaste, a diferença entre um jogador que depende de pontos gratuitos e outro confortável em rallies pode aumentar. O primeiro perde uma ferramenta essencial; o segundo pode enxergar uma oportunidade de prolongar cada ponto e transformar a partida em um teste físico e mental.

No final, os 8,7% de aces registrados no US Open até agora precisam ser tratados com cautela, porque a amostra ainda aumentará significativamente até o encerramento do torneio. Um pequeno grupo de partidas com sacadores menos eficientes pode alterar a média. Ainda assim, a distância para os padrões históricos é grande demais para ser ignorada.

Se o índice permanecer próximo desse patamar, o US Open de 2026 terá produzido uma das maiores anomalias recentes do tênis masculino em Grand Slams. A comparação com o Australian Open de 2012 é particularmente importante porque evidencia que não se trata simplesmente de uma edição com poucos aces, mas de uma possível mudança no comportamento do saque em um torneio tradicionalmente associado à potência.

O US Open continua sendo rápido. Os jogadores continuam golpeando a bola com velocidades impressionantes. Mas a bola não está necessariamente colaborando com quem quer transformar velocidade em ponto gratuito. E, em um esporte no qual uma pequena mudança física pode alterar completamente uma estratégia, essa diferença pode ser suficiente para transformar o torneio em uma disputa menos dominada pelos grandes sacadores e mais aberta aos jogadores capazes de vencer o ponto depois que o saque deixa de ser definitivo.

(Foto: Getty Images)