Kamaru Usman já foi o rosto da divisão dos meio-médios do UFC. Invicto por anos, dominante como poucos campeões foram, e responsável por algumas das performances mais sólidas da história recente da organização. Mas o tempo passa, os desafios se renovam, e a invencibilidade virou lembrança. Agora, prestes a enfrentar Joaquin Buckley no evento principal do UFC Atlanta, o nigeriano encara mais do que um adversário perigoso: encara uma encruzilhada em sua carreira. Aos 37 anos, com uma sequência de derrotas e vendo a nova geração ganhar espaço, Usman tem uma última chance real de provar que ainda pertence à elite do MMA mundial.
O UFC Atlanta, marcado para o dia 14 de junho, será palco dessa que talvez seja a luta mais importante da carreira de Kamaru Usman desde que perdeu o cinturão para Leon Edwards em 2022. E não por estar em disputa um título ou por ser um confronto histórico, mas porque o resultado pode determinar se Usman continua sendo relevante na categoria ou se dará início a um processo irreversível de declínio nos rankings.
O reinado e a queda de Usman
Usman foi campeão dos meio-médios de 2019 a 2022, com cinco defesas bem-sucedidas. Dominou nomes como Tyron Woodley, Colby Covington (duas vezes), Jorge Masvidal (duas vezes) e Gilbert Burns. Seu estilo de luta, baseado em wrestling sufocante e pressão constante, parecia imbatível. Além disso, desenvolveu uma trocação eficiente, o que lhe rendeu nocautes importantes.
No entanto, a primeira grande fissura em sua imagem de invencível veio em agosto de 2022, quando foi brutalmente nocauteado por Leon Edwards nos segundos finais de uma luta que vinha vencendo por decisão. Na revanche, perdeu novamente, dessa vez por decisão unânime, e mostrou sinais de queda física e mental. O baque foi tão forte que Usman passou um tempo afastado dos octógonos, até aceitar, em 2023, uma luta na divisão dos médios contra Khamzat Chimaev, onde acabou derrotado mais uma vez.
Com três derrotas consecutivas e quase dois anos sem vitória, o ex-campeão retorna agora ao peso onde construiu seu legado. Mas diferente dos tempos de domínio, Usman chega ao UFC Atlanta em condição rara: como azarão.
Buckley: a nova ameaça
Joaquin Buckley representa o momento atual da divisão dos meio-médios. Forte, explosivo, confiante e vindo de boas vitórias, Buckley está em ascensão. Seu estilo agressivo, de golpes plásticos e capacidade de nocautear com um único movimento, chama atenção tanto dos fãs quanto dos organizadores. Aos 30 anos, vive seu auge físico e tem a oportunidade de ouro de derrotar uma lenda e encurtar o caminho até um possível title shot.
Não por acaso, analistas como Daniel Cormier e Michael Bisping já apontaram que essa pode ser a luta que “passa o bastão” entre gerações. Cormier foi enfático ao dizer que essa é a “última chance” de Usman se manter relevante. E não é exagero. Uma nova derrota, especialmente diante de um nome em ascensão como Buckley, pode significar a queda definitiva do nigeriano no ranking e, pior, sua saída do radar das grandes lutas.
O que está em jogo
Para Usman, a vitória significaria mais do que um resultado positivo. Seria a confirmação de que ainda pode competir em alto nível, de que sua técnica e experiência ainda têm peso, mesmo contra adversários mais jovens e em melhor fase física. Um triunfo reacende sua candidatura a uma nova corrida pelo cinturão ou, ao menos, o mantém em disputas contra nomes relevantes como Belal Muhammad, Shavkat Rakhmonov ou até Ian Machado Garry.
Em caso de derrota, a história muda drasticamente. Três derrotas seguidas em sua categoria original, quatro no total, e o cenário se fecha. Usman passaria a ser tratado como ex-campeão em fim de carreira, e suas lutas futuras provavelmente seriam contra oponentes fora do top 10 — ou ainda serviria como trampolim para lutadores em ascensão.
Há, ainda, o fator psicológico. Kamaru Usman sempre foi um lutador seguro, confiante, disciplinado. Mas, após tantas derrotas em sequência, há dúvidas se ele ainda possui a mesma resiliência mental. A pressão por um resultado positivo pode afetar sua performance, especialmente contra um adversário imprevisível como Buckley.
O duelo técnico é fascinante. Usman é completo: wrestling de elite, defesa sólida, resistência comprovada. Buckley, por outro lado, tem poder de nocaute e agressividade. A luta deve se desenrolar com Usman tentando pressionar e levar para o chão, controlando posições e pontuando com segurança. Buckley, por sua vez, buscará espaços para conectar golpes curtos e definitivos.
O octógono dirá se a experiência de um ex-campeão supera o ímpeto da juventude ou se o tempo realmente passou para Kamaru Usman.
(Foto: Per Haljestam-USA TODAY Sports)