Moses itauma
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Sem Usyk, boxe britânico pode formar uma nova era nos pesados

Durante boa parte da última década, falar da categoria dos pesos-pesados do boxe significava inevitavelmente falar de Oleksandr Usyk. O ucraniano não apenas derrotou praticamente todos os principais nomes da divisão, como também impôs um padrão técnico raríssimo para um gigante acima dos 90 quilos. Enquanto ele ocupava o topo, os demais disputavam posições logo abaixo. Agora, porém, esse cenário mudou completamente.

Ao abrir mão dos cinturões da WBA, WBC e IBF, Usyk deixou um vazio que pode redefinir completamente a principal divisão do boxe mundial. E talvez nenhum país esteja tão preparado para aproveitar esse momento quanto a Grã-Bretanha.

O boxe britânico pode se tornar a principal força da divisão dos pesados

Pela primeira vez em muitos anos, o boxe britânico reúne quantidade, profundidade e renovação suficientes para sonhar não apenas com um campeão mundial, mas com um domínio coletivo da categoria mais tradicional do esporte.

Entre as quatro principais entidades mundiais, sete britânicos aparecem atualmente entre os dez primeiros colocados dos rankings. Daniel Dubois já é campeão da WBO. Tyson Fury continua ocupando a primeira posição no ranking do WBC. Anthony Joshua permanece entre os principais desafiantes da WBA. Moses Itauma surge como o maior fenômeno da nova geração e já foi ordenado a disputar o cinturão vago da IBF contra Frank Sanchez. Lawrence Okolie, Fabio Wardley e Richard Riakporhe completam uma lista que dificilmente encontra paralelo em qualquer outro país.

Mais do que quantidade, chama atenção a distribuição desses nomes. Há campeões, ex-campeões, atletas no auge e jovens talentos prontos para assumir o protagonismo nos próximos anos.

Essa profundidade não surgiu por acaso. Durante muito tempo, a categoria dos pesados foi dominada pelos Estados Unidos. De Joe Louis a Muhammad Ali, passando por Larry Holmes, Evander Holyfield, Mike Tyson e Lennox Lewis, ainda que este tenha representado o Reino Unido posteriormente, o centro do boxe mundial estava do outro lado do Atlântico.

Nos últimos anos, porém, essa realidade mudou. Os Estados Unidos deixaram de produzir pesos-pesados em quantidade semelhante, enquanto o Reino Unido construiu um sistema muito mais consistente de formação de atletas.

Boa parte dessa transformação passa diretamente pelo trabalho desenvolvido no programa GB Boxing. O centro de treinamento instalado em Sheffield se tornou referência mundial no desenvolvimento de pugilistas olímpicos. Anthony Joshua talvez seja o maior exemplo dessa filosofia. Entrou relativamente tarde no boxe, desenvolveu-se dentro do programa, conquistou o ouro olímpico em Londres 2012 e posteriormente tornou-se campeão mundial profissional.

Depois vieram Joe Joyce, Frazer Clarke e agora uma nova geração liderada por Damar Thomas, Matt Williams e Clinton Achusim, que já despontam como candidatos importantes para Los Angeles 2028. No entanto, a grande diferença está justamente no processo.

O sucesso do sistema britânico

Ao contrário do passado, os jovens britânicos chegam ao profissionalismo após anos enfrentando alguns dos melhores atletas amadores do planeta, acumulando experiências internacionais que aceleram sua adaptação ao boxe profissional.

Esse trabalho de base acabou encontrando outro elemento importante: uma estrutura profissional extremamente forte. Frank Warren e Eddie Hearn travam uma disputa comercial intensa há muitos anos, mas ambos contribuíram decisivamente para elevar o nível da categoria no Reino Unido.

Warren apostou cedo em Tyson Fury quando poucos acreditavam que o ex-campeão conseguiria retornar após seus problemas pessoais. Posteriormente, investiu pesado na contratação de Daniel Dubois, Moses Itauma e diversos outros jovens pesos-pesados.

Do outro lado, Hearn transformou Anthony Joshua em um fenômeno comercial praticamente sem precedentes na história recente do boxe britânico. O sucesso financeiro de Joshua mudou completamente a percepção da categoria. Estádios lotados passaram a ser rotina. Grandes bolsas tornaram-se possíveis. Jovens atletas passaram a enxergar o boxe como uma carreira extremamente rentável.

Esse aspecto talvez seja mais importante do que parece. Enquanto os Estados Unidos enfrentam concorrência do basquete e do futebol americano na formação de seus maiores atletas, o Reino Unido oferece menos caminhos igualmente lucrativos para jovens com grande porte físico.

Warren resumiu essa diferença de maneira bastante objetiva ao afirmar que, nos Estados Unidos, muitos dos melhores atletas acabam migrando naturalmente para NFL ou NBA. Na Grã-Bretanha, essa concorrência simplesmente não existe na mesma intensidade.

Os resultados aparecem dentro do ringue. Mesmo com Usyk dominando a divisão nos últimos anos, praticamente todos os principais desafiantes passaram a ser britânicos. Aagora, sem o ucraniano bloqueando o topo da categoria, o cenário se torna ainda mais favorável.

Fury e Joshua aproximam-se naturalmente do fim de suas carreiras. Dubois está no auge. Itauma representa o futuro. Poucos países conseguiram organizar uma sucessão tão clara dentro da principal categoria do boxe.

Enquanto isso, os Estados Unidos ainda procuram um sucessor para Deontay Wilder. Jarrell Miller aparece entre os mais bem posicionados dos rankings, mas seu histórico de doping compromete sua credibilidade. Richard Torrez Jr. sofreu uma derrota importante justamente quando parecia próximo de disputar um cinturão mundial. Jared Anderson ainda tenta reconstruir sua carreira após perder para Martin Bakole. Existe talento surgindo, mas não na mesma velocidade observada entre os britânicos.

Os britânicos ainda precisam tomar cuidado

Naturalmente, isso não significa que o domínio britânico esteja garantido.

Agit Kabayel tornou-se campeão do WBC. Frank Sanchez segue como um dos principais nomes da divisão. Murat Gassiev pode assumir definitivamente o cinturão da WBA. Há ainda nomes como Filip Hrgovic, Martin Bakole e vários outros candidatos capazes de equilibrar essa disputa. Ainda assim, poucos países apresentam atualmente um conjunto tão completo quanto o Reino Unido.

Talvez o maior símbolo dessa mudança esteja justamente em Moses Itauma. Durante anos, Anthony Joshua e Tyson Fury carregaram praticamente sozinhos a responsabilidade de manter o boxe britânico no topo da categoria. Hoje, Itauma surge sem esse peso. Ele encontra uma estrutura consolidada, promotores experientes, grandes eventos estabelecidos e uma tradição recente de campeões mundiais construída justamente por seus antecessores.

O momento parece ideal para uma troca de bastão. A saída de Usyk encerra oficialmente uma das maiores eras da história recente dos pesos-pesados. Ao mesmo tempo, cria uma oportunidade rara para que uma nova potência assuma o controle da divisão.

Se isso realmente acontecer, dificilmente será obra do acaso. Será consequência de quase quinze anos de investimento em formação, desenvolvimento técnico, promoção comercial e planejamento esportivo. Um trabalho silencioso que agora começa a colher seus maiores frutos justamente quando a categoria mais precisa encontrar seus novos protagonistas.

(Foto: Getty Images)