Shea Charles
Futebol Premier League

Shea Charles: como a joia do Manchester City se tornou o jogador mais caro da Irlanda do Norte

Quando Gerard Lyttle falou sobre Shea Charles em 2021, o meio-campista ainda era apenas uma promessa das categorias de base da Irlanda do Norte. Aos 17 anos, ele sequer havia feito sua estreia profissional por um clube, mas já havia deixado uma impressão forte em quem acompanhava seu desenvolvimento. Para Lyttle, era difícil encontrar alguém daquela idade tão confortável com a bola nos pés.

Cinco anos depois, aquela aposta ganhou uma dimensão completamente diferente. Charles deixou o Southampton para assinar com o Fulham por £30 milhões e se tornou o jogador mais caro da história da Irlanda do Norte. Aos 22 anos, o meio-campista finalmente retorna à Premier League, competição que conheceu ainda muito jovem, quando fazia parte do Manchester City.

O caminho até aqui, porém, esteve longe de ser linear. Charles precisou deixar o Etihad, passar pelo Southampton, ganhar experiência no Sheffield Wednesday, assumir responsabilidades na seleção e provar que poderia competir contra jogadores de elite antes de receber uma nova oportunidade no mais alto nível do futebol inglês.

Agora, o desafio é transformar potencial em afirmação.

Shea Charles já chamava atenção no Manchester City

A relação de Shea Charles com o Manchester City começou cedo. O jogador entrou na academia do clube aos sete anos e percorreu praticamente todas as categorias de formação até chegar ao time profissional.

Seu grande salto aconteceu na temporada 2021/22, quando ajudou o City a conquistar o título da Premier League 2. Naquele elenco estavam jogadores que também tinham um futuro importante pela frente, como Cole Palmer, Morgan Rogers e Nico O’Reilly.

Charles, naquele momento, ainda atuava como zagueiro.

Essa informação ajuda a entender uma das principais características de sua formação. O norte-irlandês desenvolveu desde cedo uma relação muito forte com a bola e com a construção de jogo desde trás. Mesmo quando passou a atuar mais avançado, carregou consigo essa capacidade de leitura e distribuição.

Lyttle enxergava exatamente isso.

O treinador das categorias de base da Irlanda do Norte descreveu Charles como um jogador extremamente calmo, capaz de encontrar passes, quebrar linhas, jogar curto ou longo e ainda competir fisicamente. Para ele, o jovem tinha características raras para um defensor.

A posição mudou, mas a qualidade com a bola permaneceu.

Experiência de Shea Charles com Rodri e Fernandinho

Poucos jovens têm a oportunidade de aprender diretamente com jogadores do nível de Rodri e Fernandinho. Charles teve.

Durante sua passagem pelo Manchester City, o meio-campista treinava com alguns dos melhores jogadores do mundo e podia observar diariamente o que era necessário para dominar uma posição tão exigente.

Ele próprio já contou que os treinamentos com Rodri e Fernandinho eram difíceis, mas extremamente importantes para seu desenvolvimento.

Não é difícil imaginar o motivo.

Rodri transformou a posição de volante em uma espécie de laboratório de controle do jogo. Fernandinho, por sua vez, combinava inteligência tática, intensidade e experiência. Para um jovem que estava tentando entender seu próprio estilo, conviver com os dois oferecia uma espécie de pós-graduação acelerada.

Charles não teve apenas bons treinadores. Teve referências práticas todos os dias.

Estreia pela Irlanda do Norte aconteceu antes do profissional

Um dos sinais mais claros da confiança depositada em Shea Charles veio justamente da seleção.

Em junho de 2022, ele recebeu sua primeira convocação para a Irlanda do Norte e estreou contra a Grécia como substituto nos minutos finais. O detalhe curioso é que Charles ainda não havia disputado uma partida profissional pelo Manchester City.

Ou seja, ele jogou pela seleção principal antes mesmo de estrear oficialmente pelo clube.

Naquele momento, a decisão parecia ousada. Charles, porém, aproveitou a oportunidade.

Depois, sua presença na seleção se tornou cada vez mais frequente. Desde o retorno de Michael O’Neill ao comando da Irlanda do Norte, Charles se transformou em uma peça importante do time e praticamente não deixou de aparecer nas convocações.

Em cinco anos, aquele adolescente que ainda não tinha uma partida profissional acumulou 35 jogos pela seleção principal.

Shea Charles precisou sair do Manchester City

O problema para Charles era que o Manchester City oferecia uma formação de altíssimo nível, mas não necessariamente um caminho simples para a equipe principal.

O clube tinha opções consolidadas para o meio-campo e disputava títulos em praticamente todas as temporadas. Para um jogador jovem, esperar por uma oportunidade poderia significar perder anos importantes de desenvolvimento.

Por isso, apenas um mês depois de sua estreia pelo City, Charles assinou com o Southampton.

A mudança foi importante. No novo clube, ele teve espaço para jogar regularmente e participou de 32 partidas na temporada em que o Southampton conseguiu retornar à Premier League.

Em vez de continuar esperando uma chance no Etihad, Charles escolheu construir sua própria trajetória. Foi uma decisão que exigiu paciência.

Sheffield Wednesday ajudou Charles a amadurecer

Com o Southampton novamente na Premier League, Charles poderia ter permanecido no elenco. Em vez disso, o clube optou por um empréstimo ao Sheffield Wednesday.

Foi uma etapa importante para o jogador.

No futebol inglês, especialmente fora do ambiente protegido das categorias de base, Charles começou a enfrentar uma realidade diferente. Mais minutos, mais responsabilidade e adversários que não estavam interessados em saber se ele era uma promessa do Manchester City.

No Sheffield Wednesday, ele rapidamente conquistou os torcedores.

O então treinador Danny Rohl chegou a lamentar que Charles não pertencesse definitivamente ao clube e destacou seu potencial. A passagem pelo time também mostrou que o meio-campista conseguia assumir responsabilidades em um ambiente de pressão. E isso chamou a atenção de O’Neill.

Braçadeira chegou antes dos 22 anos

Durante seu empréstimo ao Sheffield Wednesday, Shea Charles recebeu uma das maiores demonstrações de confiança possíveis.

Poucos dias depois de completar 21 anos, ele foi escolhido por Michael O’Neill para ser capitão da Irlanda do Norte.

Charles se tornou o jogador mais jovem a usar a braçadeira da seleção desde Terry Neill, em 1963.

Não foi uma escolha apenas baseada em idade ou potencial. O’Neill destacou justamente o temperamento do jogador e sua capacidade de liderar dentro de campo.

A braçadeira também ajudou a mudar a percepção sobre Charles. Ele deixou de ser apenas o jovem formado no Manchester City e passou a ser visto como uma referência de uma seleção que busca construir uma nova geração.

Southampton foi o palco da afirmação

Com o Southampton novamente na Championship, Charles retornou ao clube e teve uma temporada importante.

O meio-campista passou a contribuir mais ofensivamente e terminou a campanha com seis gols, seu melhor número até então.

Alguns desses gols tiveram peso enorme. Charles marcou contra o Arsenal nas quartas de final da FA Cup, balançou as redes diante do Liverpool em Anfield pela Copa da Liga Inglesa e também marcou contra o Middlesbrough nos playoffs da Championship.

A temporada terminou sem o acesso do Southampton, mas Charles saiu dela com algo talvez ainda mais importante: a certeza de que poderia competir em alto nível.

Charles já provou isso contra gigantes da Europa

Se os jogos pelo Southampton foram importantes, as partidas pela Irlanda do Norte ajudaram a consolidar a ideia de que Charles estava pronto para voltar à Premier League.

Contra a França, ele não pareceu deslocado diante de jogadores de nível mundial.

Contra a Itália, em março, a atuação foi ainda mais significativa. Charles foi apontado como um dos melhores jogadores em campo mesmo enfrentando Sandro Tonali e Nicolò Barella.

A Irlanda do Norte acabou derrotada por 2 a 0 e ficou fora da Copa do Mundo, mas Charles deixou uma mensagem clara.

Depois daquela partida, sua avaliação foi direta: “Eu confio em mim contra qualquer um.”

Pode parecer uma frase ousada para um jogador de 22 anos. Mas, considerando o caminho percorrido, existe bastante fundamento por trás dela.

Fulham representa a nova oportunidade na Premier League

Leeds United chegou a aparecer como um possível destino para Charles, mas foi o Fulham quem avançou e fechou sua contratação por £30 milhões.

O valor transforma o meio-campista no jogador mais caro da história da Irlanda do Norte. Mais importante do que o recorde, porém, é o significado esportivo da transferência.

Charles está voltando à Premier League em uma situação completamente diferente daquela de 2023. Na época, era um jovem formado pelo Manchester City tentando conseguir seus primeiros minutos. Agora, chega ao Fulham como um jogador internacional estabelecido, capitão de sua seleção e dono de uma experiência muito maior.

Ele também terá um novo desafio sob o comando de Álvaro Arbeloa, ex-jogador de Real Madrid e Liverpool que agora inicia sua trajetória como treinador do clube londrino.

O que esperar de Shea Charles no Fulham?

A grande questão agora é saber se Charles conseguirá transportar para a Premier League o nível de atuação que apresentou na Championship e pela Irlanda do Norte.

As características estão lá.

Ele possui boa leitura de jogo, qualidade no passe, capacidade física e tranquilidade para atuar sob pressão. A experiência como zagueiro também contribuiu para sua percepção defensiva, algo especialmente útil para um meio-campista que precisa proteger a equipe.

Além disso, Charles chega ao Fulham em uma idade interessante.

Aos 22 anos, ainda tem bastante espaço para evoluir, mas já não é um garoto sem experiência. São 35 partidas pela seleção principal, passagens por Manchester City, Southampton e Sheffield Wednesday e uma série de jogos importantes em competições nacionais e internacionais.

O maior desafio será manter regularidade.

A Premier League exige intensidade praticamente todas as semanas. Não basta aparecer contra Arsenal, Itália ou França e depois desaparecer contra adversários teoricamente mais acessíveis. Para se estabelecer definitivamente no futebol inglês, Charles precisará transformar seus bons momentos em rotina.

Longo caminho de Shea Charles pode finalmente valer a pena

A trajetória de Shea Charles é um daqueles casos em que o desenvolvimento não aconteceu exatamente como o roteiro inicial previa.

Ele foi formado pelo Manchester City, aprendeu com Rodri e Fernandinho, chegou à seleção antes de estrear profissionalmente, deixou o clube em busca de minutos, passou pelo Sheffield Wednesday, ganhou a braçadeira da Irlanda do Norte e voltou a chamar atenção no Southampton.

Agora, aos 22 anos, ele chega ao Fulham como o jogador mais caro da história de seu país.

Não é pouca coisa. Mas o recorde de transferência não será suficiente para definir sua carreira. A verdadeira resposta virá dentro de campo, na Premier League, onde Charles terá finalmente a oportunidade de mostrar se aquela previsão feita por Gerard Lyttle em 2021 estava certa.

Na época, o treinador dizia que ainda havia muito mais para o jovem mostrar. Cinco anos depois, Charles está diante do maior palco de sua carreira. E, pelo caminho que percorreu, esperar que ele ainda tenha alguma coisa guardada na manga não parece nenhum exagero.

Foto: Getty Images