Gregory “Robocop” Rodrigues saiu do UFC Sacramento com a maior vitória de sua carreira no UFC e, principalmente, com uma resposta para uma das principais dúvidas que acompanhavam sua trajetória: até onde o brasileiro poderia chegar quando a luta não fosse resolvida pela sua conhecida potência de golpes? Diante de Anthony Hernandez, um dos pesos-médios mais insistentes e fisicamente desgastantes da organização, Rodrigues venceu por decisão unânime.
Mais do que o resultado, entretanto, foi a maneira como Robocop construiu a vitória que merece atenção. O brasileiro entrou no duelo abaixo nos rankings da categoria e diante de um adversário que vinha de uma longa sequência positiva antes da derrota para Sean Strickland. Hernandez tinha justamente o estilo capaz de colocar Rodrigues em uma situação desconfortável: pressão constante, tentativas de queda e um ritmo alto durante cinco rounds.
O desafio era sobreviver ao jogo de Hernandez
A luta começou exatamente como se poderia imaginar. Hernandez tentou transformar o combate em uma disputa de desgaste, aproximando-se, buscando quedas e tentando impedir que Rodrigues encontrasse a distância necessária para utilizar sua maior arma: a potência no boxe. O brasileiro, porém, mostrou uma evolução importante na defesa de quedas e conseguiu manter boa parte das ações em pé.
O dado mais expressivo dessa resistência foi a capacidade de Rodrigues de neutralizar 26 das 29 tentativas de queda de Hernandez. Isso muda completamente a leitura do confronto. O americano não conseguiu estabelecer de maneira consistente o jogo de grappling que normalmente serve como ponto de partida para sua pressão.
E, quando a luta permaneceu em pé, Robocop encontrou o caminho para impor sua estratégia. Os chutes baixos e os ataques ao corpo começaram a cobrar seu preço, enquanto o brasileiro utilizava sua vantagem de potência para fazer Hernandez pensar duas vezes antes de simplesmente avançar. O resultado foi uma luta na qual o americano precisou gastar energia para chegar ao brasileiro, mas raramente conseguiu transformar essa aproximação em domínio efetivo.
O segundo round mostrou talvez o melhor momento de Rodrigues na luta. Os chutes na perna dianteira de Hernandez começaram a comprometer sua movimentação e chegaram a derrubá-lo. Com o americano abalado e próximo à grade, Robocop teve a oportunidade de acelerar e buscar o nocaute. Hernandez, entretanto, sobreviveu.
Esse momento é importante porque Rodrigues não entrou em pânico quando o golpe definitivo não apareceu. Em outras ocasiões, a tendência do brasileiro poderia ser transformar a luta em uma perseguição pelo nocaute. Contra Hernandez, ele mostrou maior disciplina. Continuou trabalhando a perna, atacando o corpo e escolhendo melhor os momentos para acelerar.
Hernandez conseguiu responder no terceiro round. O americano aumentou a pressão, voltou a procurar quedas e aproveitou o desgaste de Rodrigues para tornar o confronto mais equilibrado. Era justamente o cenário no qual as dúvidas sobre o condicionamento do brasileiro poderiam reaparecer. Só que Robocop encontrou uma maneira de recuperar o controle nos dois últimos assaltos, voltando a pressionar e a conectar golpes significativos.
A evolução que pode mudar o lugar de Gregory Rodrigues na categoria
A grande vitória de Rodrigues, portanto, não está apenas no fato de ter derrotado Hernandez. Está em ter derrotado Hernandez da maneira que precisava. O brasileiro entrou em uma luta de cinco rounds contra um adversário conhecido por seu cardio, resistiu às quedas, sobreviveu aos momentos de pressão e ainda terminou o combate melhor do que o adversário.
Isso representa uma mudança importante na percepção sobre o brasileiro. Rodrigues sempre carregou a reputação de ser um lutador capaz de apagar as luzes de qualquer adversário. Ele tem potência suficiente para transformar uma luta equilibrada em nocaute em poucos segundos. Mas, para chegar ao grupo que efetivamente disputa o cinturão, depender apenas dessa característica seria insuficiente.
Contra Hernandez, Robocop apresentou uma versão mais completa. Soube lutar quando precisava lutar em distância, defender quando o adversário tentou levá-lo para o chão e administrar os momentos em que sua própria condição física era colocada à prova. É uma evolução especialmente relevante porque a elite dos médios costuma exigir exatamente essa capacidade de vencer diferentes tipos de luta.
O resultado também prolongou a sequência positiva do brasileiro para quatro vitórias consecutivas, elevando seu cartel no UFC para 11-3. Depois do combate, Rodrigues não escondeu a ambição e chamou o ex-campeão Dricus du Plessis para o próximo desafio.
O próximo passo precisa ser maior
A chamada por du Plessis não é apenas uma tentativa de conseguir um grande nome. Ela representa a mudança de patamar que Rodrigues busca. Aos 33 anos, o brasileiro não parece ter interesse em passar mais algumas lutas apenas consolidando uma posição entre os 15 melhores. A vitória sobre Hernandez oferece justamente a justificativa esportiva para mirar um adversário mais próximo da disputa pelo título.
Ainda existe, naturalmente, uma distância entre vencer o número 6 e estar pronto para enfrentar os melhores da divisão. Robocop terá de provar que consegue reproduzir esse nível de atuação contra lutadores com maior capacidade de wrestling, mais experiência em cinco rounds e, sobretudo, maior eficiência defensiva.
Mas Sacramento forneceu uma evidência importante: Rodrigues não precisa necessariamente nocautear para vencer uma grande luta. E talvez essa seja a conclusão mais relevante da noite. O poder de nocaute continuará sendo sua principal ameaça, mas, se o brasileiro realmente tiver acrescentado essa capacidade de administrar cinco rounds, defender quedas e controlar o ritmo do combate ao seu arsenal, o que antes era um perigoso peso-médio pode estar se transformando em um verdadeiro candidato ao topo da categoria.
Robocop não saiu de Sacramento apenas com uma vitória. Saiu com uma nova possibilidade de carreira.
(Foto: Divulgação/UFC)



