Gregory Rodrigues terá pela frente um dos desafios mais complicados de sua trajetória no UFC. Neste sábado, o brasileiro encara Anthony Hernandez no evento principal e chega ao confronto como azarão, enquanto o norte-americano aparece como favorito por causa de seu wrestling, capacidade de pressionar durante os cinco rounds e excelente condicionamento físico.
No papel, Fluffy reúne boa parte das características necessárias para dificultar a vida de Gregory Rodrigues. Ele é mais eficiente nas quedas, consegue conectar diferentes tentativas de takedown, trabalha bem nas transições e costuma ficar ainda mais perigoso conforme o adversário começa a perder energia.
Só que existe um detalhe que impede qualquer previsão de uma luta tranquila para o favorito: Gregory Rodrigues tem poder suficiente para acabar com o combate antes que Hernandez consiga colocar seu plano em prática.
Essa é a grande questão do confronto. O brasileiro precisa aproveitar uma janela muito específica, principalmente nos primeiros minutos. Se conseguir machucar Hernandez cedo, pode transformar completamente uma luta que, em teoria, favorece o norte-americano.
Robocop é extremamente perigoso no primeiro round
O histórico de Gregory Rodrigues ajuda a explicar por que Anthony Hernandez não pode simplesmente entrar no octógono pensando em executar seu wrestling desde o primeiro segundo.
O brasileiro tem 19 vitórias e seis derrotas na carreira, com sete nocautes conquistados dentro do UFC. O mais interessante é que quatro dessas vitórias aconteceram ainda no primeiro round.
Julian Marquez foi nocauteado aos 3min18s, Denis Tiuliulin caiu aos 1min43s e Jack Hermansson não resistiu até os cinco minutos, sendo parado aos 4min21s. Mais recentemente, Gregory Rodrigues conseguiu um dos resultados mais importantes de sua carreira contra Brunno Ferreira, vencendo por nocaute aos 1min47s.
O triunfo teve um peso ainda maior porque Ferreira havia derrotado o brasileiro por nocaute no primeiro round em 2023. Gregory Rodrigues voltou a enfrentar o compatriota e conseguiu devolver o resultado, além de receber o bônus de Performance da Noite.
Não é coincidência que seus maiores momentos aconteçam cedo.
Gregory Rodrigues é um peso-médio grande, luta em pé com uma postura alta e utiliza um jab pesado para controlar a distância. Quando consegue empurrar o adversário para perto da grade, começa a encontrar espaço para sua direita e para o gancho de esquerda.
Ele não precisa de uma sequência longa de golpes para mudar uma luta. Um golpe limpo pode ser suficiente.
Estilo agressivo de Gregory Rodrigues também é seu maior risco
Existe, porém, um problema importante para o brasileiro.
A mesma agressividade que faz de Gregory Rodrigues um dos lutadores mais perigosos da divisão também o coloca em situações de risco. Ele absorve 4,78 golpes significativos por minuto e tem 50% de aproveitamento na defesa desses ataques.
Ou seja, Gregory Rodrigues não é um lutador que passa a maior parte do tempo evitando trocação e esperando o adversário cometer um erro.
Ele aceita a briga.
O brasileiro conecta 5,53 golpes significativos por minuto, com 51% de precisão. São números interessantes para um atleta conhecido principalmente por seu poder de nocaute e mostram que ele não precisa de apenas uma oportunidade por luta.
O problema é que essa postura cobra um preço quando o combate se prolonga.
Jared Cannonier mostrou isso em fevereiro de 2025. O veterano conseguiu desgastar Gregory Rodrigues e finalizá-lo aos 21 segundos do quarto round. Antes disso, o brasileiro já havia passado por uma batalha física intensa.
A derrota para Brunno Ferreira em 2023 também serve como lembrete de que sua defesa pode ser colocada em dúvida quando ele aceita trocas muito abertas.
Por isso, contra Hernandez, Gregory Rodrigues precisará ser agressivo sem transformar a luta em uma guerra desnecessária.
Anthony Hernandez quer exatamente uma luta longa
O problema para Gregory Rodrigues é que Anthony Hernandez possui um estilo praticamente feito para explorar essa vulnerabilidade.
O norte-americano tem 15 vitórias, três derrotas e um no contest, mas ainda não conseguiu finalizar um adversário do UFC no primeiro round.
Isso não significa que o Fluffy demore para encontrar o caminho da vitória. Na verdade, seu histórico mostra que ele costuma ficar mais perigoso conforme o combate avança.
Rodolfo Vieira, JunYong Park e Roman Kopylov foram finalizados no segundo round. Marc-Andre Barriault e Edmen Shahbazyan caíram no terceiro. Roman Dolidze foi derrotado no quarto round, enquanto Michel Pereira chegou ao quinto antes de ser finalizado.
Hernandez trabalha como uma espécie de panela de pressão. Ele derruba, controla, troca de posição, tenta outra queda e continua pressionando até o adversário começar a cometer erros.
Seu ritmo também é um problema para Gregory Rodrigues. Hernandez registra 5,88 quedas por 15 minutos e consegue conectar diferentes tentativas de wrestling em sequência.
Se a primeira entrada for defendida, ele não necessariamente abandona a ideia. Tenta novamente. E outra vez.
Para Gregory Rodrigues, isso significa que uma boa defesa de queda não será suficiente. Ele precisará defender várias situações durante a luta.
Gregory Rodrigues precisa aproveitar a vulnerabilidade inicial
É justamente por isso que o primeiro round será tão importante.
Hernandez nunca finalizou um adversário do UFC no primeiro round, enquanto Gregory Rodrigues já possui quatro nocautes nessa etapa da luta.
Essa diferença mostra o caminho mais claro para o brasileiro. Robocop precisa manter a luta em pé, trabalhar o jab e evitar ficar parado contra a grade. Quanto mais tempo conseguir controlar a distância, maiores serão as chances de encontrar sua mão direita.
Ele não precisa dominar Hernandez durante cinco minutos. Precisa apenas criar uma oportunidade. E, quando essa oportunidade aparecer, não pode desperdiçá-la.
Kevin Holland já mostrou que Hernandez pode ser surpreendido no início de uma luta. O americano o nocauteou em apenas 39 segundos em 2020.
Sean Strickland também conseguiu explorar suas dificuldades na trocação, embora tenha precisado de mais tempo para fazê-lo.
A diferença é que Gregory Rodrigues possui uma força de golpe que pode transformar uma pequena abertura em um nocaute.
Defesa de quedas pode ajudar Gregory Rodrigues
Outro ponto que pode dar esperança ao brasileiro é sua defesa de takedowns.
Gregory Rodrigues apresenta 75% de defesa de quedas, um número que pode ser fundamental para manter o combate onde ele mais interessa: em pé.
É claro que isso não significa que Hernandez terá dificuldades automaticamente. O norte-americano é excelente em encadear quedas e pode aproveitar uma defesa de Gregory Rodrigues para buscar outra posição.
Mesmo assim, cada defesa bem-sucedida representa uma oportunidade. Se o brasileiro conseguir impedir as primeiras entradas, voltar rapidamente para o centro do octógono e obrigar Hernandez a trocar golpes, sua vantagem de poder passa a ser ainda mais evidente.
É quase como jogar contra um cronômetro. Gregory Rodrigues precisa resolver o problema antes que Hernandez consiga transformar a luta em um teste de resistência.
O que acontece se Robocop não conseguir o nocaute?
Essa é a pergunta mais preocupante para o brasileiro. Se o primeiro round terminar sem grandes danos para Hernandez, o favoritismo do norte-americano tende a crescer.
Hernandez poderá aumentar a frequência das quedas, trabalhar contra a grade e obrigar Gregory Rodrigues a gastar energia para se levantar. Cada tentativa de fuga exige esforço físico, e esse gasto pode fazer diferença nos rounds seguintes.
Quanto mais cansado o Robocop estiver, mais difícil será manter a velocidade dos golpes e defender as entradas.
O combate contra Cannonier mostrou como isso pode terminar.
Gregory Rodrigues continua sendo perigoso mesmo cansado, mas sua capacidade de absorver golpes diminui enquanto a luta avança. Hernandez, por outro lado, parece confortável justamente quando o adversário começa a perder o fôlego.
É por isso que o brasileiro não pode permitir que o combate vire uma maratona.
Gregory Rodrigues precisa transformar poucos minutos em vitória
No fim das contas, o caminho de Gregory Rodrigues para vencer Anthony Hernandez é relativamente simples de entender, embora seja muito mais difícil de executar.
Ele precisa usar o jab para controlar a distância, defender as primeiras quedas, evitar ficar preso contra a grade e buscar a mão direita ou o gancho de esquerda quando encontrar espaço.
Mais importante: Robocop precisa fazer isso cedo. O brasileiro não precisa ser superior a Hernandez durante 25 minutos. Ele precisa aproveitar alguns segundos de superioridade para colocar o adversário em uma situação da qual não consiga sair.
Se conseguir, pode conquistar mais um grande nocaute no UFC. Se não conseguir, a luta tende a caminhar para o território em que Hernandez é mais confortável: pressão, quedas, controle e desgaste.
É justamente essa diferença que torna o confronto tão interessante. Anthony Hernandez pode ter mais ferramentas para vencer uma luta longa, mas Gregory Rodrigues tem uma arma capaz de tornar qualquer estratégia irrelevante em questão de segundos.
Para o brasileiro, a janela está aberta no primeiro round. O desafio será não deixá-la fechar.
Foto: Louis Grasse/PxImages



