Alexander Volkanovski é, sem dúvida, um dos maiores lutadores da história recente do UFC. O australiano transformou a divisão dos penas em seu território pessoal por muitos anos, dominando o cenário com uma combinação rara de inteligência tática, resistência e poder. Entretanto, conforme a carreira do campeão avança para sua reta final, uma nova narrativa começa a tomar forma: a de que sua grandeza. e, mais precisamente, seu calendário, pode estar travando o ritmo competitivo da categoria.
Essa é a leitura feita por Steve Garcia, um dos atletas emergentes do peso-pena, que expressou sua frustração em entrevista durante a semana do UFC Vegas 110, evento no qual enfrentará David Onama. “Volk está muito ocupado cozinhando”, ironizou Garcia, em alusão aos projetos paralelos e à agenda repleta do campeão. “Ele está segurando todo mundo lá no topo. Precisa tomar uma decisão. Escolha alguém! A gente está esperando. É hora de colocar a divisão para andar novamente.”
A crítica de Garcia ecoa um sentimento crescente entre lutadores e fãs. Desde que Volkanovski reconquistou o cinturão dos penas ao derrotar Diego Lopes em abril, pouco se avançou na definição de seu próximo desafiante. O nome mais cotado é o de Lerone Murphy, invicto no UFC e vindo de uma sequência de vitórias convincentes. Ainda assim, a luta não foi confirmada, e a incerteza sobre a volta do campeão tem causado inquietação.
Volkanovski e os problemas na divisão
Aos 37 anos, Volkanovski se encontra em um ponto delicado de sua carreira. Ele ainda é tecnicamente superior à maioria dos adversários, mas as demandas de um corpo veterano e o peso de anos no topo começam a cobrar seu preço. Nos últimos anos, ele disputou lutas intensas e sofreu nocautes duros contra Ilia Topuria e Islam Makhachev, o que reforça sua imagem de guerreiro incansável, mas também alimenta questionamentos sobre até que ponto ele deve continuar dividindo foco entre divisões e projetos.
Garcia, ao apontar o dedo para o campeão, traz à tona um debate antigo no MMA: o que acontece quando a longevidade e o prestígio de um grande nome se transformam, involuntariamente, em um obstáculo para o fluxo natural de uma categoria? O caso de Volkanovski lembra situações semelhantes vividas por outros campeões dominantes, como Georges St-Pierre nos meio-médios, Anderson Silva nos médios e, mais recentemente, Amanda Nunes entre as mulheres — reinados longos que, em determinado momento, começaram a restringir a renovação e a oxigenação das divisões.
Os novos nomes dos penas estão prontos?
A situação dos penas, em particular, é sensível. A categoria vive um momento de transição, com uma geração promissora tentando romper a barreira que separa o “top 5” do topo da cadeia. Além de Lerone Murphy, nomes como Movsar Evloev, Jean Silva, Diego Lopes e o próprio Steve Garcia buscam consolidar espaço. O problema é que, sem um campeão ativo e sem uma linha clara de defesa do cinturão, o caminho de todos esses atletas fica em suspenso.
O UFC, historicamente, sofre com esse tipo de paralisia em categorias dominadas por grandes campeões. O fascínio comercial por Volkanovski é evidente: ele é carismático, respeitado e uma figura de marketing internacional. No entanto, o esporte, enquanto sistema competitivo, exige movimento. Cada mês sem defesa de cinturão significa meses de espera para potenciais desafiantes, renegociações de contratos e, no limite, perda de interesse do público em uma divisão que sempre foi uma das mais técnicas e emocionantes do MMA.
É importante ressaltar que Volkanovski nunca fugiu da luta. Ao contrário: ele construiu sua reputação enfrentando qualquer adversário, em qualquer condição, e sempre se mostrou disposto a arriscar. A questão agora parece ser menos de coragem e mais de gestão de tempo e prioridades. Após anos de alto rendimento, o australiano tem se envolvido em aparições midiáticas, compromissos comerciais e projetos pessoais — algo natural para um campeão veterano, mas que, na prática, reduz sua frequência de atuação.
O matchmaking do UFC também é um problema
A paralisação dos penas também evidencia um problema estrutural dentro do UFC: a falta de clareza no matchmaking das divisões intermediárias. Sem um calendário regular de defesas e com poucos “title eliminators”* claros, os lutadores muitas vezes dependem da vontade do campeão ou da conveniência do momento para terem suas oportunidades. No caso de Volkanovski, que está em fase de reavaliação física e mental após uma década de competição intensa, o resultado é um vácuo competitivo que atinge toda a categoria.
Enquanto isso, a impaciência dos desafiantes cresce. Steve Garcia, embora não esteja no topo do ranking, vocaliza o que muitos pensam: a necessidade de renovação e continuidade. Em termos puramente esportivos, a ausência prolongada de Volkanovski cria um efeito dominó: menos oportunidades para os aspirantes, menos narrativas em andamento e, consequentemente, menor engajamento do público.
No entanto, também há quem defenda o campeão. Muitos analistas argumentam que Volkanovski merece o tempo para se recuperar e escolher seu próximo passo. Após anos de lutas em ritmo frenético e de duas subidas para enfrentar Makhachev, ele teria o direito de gerir o fim de sua carreira com cautela.
De todo modo, a tensão permanece. A frase provocadora de Garcia virou manchete não apenas por seu tom sarcástico, mas porque traduz com precisão o sentimento atual do peso-pena: uma mistura de respeito, frustração e urgência.
O futuro de Volkanovski deve ser anunciado nas próximas semanas, e tudo indica que Lerone Murphy será mesmo o próximo a desafiar o cinturão. Se essa luta acontecer até o primeiro trimestre de 2026, a divisão poderá retomar seu curso natural. Caso contrário, o risco de estagnação continuará a crescer, alimentando ainda mais a percepção de que a grandeza do campeão, paradoxalmente, se tornou o maior obstáculo da categoria.
No fim, o legado de Alexander Volkanovski segue intocado. Ele continua sendo um dos maiores atletas que o MMA já produziu. Mas até mesmo os gigantes precisam tomar decisões. E, como disse Steve Garcia, talvez seja hora de o campeão parar de “cozinhar” e voltar ao que faz de melhor: lutar.