Quando o Liverpool decidiu abrir o cofre e investir £116 milhões para tirar Florian Wirtz do Bayer Leverkusen, não existiam brechas para problemas. Jogador criativo, decisivo, protagonista de uma temporada histórica na Bundesliga… Simplesmente um atleta de alto nível sendo adicionado num elenco vencedor e dominante da Premier League. Entretanto, as coisas não se encaminharam da forma como eram imaginadas.
Depois de 15 rodadas do Campeonato Inglês, Wirtz ainda não marcou gols nem distribuiu assistências na liga. Para parte da torcida e, principalmente, para as redes sociais, isso já virou motivo de críticas, principalmente no maior palco desta questão: o atual X, antigo Twitter. Só que, para quem entende do jogo, e já esteve no topo do futebol mundial, a história é bem diferente.
Quem sai em defesa do jovem alemão é Benedikt Höwedes, campeão do mundo com a Alemanha em 2014 e ex-gerente da seleção. Em conversa com jornalistas internacionais, o ex-zagueiro foi direto: Wirtz é bom demais para fracassar no Liverpool.
Wirtz sempre foi “o cara” do Leverkusen
Höwedes não minimiza o impacto da mudança, estamos falando de um jovem atleta que mudou da Bundesliga, para a Premier League. Pelo contrário. Para ele, a transição explica, e muito o início mais tímido de Wirtz na Inglaterra.
No Leverkusen, o meia não era apenas mais um talento. Ele era o centro do projeto. Tudo passava por ele. O time jogava para ele. Os companheiros confiavam cegamente. O ambiente era perfeito. Por essas e outras, que quando o alemão e Xabi Alonso saíram do grupo, o time caiu de produção.
“Wirtz tinha total apoio, jogava com alegria, liberdade e confiança. Quando você muda de clube, de país, tudo isso precisa ser reconstruído”, explicou Höwedes.
E aí entra um fator que nem sempre aparece nas estatísticas: o lado humano. Wirtz tem apenas 22 anos, está jogando fora da Alemanha pela primeira vez, longe da família e dos amigos. No Liverpool, ele ainda está criando laços, entendendo o vestiário, o estilo do treinador e o ritmo completamente diferente da Premier League. Pode ter ao seu lado, Jeremie Frimpong, um companheiro da época dos Leões, mas está longe de ser o suficiente para não sentir a mudança de ares.
Höwedes admite que esperava um começo mais chamativo, mas sem drama.
“Fiquei um pouco surpreso, sim. Mas ele é jovem, está se adaptando e isso leva tempo”, disse o ex-zagueiro.
Segundo ele, no Leverkusen, Wirtz tinha confiança total do clube, dos companheiros e da torcida. No Liverpool, isso ainda está sendo construído. E, no futebol de alto nível, confiança não se compra junto com o contrato.
Ainda assim, Höwedes não tem dúvidas: o segundo semestre da temporada será diferente. Para ele, o talento, a mentalidade e a ética de trabalho de Wirtz garantem que o meia vai responder dentro de campo.
Os números que não aparecem no X
É verdade que zero gols e zero assistências na Premier League chamam atenção, especialmente quando o valor da transferência aparece logo ao lado do nome. Mas reduzir o impacto de Florian Wirtz apenas a isso é uma leitura rasa do que ele tem entregado em campo pelo Liverpool, o início foi tímido, mas os dias atuais não apresentam mais essa realidade.
Mesmo sem participação direta em gols no campeonato, o alemão está entre os 10 jogadores que mais criaram chances em bola rolando na Premier League nesta temporada. Na Champions League, o cenário é ainda mais impressionante: apenas Kylian Mbappé criou mais oportunidades do que Wirtz, um dado que reforça o peso do meia em jogos de alto nível.
Além da criatividade, Wirtz também tem mostrado intensidade sem a bola, algo que não era visível, só que já aparenta estar mais adaptado. Ele aparece entre os 10 jogadores que mais recuperam a posse no terço final do campo, algo que ajuda o Liverpool a pressionar alto e manter o adversário encurralado. Ou seja, mesmo quando não está decidindo no último passe ou na finalização, ele segue influenciando o jogo.
Esses números não costumam viralizar nas redes sociais, mas são exatamente o tipo de contribuição que faz técnicos confiarem em um jogador e times vencerem partidas ao longo de uma temporada.
Outro ponto que derruba a crítica de que Wirtz “não aguenta” a Premier League é o físico. Dados mostram que, entre 166 jogadores que já correram mais de 75 km na temporada, Wirtz está no top 6 em distância percorrida e sprints de alta intensidade por 90 minutos.
Isso acaba contraargumentando a narrativa de que ele sofre com o ritmo inglês. O que ele sofre, na verdade, é com o espaço reduzido, e isso ele terá de colocar a culpa em Pep Guardiola… Atuando como camisa 10, Wirtz tem, em média, apenas 0,81 segundo para receber e decidir, o quinto menor tempo da liga entre jogadores muito acionados.
É pouco. Muito pouco. Mas mesmo assim, ele segue encontrando passes, linhas e soluções.
Um talento que precisa de tempo (e paciência)
Wirtz já deixou claro que é aquele tipo de jogador que brilha nos detalhes: tabelas curtas, movimentos inteligentes, passes que quebram linhas. Isso exige sintonia fina com os companheiros, algo que só vem com minutos, jogos e confiança mútua, por agora, ela está começando a aparecer, mas vamos com calma.
No Liverpool, ainda existe um processo de adaptação coletiva a esse “novo tipo” de jogador ocupando esses espaços. Quando isso encaixar, a tendência é clara: o alemão vai crescer.
Höwedes, claro, também pensa com a cabeça da seleção alemã. Para ele, recuperar a melhor versão de Wirtz é essencial para a próxima Copa do Mundo.
“Ele ainda não atingiu o pico. Precisamos levá-lo de volta ao melhor nível para criar algo especial no Mundial”, afirmou.
Foto: Getty Images