Para aqueles que amam intensamente o futebol e sua história num todo, o Grêmio de 1983 é um capítulo à parte pelo que construiu. E a Libertadores daquele ano, traz um conto de fadas no qual personagens como Renato, Mazarópi e Hugo de León foram protagonistas na conquista da primeira estrela do Imortal na América do Sul. Vice-campeão brasileiro no ano anterior, após ser batido pelo Flamengo de Zico, os gremistas chegaram ao título continental superando grandes batalhas, e marcou para sempre a posteridade do clube, que ainda seria campeão do Mundial Interclubes em Tóquio, diante do Hamburgo, da Alemanha.
Sob o comando de Valdir Espinosa, o Grêmio enfrentou o Peñarol na final em dois jogos, mas precisou lutar como nunca para chegar ao título diante de seu torcedor, no antigo e imponente estádio Olímpico. Antes da ascensão de mais dois jogadores na decisão, como Caio e César, confrontos como o 3 a 3 em La Plata contra o Estudiantes entraram no imaginário tricolor e na história da Liberta, que àquela altura começava a se tornar uma ambição ainda maior de times do Brasil, após equipes como Santos e Flamengo atingirem o feito da Glória Eterna.

O Grêmio dos anos 80
Após enfrentar uma década de sofrimentos nos anos 1970, conquistando apenas dois Campeonatos Gaúcho, o Grêmio chegou aos anos 80 retomando o caminho dos títulos, e teve no estadual de 1980 sua virada de chave, ameaçando novamente a soberania do Internacional. Com o surgimento de um grupo que ficou conhecido como Esquadrão Imortal, o Tricolor superou o São Paulo para conquistar seu primeiro Brasileirão em 1981, e sua estreia numa Copa Libertadores no ano seguinte, representando o Brasil junto aos paulistas e ao então campeão sul-americano Flamengo.
Eliminado em 82, e campeão da Libertadores no ano seguinte, que lhe encaminhou para o Mundial em Tóquio, vencido com dois gols de Renato, o Grêmio também foi finalista da Liberta de 1984, mas acabou derrotado pelo Independiente, da Argentina. De 1985 em diante, o Tricolor emendou um pentacampeonato gaúcho, e a conquista da primeira edição da Copa do Brasil, vencendo o Sport no estádio Olímpico, em 1989. Junto com a década seguinte, de 1990, os anos 1980 foram evidentemente um dos melhores ciclos da história do clube, e até hoje, arrancam lágrimas e sorrisos de quem pôde testemunhar esta saga.

O Grêmio que conquistou a América em 1983
Depois de ser eliminado na primeira fase da Libertadores de 1982, o Grêmio voltou à edição de 1983 como vice-campeão nacional, e dessa vez, não fez feio, superando na fase de grupos o Flamengo de Zico e companhia, e os bolivianos Bolívar e Blooming. Na fase semifinal, na época disputada em grupos, os gremistas venceram o Estudiantes em Porto Alegre, empataram com os argentinos em um duelo tenso em La Plata, e superaram o América de Cali no returno, após uma derrota impactante na Colômbia.
As vitórias no Olímpico foram determinantes para uma inédita vaga na final, onde enfrentariam ninguém menos que o então campeão sul-americano Peñarol, uruguaio em busca do penta da Libertadores e adversário gremista na fase de grupos de 1982. No jogo de ida, fora de casa, o Tricolor chegou a sair na frente do marcador com Tita, mas sofreu o empate no segundo tempo, e voltou para Porto Alegre disposto a tomar para si a América do Sul.
Diante de 73 mil espectadores, o Grêmio levantou pela primeira vez a Libertadores ao entrar em campo com Mazarópi, Paulo Roberto, Baidek, De León e Casemiro; China, Osvaldo e Tita; Renato, Caio (César) e Tarciso. Nomes os quais contribuíram de alguma forma para que aquele 28 de julho de 1983 entrasse para sempre na história gremista, e consagrasse a dupla de atacantes Caio e César, que fizeram os dois gols do Tricolor no Olímpico.
Depois de Caio fazer 1 a 0 ainda no primeiro tempo, Morena chegou a empatar para o Peñarol na reta final da partida, mas o destino soube ser generoso com o Grêmio e mais uma vez evidenciou para todos a raça do Esquadrão Imortal, resistente à pressão uruguaia. Valdir Espinosa muda o ataque e coloca César em campo, no lugar de Caio, vendo sua alteração corresponder cinco minutos depois do empate adversário, após um cruzamento de Renato encontrar um cabeceio firme do companheiro.
A abordagem rival na decisão era tanta, que o título ficou marcado não só pelos gols, como também pelo sangue derramado por Hugo de León ao erguer o troféu, que segundo o próprio, não se sabe como teve origem. Por mais que alguns afirmem que a taça estivesse com um parafuso solto e este possa ter ferido o capitão gremista, De León desmente e relembra o fato de árbitros permitirem uma chegada mais forte e incisiva dos jogadores, o que deixava o jogo violento e dramático.
Contra tudo isso, o Grêmio foi capaz de se estabelecer no ponto mais alto da América do Sul pela primeira vez, e partir para Tóquio em busca de outra conquista que alçou o clube no planeta, o Mundial Interclubes. Quarenta e dois anos depois, outras taças chegaram ao bairro da Azenha, novos protagonistas surgiram, mas nunca, nunca se deixou de lado este ano de 1983, que para sempre, será relembrado com muito respeito e carinho pelas gerações seguintes.
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