Poucos dias após anunciar a demissão de Gustavo Quinteros, o Grêmio optou por Mano Menezes como novo comandante da equipe. A escolha, no entanto, está longe de ser um “recomeço” ou uma tentativa de reformulação tática e conceitual. Ao contrário, revela mais uma vez como os clubes brasileiros seguem reféns do imediatismo, com decisões pouco coerentes e quase sempre motivadas apenas por resultados, deixando qualquer ideia de planejamento ou identidade de lado.
A demissão de Quinteros havia sido justificada, em parte, pela incapacidade do time em apresentar um futebol propositivo e mais competitivo ofensivamente. O treinador é conhecido por sua abordagem pragmática, valorizando a organização defensiva e a compactação das linhas, e foi justamente esse estilo que desgastou sua relação com torcida e diretoria após uma sequência de atuações pouco inspiradas. Em teoria, a saída dele abriria espaço para um perfil mais ousado, capaz de devolver ao time o protagonismo com bola nos pés.
Mas a prática mostrou outra coisa.
A chegada de Mano Menezes representa a manutenção exata do mesmo estilo de jogo que o clube dizia querer abandonar. Um treinador com currículo robusto, mas cuja carreira mais recente é marcada por trabalhos conservadores, foco em transições defensivas e pouca evolução ofensiva. Em termos de conceito, é trocar seis por meia dúzia. A pergunta que fica é: o problema era mesmo o modelo de jogo ou os resultados?
O padrão do futebol brasileiro: apagar incêndio ao invés de construir
A contratação de Mano é mais um capítulo de um problema recorrente no futebol brasileiro. Os clubes parecem operar em ciclos que se repetem à exaustão: contratam um técnico com proposta mais ofensiva, desistem após uma sequência ruim de resultados, trocam por um “bombeiro” com histórico de solidez defensiva, cobram desempenho, e recomeçam tudo de novo quando a próxima crise chega.
O Grêmio não foge a essa lógica. Se a ideia era apostar em uma reconstrução ofensiva, com espaço para jovens e um time mais dominante em campo, a escolha por Mano destoa completamente. O treinador já teve seu auge no Corinthians e no Cruzeiro de anos atrás, mas seus últimos trabalhos, especialmente o retorno recente ao Internacional e passagens por Bahia e Fluminense, mostraram um técnico repetitivo em ideias e limitado nas respostas criativas.
A crítica aqui não é à capacidade de Mano Menezes como treinador, mas sim ao critério (ou à falta dele) das diretorias. Em vez de definir um projeto esportivo claro e buscar um nome compatível com a proposta, o Grêmio, como tantos outros clubes, parece apenas reagir aos acontecimentos. O planejamento é reativo, não proativo. E nesse cenário, os ciclos se tornam curtos, os elencos são montados sem coerência e o futebol nunca se consolida.
Um Grêmio sem identidade
Nos últimos anos, o Grêmio tem transitado entre diferentes ideias sem convicção. Da aposta em treinadores estrangeiros à volta de medalhões brasileiros, o clube parece constantemente tatear no escuro, guiado mais pela pressão externa do que por um norte interno.
A chegada de Mano pode, sim, trazer alguma estabilidade momentânea. Seu histórico de “organizar a casa” é conhecido. Pode fechar a casinha, segurar resultados, evitar derrotas em sequência. Mas a pergunta que precisa ser feita é: isso basta para o torcedor gremista? Aquele mesmo que se acostumou, recentemente, com um futebol ofensivo, de imposição, com identidade?
O torcedor quer vencer, mas também quer se identificar com o que vê em campo. E dificilmente encontrará esse sentimento em um time que se limita a defender bem e viver de bolas paradas ou contra-ataques esporádicos.
Uma chance desperdiçada de romper o ciclo
Ao demitir Quinteros, o Grêmio teve uma rara oportunidade de mudar. Poderia ter apostado em um nome emergente, com ideias modernas, ou até em um estrangeiro que oferecesse algo diferente, mesmo que fosse necessário dar tempo para que o trabalho amadurecesse. Mas preferiu seguir o caminho mais fácil, o nome mais “seguro” no papel. É como tentar mudar o rumo de um navio, mas escolhendo sempre remar para o mesmo lado.
O resultado disso é previsível: mais uma temporada de futebol cinzento, sob a esperança de que Mano “resolva os problemas”. Mas os problemas do Grêmio e de tantos outros clubes brasileiros são estruturais. Estão na forma como se pensa o futebol, se escolhem os treinadores, se avalia o desempenho.
A contratação de Mano Menezes é menos um erro técnico e mais um sintoma de um modelo ultrapassado de gestão. O Grêmio segue um padrão nocivo ao seu próprio crescimento. A promessa de mudar o estilo de jogo foi enterrada antes mesmo de começar.
Enquanto o clube seguir optando por respostas fáceis e ignorando a importância de uma filosofia clara, continuará andando em círculos. E, no fim, pagará o preço que todos os clubes que vivem de apagar incêndios acabam pagando: a mediocridade como destino.
(Foto: André Durão)