A temporada que o Paris Saint-Germain vem fazendo levanta uma pergunta que, até pouco tempo, parecia exagerada: será que Luis Enrique é o melhor técnico da Europa hoje? Se a gente olhar mais de perto o que ele está fazendo com esse PSG – especialmente depois da saída de Mbappé – a resposta começa a fazer muito sentido.
Já se passaram dez anos desde que Luis Enrique venceu a Champions League com aquele Barcelona mágico de Messi, Neymar e Suárez. Agora, ele tenta repetir o feito em Paris, e se conseguir, vai entrar pra um grupo super seleto de treinadores que venceram a competição mais de uma vez com um intervalo tão grande – só Ernst Happel e Jupp Heynckes conseguiram algo parecido.
Mas o que mais impressiona nem é só a possibilidade de título. É o que ele está construindo. O PSG, que sempre foi criticado por depender demais das estrelas e jogar como um catado de craques, virou um time de verdade. E um time com cara de treinador. Um time com a cara de Luis Enrique.
Estilo definido, jogo coletivo e intensidade
Tem um dado que simboliza bem isso tudo: o PSG de Luis Enrique é o time com mais dribles completados em uma temporada de Champions desde… o Barcelona de 2015. Coincidência? Parece que não. Duas equipes diferentes, com jogadores diferentes, mas que têm um traço em comum: dribles, movimentação e ousadia no ataque. Isso diz muito sobre o estilo de jogo que o espanhol impõe.
A verdade é que o PSG está jogando um futebol solto, mas ao mesmo tempo muito bem treinado. A equipe tem uma defesa bem ajustada, um meio-campo que cresceu demais nos últimos meses e um ataque veloz, criativo e cheio de movimentação. Ousmane Dembélé está jogando o melhor futebol da carreira, Bradley Barcola e outros jovens também têm se destacado. Até Kvaratskhelia, que chegou recentemente, já está dando outra cara ao time.
Tudo isso acontece sem uma grande estrela no centro das atenções. E isso é muito revelador.
A estrela agora é o coletivo
Com a saída de Mbappé, que finalmente foi pro Real Madrid, muita gente achou que o PSG ia despencar. Mas o que aconteceu foi o contrário. O time ficou ainda mais coletivo. E esse tipo de ambiente é o que Luis Enrique mais gosta. Ele mesmo já deixou claro, nas entrelinhas, que prefere trabalhar com uma equipe onde o todo vale mais do que o individual.
Oscar Garcia, ex-companheiro de Luis Enrique no Barcelona e ex-treinador do Stade Reims, disse algo que resume bem: “Agora o PSG tem um time. Não tem mais um trio de estrelas mandando em tudo. A estrela é o treinador.” E dá pra ver isso nitidamente dentro de campo. O time corre junto, marca junto, se movimenta com lógica e organização. Ninguém ali parece estar jogando pra si mesmo. E quando isso acontece, os resultados aparecem.
O que faz de Luis Enrique diferente?
Luis Enrique tem uma identidade forte como treinador. Gosta de ter a bola, gosta que o time jogue no campo do adversário, com trocas rápidas de passes e pressão alta quando perde a posse. E, acima de tudo, ele exige intensidade. Muita intensidade. Seja no ataque ou na recomposição, seus times jogam com energia.
Ele até pode ter semelhanças com Pep Guardiola – inclusive os dois têm raízes parecidas e estilo de posse de bola –, mas enquanto Guardiola é mais metódico e estrategista, Luis Enrique é mais direto, mais explosivo. Um cara que joga e treina com a mesma energia que tinha como jogador. Quem convive com ele fala muito disso: intensidade, intensidade e mais intensidade.
Além disso, ele tem uma coisa rara no futebol atual: coragem pra bancar suas ideias. Mesmo que não agrade a todos, mesmo que gere dúvidas. Ele não joga pra imprensa ou pra torcida. Ele monta o time do jeito que acredita. E por isso o PSG de hoje é tão a cara dele.
Um trabalho completo
A vitória recente sobre o Arsenal, por exemplo, mostrou como o time evoluiu. Os ingleses venceram o PSG na fase de grupos, mas no mata-mata foi outro jogo. Luis Enrique deixou claro: “Somos um time mais completo agora.” E isso ficou visível em campo. A equipe não só jogou melhor como mostrou maturidade, controle emocional e tático. Coisas que o PSG não mostrava nas últimas temporadas, mesmo com Messi, Neymar e Mbappé juntos.
No fim das contas, é isso que faz um técnico ser especial: transformar um elenco em um time. E mais que isso, transformar esse time em algo reconhecível, com identidade, com propósito. Luis Enrique está conseguindo fazer isso em Paris – e com um elenco que, no papel, não é o mais badalado da Europa.
Se vai ganhar a Champions? Ainda não dá pra cravar. Mas o que já dá pra dizer é que ele está entregando um dos trabalhos mais consistentes, autorais e inteligentes da temporada europeia. E se o PSG levantar a taça em Wembley, ninguém mais vai poder fugir da pergunta:
Luis Enrique é o melhor técnico da Europa hoje?
Talvez já seja.
Foto: Luis Enrique © Gallo Images