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Seleção brasileira: 3 mudanças táticas de Ancelotti que ‘destravaram’ a equipe

Na segunda partida sob o comando de Carlo Ancelotti, a Seleção Brasileira mostrou sinais claros de uma transformação tática em curso. Longe do futebol engessado que caracterizou ciclos anteriores, o time apresentou mais fluidez, movimentação e inteligência coletiva na vitória por 1 a 0 contra o Paraguai. Ainda que o placar não tenha sido elástico, a atuação foi marcada por variações ofensivas que indicam um novo rumo. Com mudanças pontuais, o técnico italiano conseguiu dar nova vida a peças-chave do elenco, otimizando funções que antes pareciam mal aproveitadas.

Entre as novidades mais impactantes estiveram a utilização de Matheus Cunha como um camisa 10 flutuante, a liberação de Bruno Guimarães para armar o jogo com mais liberdade e a redefinição do papel de Vinícius Júnior no ataque, agora sem as amarras táticas que o prendiam ao corredor esquerdo. E, como consequência dessas mudanças, Gabriel Martinelli se destacou como uma peça importante pela ponta esquerda.

Matheus Cunha como um camisa 10 moderno

A grande novidade na escalação foi a presença de Matheus Cunha atuando como meia-centralizado, desempenhando a função de um camisa 10 mais moderno, muito próximo do modelo que vinha executando no Wolverhampton e que deverá reproduzir no Manchester United, seu novo clube. A mudança foi estratégica e cirúrgica. Em vez de entrar como centroavante tradicional, Cunha teve liberdade para flutuar entre as linhas do meio-campo e ataque, criando espaços, participando da articulação e confundindo a marcação paraguaia.

Essa função deu nova dinâmica ao setor ofensivo. Em vários momentos, Cunha recuou para buscar o jogo, puxando a marcação e liberando o espaço para infiltrações de Vinícius Júnior e Gabriel Martinelli. Foi exatamente dessa forma que se originou o gol brasileiro: Cunha recebeu entrelinhas, atraiu dois marcadores, e fez a assistência para Vinícius marcar. Mais do que um passe, foi a conclusão de uma jogada bem pensada, baseada em movimentação, leitura e entendimento tático.

Cunha, nesse novo papel, ofereceu aquilo que vinha faltando na Seleção: um elo entre meio e ataque que não fosse apenas posicional, mas dinâmico e participativo. Ancelotti enxergou isso e aproveitou com eficiência.

Bruno Guimarães livre para pensar e criar

Outra mudança foi no posicionamento de Bruno Guimarães. Contra o Equador, na estreia de Ancelotti, o meio-campista do Newcastle atuou ao lado de Gerson, mas ficou excessivamente preso à zona central. Na prática, tornou-se um volante de cobertura, limitado a contenção e passes curtos, função que tolheu seu principal trunfo: a capacidade de pensar o jogo com profundidade.

Diante do Paraguai, sem Gerson em campo, Bruno ganhou liberdade para circular pelo campo, chegando mais à área e se aproximando dos pontas. Essa mudança foi determinante para dar fluidez ao meio-campo. Bruno distribuiu passes verticais, quebrou linhas defensivas com facilidade e apareceu até para finalizar. Seu papel se assemelhou ao que desempenha na Premier League, e o Brasil agradeceu por isso.

A libertação criativa de Bruno Guimarães é também um indicativo da visão mais europeia de Ancelotti: jogadores precisam atuar onde rendem melhor, não onde a formação padrão exige. E o camisa 8 foi o motor da transição ofensiva brasileira.

Vinícius Júnior e Gabriel Martinelli: movimentação importante para a fluidez ofensiva

Se alguém personificou a ideia de fluidez tática nesse novo Brasil, foi Vinícius Júnior. Por anos, o atacante do Real Madrid foi condicionado a jogar colado à linha lateral esquerda, preso à função de puxar marcações e forçar o um contra um. Embora tenha produzido em alto nível mesmo nessas condições, sempre pareceu limitado pelas amarras do sistema.

Ancelotti, que conhece bem Vini do Real Madrid, mudou esse cenário. O colocou como o jogador mais avançado do ataque, com liberdade total para circular, trocar de lado, se posicionar no centro ou puxar a linha de defesa. O resultado foi imediato: mais participações ofensivas, mais dribles em zonas perigosas e, sobretudo, mais gols.

No lance decisivo da partida, Vinícius se desmarcou, entrou na área e concluiu como se fosse um centroavante Sua liberdade ofensiva tirou a previsibilidade do ataque brasileiro e confundiu completamente a defesa paraguaia.

Com Vinícius circulando pelo centro e Cunha recuando entre as linhas, o corredor esquerdo se abriu para Gabriel Martinelli. O atacante do Arsenal teve talvez sua melhor atuação com a camisa da Seleção, mostrando inteligência tática, intensidade e precisão nas jogadas. Seus avanços pela lateral geraram perigo constante, especialmente porque ele recebia a bola em situações de vantagem, algo raro nos últimos jogos do Brasil.

Martinelli se aproveitou da atenção que Vini atraía para os zagueiros e da bagunça causada por Cunha no setor central. O resultado foi um extremo solto, participativo e produtivo. Se repetir essas atuações, dificilmente perderá o posto de titular.

Um Brasil diferente, mais próximo da modernidade

A vitória contra o Paraguai não foi apenas importante pelo resultado, mas pela mensagem: Carlo Ancelotti está disposto a quebrar padrões. A Seleção que entrou em campo foi menos previsível, mais leve, mais dinâmica. Jogadores atuando em funções que os favorecem, sem rigidez tática, com liberdade para criar e movimentar.

O novo Brasil ainda está em construção, mas os sinais são promissores. Se Ancelotti seguir nesse caminho, pode não apenas montar um time competitivo, mas, finalmente, devolver à Seleção a identidade que há tempos parecia perdida, um futebol alegre, inteligente e envolvente. O futuro pode ser mais otimista do que se imaginava meses atrás.

Foto: Rodrigo BUENDIA / AFP