O que aconteceu em Toronto não é novidade, mas é sintomático. Uma debandada em massa de tenistas importantes, como Jannik Sinner, Carlos Alcaraz, Novak Djokovic e Jack Draper, deixando um Masters 1000 esvaziado, foi o retrato escancarado de um circuito que cobra demais e oferece pouco em troca, pelo menos quando se trata da saúde física e mental dos atletas.
A declaração de Taylor Fritz, pedindo menos torneios e uma redução no tamanho de alguns eventos, é só mais uma entre várias que têm sido ignoradas por tempo demais.
“É uma questão complicada, estranha considerando os últimos anos. Provavelmente, quase todos os jogadores vêm pedindo uma temporada mais curta há algum tempo, no entanto tudo o que estamos fazendo é torná-la ainda mais longa, adicionando mais coisas, mais pausas e até mesmo desenvolvendo torneios mais longos”, disse Taylor Fritz.
“Vi que a Hopman Cup foi realizada neste verão, depois de Wimbledon. Eu nem sabia que esse torneio estava acontecendo”, acrescentou o americano, lamentando que um torneio tradicional acabou ofuscado.
Fritz continuou as críticas ao calendário longo. “Eles tiveram jogadores como Félix Auger-Aliassime e Flavio Cobolli no evento depois de jogar um Grand Slam como Wimbledon. Se você pensar bem, é uma loucura. Continuamos adicionando coisas ao calendário, repetidamente”, falou Fritz.
“Claro que algumas partes foram encurtadas para encontrar uma conexão melhor entre os torneios, mas deveríamos trabalhar em outra direção. É interessante ver como podemos encurtar certos elementos, como o espaço entre os torneios, mas não conseguimos encontrar espaço para encurtar o próprio calendário”, completou.
Fritz não está sozinho. A reclamação é antiga. Djokovic já falou, Nadal também. Murray, Medvedev, Zverev, enfim, a lista é longa. E não se trata de um capricho. É uma constatação: o calendário da ATP está cada vez mais insustentável.
Quando até um Masters 1000 perde relevância
O Masters 1000 de Toronto, tradicional, importante, e teoricamente obrigatório para os principais jogadores, virou um evento de segunda linha nesta edição. Lesões, cansaço e desistências estratégicas, tudo isso foi usado como justificativa, mas a verdade é uma só: os jogadores estão exaustos. E quando um torneio desse porte perde tantos nomes relevantes, o problema deixa de ser pontual e se torna estrutural.

O que está em jogo aqui não é só a integridade física dos atletas, mas a própria credibilidade do circuito. Se os maiores nomes estão constantemente se retirando dos torneios mais importantes, algo está profundamente errado.
O circuito masculino hoje é um moedor de carne. A temporada tem 11 meses, com um único mês de “descanso” — que, para os tenistas do topo, muitas vezes é usado para compromissos de patrocinadores, clínicas, exibições ou reabilitação de lesões. São 66 torneios oficiais, viagens intercontinentais constantes, uma pressão absurda por pontos, e cada vez menos espaço para se recuperar.
E a ATP, em vez de cortar o excesso, faz o oposto: alonga torneios como Roma e Madrid, expande quadros, cria eventos novos, aperta a agenda. O resultado? Torneios mais ricos, mas com menos estrelas em quadra, partidas com tenistas visivelmente esgotados e um número crescente de lesões e abandonos.
Os organizadores e patrocinadores querem torneios cheios e jogos de alto nível, mas quem tem que entregar esse espetáculo são atletas que, cada vez mais, chegam moídos à metade da temporada. Não dá para exigir excelência sem oferecer condições para que ela exista. A conta chega e está chegando agora, com grandes torneios sendo esvaziados por seus próprios protagonistas.
Conforme declaração de Fritz, está na hora de repensar tudo
A fala de Fritz deveria servir como gatilho para uma mudança real. Reduzir o número de torneios obrigatórios, repensar a distribuição geográfica do circuito, dar uma “offseason” de verdade e oferecer maior liberdade para os atletas montarem seus calendários com inteligência. Tudo isso precisa estar na mesa.
O tênis, como produto, só se sustenta se os atletas estiverem saudáveis fisicamente e mentalmente. Se continuar no ritmo atual, o circuito vai perder seu maior ativo: os próprios jogadores. E aí, nem Masters 1000, nem Grand Slam, nem ATP Finals vão segurar o desinteresse do público.
O tênis de alto nível precisa respirar. E a ATP precisa escutar antes que seja tarde.
(Imagem de capa: John Walton/PA)