A chegada de Davide Ancelotti ao Botafogo foi recebida com surpresa e curiosidade. Filho do multicampeão Carlo Ancelotti, Davide sempre foi visto como um auxiliar técnico meticuloso, com perfil analítico e muita vivência no futebol de elite europeu. No entanto, como treinador principal, esta é sua primeira experiência. E o desafio é enorme: liderar um clube tradicional em reconstrução, em meio a uma temporada que começou com altos e baixos e a pressão natural de quem quer conquistar títulos de expressão.
Apesar do pouco tempo à frente do Botafogo, Ancelotti começa a moldar uma equipe que, mais do que organizada, tem mostrado amadurecimento tático — algo raro em processos tão recentes. Em menos de dois meses, o italiano já conseguiu dar uma cara própria ao time, mesclando conceitos europeus com as necessidades imediatas do futebol brasileiro. E, acima de tudo, vem mostrando um Botafogo que aprende jogo após jogo.
Defesa sólida como alicerce
Um dos primeiros pontos observados sob o comando de Davide foi o fortalecimento da defesa. O Botafogo, que já havia mostrado consistência defensiva em alguns momentos do ano, passou a ser um time mais compacto, com linhas bem definidas, e que evita se expor desnecessariamente. Ancelotti costuma montar sua equipe em um 4-3-3 que se transforma em 4-4-2 sem a bola, priorizando o bloqueio dos corredores centrais e a proteção dos zagueiros.
Com apoio de laterais que sabem equilibrar ataque e marcação — como Vitinho e Cuiabano—, o time passou a sofrer menos contra-ataques. A organização é tanta que, em vários jogos recentes, o goleiro John foi pouco exigido. Não se trata de recuar o time, mas de saber o momento certo de pressionar e o momento certo de proteger.
Construção de jogadas com inteligência
No meio-campo, a transformação foi ainda mais visível. Com a saída de Marlon Freitas por lesão, Ancelotti confiou em Danilo, que respondeu com atuações seguras e participação decisiva, como no passe para o gol da vitória contra o RB Bragantino. Ao lado de jogadores como Savarino e Allan, forma-se um meio-campo técnico e funcional, que gira bem a bola, se apresenta para o jogo e mantém a intensidade nas transições.
O treinador também vem trabalhando para que o time seja menos previsível. Em vez de depender de lançamentos longos ou cruzamentos aleatórios, o Botafogo passa a valorizar mais a construção por baixo, com triangulações nas laterais e inversões que buscam desorganizar a defesa adversária. A movimentação dos meias e pontas é fundamental para isso, especialmente a de jogadores como Savarino, que vive grande fase.
Ataque móvel, protagonismo de Savarino e variação
Savarino, aliás, é o símbolo da nova fase ofensiva do Botafogo. Atuando mais por dentro do que aberto, o venezuelano virou peça-chave na articulação e na finalização das jogadas. Com liberdade para flutuar, arriscar e se infiltrar, ele se tornou o jogador mais perigoso da equipe.
Outro destaque é a tentativa de encaixar o centroavante Arthur Cabral em um sistema que favoreça suas características. Ao contrário do que ocorria antes, quando o camisa 9 ficava isolado, agora ele tem mais aproximação dos meias e pontas. Isso aumenta as chances de tabelas, infiltrações e finalizações em zona nobre. O Botafogo ainda precisa melhorar sua eficiência ofensiva, mas o caminho está mais claro.
No entanto, talvez o ponto mais notável do trabalho de Davide Ancelotti até aqui seja a leitura de jogo. Em várias partidas, o Botafogo mostrou capacidade de se adaptar ao adversário, sem abrir mão de sua proposta. Contra o Bragantino, por exemplo, mesmo sendo pressionado no primeiro tempo, o time não se desorganizou. No segundo tempo, achou o gol em um contra-ataque bem construído e passou a controlar o ritmo, administrando com inteligência a vantagem.
Ancelotti também demonstra coragem para mexer no time quando necessário. Ele não hesita em trocar peças ou mudar o desenho tático durante a partida. Já utilizou variações como o 4-2-3-1, o 4-4-2 com losango e até uma linha de cinco defensores em momentos específicos — sempre pensando no contexto da partida e nas características dos adversários.
Botafogo tem identidade em construção e em ascensão
Ainda é cedo para cravar até onde o Botafogo pode chegar em 2025. Mas é evidente que, sob Davide Ancelotti, o time está amadurecendo. Há identidade, há planos claros de jogo, há respostas em campo. Mais do que vitórias, o que se vê é uma equipe mais inteligente, mais consciente, e mais equilibrada — taticamente e emocionalmente.
Se o processo continuar evoluindo nesse ritmo, o Botafogo pode se tornar um dos times mais difíceis de se enfrentar no Brasil. E para um técnico em seu primeiro desafio solo, Davide Ancelotti está mostrando que sabe, sim, muito mais do que apenas carregar o sobrenome de um multicampeão.
Ele está pavimentando seu próprio caminho — e o Botafogo, por enquanto, está colhendo os frutos.
(Foto: Vitor Silva/Botafogo)