Luka Modric decidiu defender o Milan quando quase todo mundo já dava como certa sua despedida da elite europeia. A Arábia Saudita acenou, o dinheiro falou alto, mas o croata preferiu escutar o instinto e talvez o coração. Escolheu Milão. Escolheu a Série A. Escolheu provar que ainda tem lenha pra queimar. E olha… tem queimado bonito.
Com 40 anos nas costas e uma carreira que já podia estar no modo aposentadoria dourada, Modric se apresentou ao time rossonero cheio de dúvidas externas, mas com convicção interna. E está dando resposta com bola. Em um Milan que ainda tenta reencontrar o brilho dos velhos tempos de Maldini, Kaká e companhia, é justamente o veterano croata quem tem sido o maestro dessa nova fase. Contra o Napoli, atual campeão italiano, ele simplesmente desfilou no gramado do San Siro, com direito a aplausos em pé da torcida e elogios de todos os lados.
Não faltaram comparações, algumas até exageradas com Andrea Pirlo, ídolo eterno do Milan. Mas, justiça seja feita, Modric tem entregado atuações que merecem sim esse tipo de reverência. Seja pela classe nos passes, pelo controle de ritmo ou pela leitura de jogo absurda. O cara parece jogar com o controle na mão e o replay ligado. Aos 40!
E se tem alguém que se beneficia desse talento, é Massimiliano Allegri. O treinador montou um Milan compacto, com linhas estreitas e bem organizadas, no qual cada jogador sabe exatamente o que fazer, e quando. Dentro desse sistema, Modric vira o cérebro. Atua como armador recuado, à frente da defesa, sempre pronto pra dar o passe certo, controlar o tempo do jogo ou simplesmente tirar o time do sufoco. Não precisa correr mais que todo mundo, porque já está sempre no lugar certo.
Modric aparece como o coração do Milan

Na sua coletiva de apresentação, Modric foi sincero: vestir a camisa do Milan era um sonho antigo. E dá pra ver que não era papo pra agradar torcida. Ele realmente parece estar curtindo essa fase da carreira. Está leve, sorrindo nos treinos, e principalmente, jogando com intensidade. O que, sejamos honestos, não é comum pra alguém com quatro décadas de vida e mais de 1000 jogos profissionais nas costas.
Os números ajudam a entender o impacto. Nas primeiras cinco rodadas da Série A Enilive, Modric aparece como o segundo jogador com mais interceptações em toda a competição. Não estamos falando de alguém que só gira a bola e distribui passes curtos. Contra o Napoli, por exemplo, ele tocou na bola 72 vezes em 90 minutos, recuperou sete bolas e interceptou quatro, estatísticas de quem participa intensamente da fase defensiva, e não apenas fica esperando a bola no pé.
E o mais simbólico? No duelo contra o Napoli, ele teve pela frente ninguém menos que Kevin De Bruyne, outro monstro da geração atual. E Modric simplesmente engoliu o belga. Neutralizou espaços, ganhou divididas, e ainda foi mais decisivo com a bola no pé. Todos os holofotes estavam voltados pra ele. E merecidamente.
Mesmo com o Milan lidando com dificuldades nos últimos anos, desde a perda de nomes-chave, lesões frequentes e mudanças no comando técnico, o time voltou a ser competitivo. E hoje lidera a Série A Enilive. Ainda que Allegri evite falar em Scudetto, nos bastidores já se fala em título. E é difícil imaginar essa campanha sem a presença técnica e emocional de Modric no meio.
Mais do que um veterano experiente, ele se tornou rapidamente o coração do Milan. Um líder que fala pouco, mas comanda muito. Um craque que já ganhou tudo, mas ainda quer provar mais. E enquanto ele estiver jogando nesse nível, ninguém vai conseguir dizer que é só mais um “vovô da bola”.
Foto: Stefano Rellandini/AFP


