Agustín Rossi foi, mais uma vez, decisivo. Contra o Racing, no El Cilindro lotado, o goleiro do Flamengo conseguiu chamar os holofotes para si e entregar o que todos os torcedores ansiavam: defendeu chutes à queima-roupa, controlou o jogo com os pés quando necessário, ganhou tempo com a sua conhecidíssima cera e mostrou frieza mesmo com toda a pressão em suas costas, ainda mais depois da expulsão de Plata. A partida, difícil desde o apito inicial, tinha tudo para ser uma dor de cabeça para o Flamengo, mas Rossi se colocou como protagonista e garantiu que o time continuasse sonhando com o tetra da Libertadores.
Se tem alguém que mantém o clube rubro-negro vivo na busca pela Glória Eterna, é ele. Rossi está fazendo jus ao título de protagonista, daqueles que fazem o torcedor postar mil fotos e stories sobre o goleiro no Instagram ou no X. Dá pra falar sem medo: Rossi tem tudo para ser Rei da América.
Ele chegou ao Flamengo vindo do Boca Juniors com o status de pegador de pênaltis, mas rapidamente mostrou que vai muito além disso. Suas atuações combinam técnica, inteligência de posicionamento e um jogo com os pés simplesmente fenomenal. Seu desempenho contra o Palmeiras foi absurdo, quase poético ver um goleiro quebrando linhas como se fosse um volante de qualidade.
A Libertadores de Rossi até aqui

O argentino começou a campanha mostrando que estaria presente sempre que o time passasse por perigos. Na fase de grupos, quando o Flamengo ainda tropeçava, Rossi apareceu para salvar o dia. Contra o Deportivo Táchira, fez uma defesa no fim que praticamente parou o Maracanã e manteve a equipe viva nesta edição da Copa Libertadores, evitando um vexame inimaginável. Foi um lance que mostrou não só reflexo e agilidade, mas também presença de espírito, algo que poucos arqueiros conseguem manter sob pressão.
Nas quartas, o Estudiantes estava pronto para dar um banho de água fria no Flamengo. Rossi até sofreu um gol evitável em La Plata, mas foi decisivo nas penalidades. Existia uma enorme dúvida sobre o que aguardava o time carioca, mas o argentino foi lá e parou duas cobranças, classificando o Flamengo para a semifinal com a frieza de quem já está acostumado a decidir jogos grandes. Parece que o perigo da eliminação nunca passa pela cabeça de Rossi e, se passa, ele esconde muito bem.
Na semifinal, contra o Racing, Rossi foi simplesmente o dono do jogo nesta última quarta-feira (29). No El Cilindro, fez defesas importantíssimas e ainda queimou bons minutos com cera, num cenário em que o clube carioca sofreu com as investidas dos donos da casa. Se o Flamengo chegou à final, Rossi tem enorme parte nesse crédito. É claro que algumas falhas podem atrapalhar a criação de um ídolo, mas o argentino está caminhando a passos largos para colocar seu nome na história.
Rei da América e goleiro não costumam se dar bem

Os goleiros raramente são reconhecidos no prêmio Rei da América. Em 2004 e 1993 respectivamente, arqueiros como Henao e Zetti brilharam em semifinais e finais da Libertadores, mas nunca receberam o devido destaque. É muito fácil lembrar do arqueiro são-paulino no confronto diante da Universidade Católica, quando defendeu quatro bolas consecutivas, ao mesmo tempo que ainda tinha a presença do enorme Galvão Bueno narrando os seus lances.
Marcos, ídolo do Palmeiras em 1999 e 2000, fez defesas decisivas em momentos cruciais na história do Verdão, mas também ficou de fora da lista de vencedores. Já em 2005, o mito Rogério Ceni teve atuações épicas pelo São Paulo, estamos falando de um goleiro que fez um gol na primeira fase da competição, mas em toda a edição foram cinco, sem esquecer de suas defesas impressionantes e até gols de falta, mas o prêmio foi parar nas mãos de Carlos Tevez (porque na época, davam valor ao ano inteiro do atleta, não só a edição da Libertadores).
O único goleiro que conseguiu quebrar essa tradição foi José Luis Chilavert, em 1996, pelo Vélez Sarsfield, ainda com o diferencial de marcar gols, algo que Ceni fazia a rodo. A explicação é simples: quem balança a rede sempre fica com os holofotes, o que dificulta bastante o lado dos goleiros quando o assunto é destaque. O arqueiro, mesmo decidindo partidas, só é lembrado quando falha. E é justamente nesse cenário que Rossi brilha na Libertadores atual, mostrando que, quando se trata de protagonismo, ele pode muito bem mudar essa história.
Rossi tem chance de mudar isso
Rossi vive a melhor fase da carreira e é o exemplo perfeito de um goleiro moderno: atuações decisivas, técnica refinada, habilidade com os pés, calma e aquele toque de malandragem sul-americana que a torcida adora. Se o Flamengo conquistar o tetra, ele será o nome mais pesado para erguer o troféu individual. Arrascaeta e Pedro são ótimos, mas tiveram Libertadores menos decisivas. Rossi, por outro lado, é o alicerce da equipe de Filipe Luís.
Não dá para deixar de lado o enorme trabalho do sistema defensivo do time rubro-negro, com Léo Pereira e Léo Ortiz em fase espetacular. Mas isso não diminui em nada o trabalho riquíssimo do argentino debaixo das traves.
Sem fugir do assunto, Rossi chama atenção pela regularidade. Desde que chegou ao time rubro-negro, caiu como uma luva nas mãos de Filipe Luís. A experiência gritava, e um goleiro com tanta qualidade na saída de bola potencializa ainda mais o trabalho de uma equipe que busca o controle da posse. Vale lembrar: ele não é só o último homem; é o primeiro defensor, aquele que organiza, comunica e mantém a confiança do time mesmo nas situações mais adversas.
Talvez seja a hora da Conmebol começar a reconhecer
Às vezes, o herói não é quem faz o gol bonito, é quem evita o gol inevitável. Rossi chegou ao Flamengo como “pegador de pênaltis” e virou símbolo de segurança, confiança e força. Se o time levantar a taça, nada mais justo do que coroar o goleiro que manteve o sonho vivo. Porque, convenhamos, Chilavert já merece companhia nessa lista. E Rossi tem plenas condições de ser o próximo, sem querer zicar nada…
Mesmo que o final não contemple esse cenário, é impossível diminuir ou deixar de lado, o exímio trabalho do argentino de 30 anos debaixo das traves do clube carioca nesta edição da Libertadores.
Foto: Adriano Fontes/Flamengo