Beni Baningime e Elton Kabangu no pós vitória do Hearts contra o Celtic, pela 8ª rodada da Scottish Premiership. Foto: Craig Williamson/SNS Group/Getty Images — Reprodução.
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Revolução em Tynecastle: o Hearts desafia a ordem na Escócia sob a gestão de Tony Bloom

O Heart of Midlothian, popularmente conhecido como ‘Hearts’, é o líder do Campeonato Escocês — uma surpresa para quem esperava mais uma temporada com domínio de Celtic e Rangers. Quando Tony Bloom, novo investidor dos Jambos, afirmou aos torcedores em Tynecastle que se decepcionaria caso o clube não conquistasse o título nacional na próxima década, o estádio explodiu em aplausos. Hoje, o cenário dá respaldo às suas ambições: o atual líder anima sua torcida e desafia quem duvidou do projeto, alimentando o sonho de levantar o troféu ao fim da temporada.

No futebol escocês, promessas de destronar Celtic e Rangers não são novidade — e, na maioria das vezes, viram poeira diante da realidade. Porém, após mais de 30 anos, essa hegemonia pode estar perto de uma ruptura. Afinal, o último campeão fora da dupla Old Firm foi o Aberdeen, em 1984/1985.

O futebol muda, e o protagonista dessa transformação na Scottish Premiership, e também uma das mentes pensantes por de trás do sucesso do Hearts, atende pelo nome de Tony Bloom.

Afinal de contas…quem é Tony Bloom?

Diretamente das tribunas, Tony Bloom (à esq) e Paul Barber (à dir) comparecendo ao jogo do Brighton contra o Wolves. Foto: Chris Brunskill/Getty Images — Reprodução.
Diretamente das tribunas, Tony Bloom (à esq) e Paul Barber (à dir) comparecendo ao jogo do Brighton contra o Wolves. Foto: Chris Brunskill/Getty Images — Reprodução.

Assim como Bob Voulgaris, Bloom também é uma figura famosa no universo das apostas esportivas e construiu sua fortuna por meio do pôquer. Ele deu os primeiros passos nas mesas profissionais nos anos 1990 e teve seu grande divisor de águas com um título na Austrália, que rendeu US$ 323.456. Consistente e competitivo, acumulou bons resultados também nos Estados Unidos e na Inglaterra, especialmente entre 2000 e 2010.

Nos últimos anos, Bloom se destacou no futebol com o projeto que transformou o Brighton em referência. A relação com os Seagulls é afetiva e familiar: seu tio foi diretor e seu avô, vice-presidente do clube na década de 1970.

Bloom é um dos personagens que está presente nos discursos sobre a implementação sobre as regras de PSR na Premier League — uma diretriz que prevê que os clubes do futebol inglês não podem gastar mais do que devem. Este é um debate que virá a tona novamente em novembro deste ano, mas com uma tentativa de substituição da atual norma para a regras de custo de elenco (SCR) — tais falas do dirigente foram expostas em entrevista ao jornal The Athletic, periódico que pertence ao The New York Times.

Em 2009, ele comprou 75% das ações e investiu 93 milhões de libras na construção do atual Amex Stadium. O Brighton voltou à Premier League em 2016/17, após 34 anos, e hoje é reconhecido mundialmente por seu modelo de gestão. O sucesso também se repetiu na Bélgica, com o Union Saint-Gilloise, campeão da Jupiler Pro League na temporada passada. Agora, é o Hearts que tenta escrever sua própria história de glória com Bloom.

IA no futebol — a chave do projeto e o caminho para o topo

Trajado com o cachecol de sua equipe, Tony Bloom assistiu a vitória do Hearts sobre o Celtic por 3 a 1. Foto: Craig Williamson/SNS Group/Getty Images — Reprodução.
Trajado com o cachecol de sua equipe, Tony Bloom assistiu a vitória do Hearts sobre o Celtic por 3 a 1. Foto: Craig Williamson/SNS Group/Getty Images — Reprodução.

 

A gestão do Hearts, sob a gerência de Bloom, reúne diversos pilares, e um deles é o uso avançado de inteligência artificial. Há pouco tempo, a aplicação de tecnologia no futebol ainda despertava desconfiança, pelo risco de projeções imprecisas. Hoje, porém, o cenário mudou: a IA saiu do laboratório e entrou decisivamente nos gramados. E quando o assunto é inovação aplicada ao esporte, poucos dominam o jogo como Bloom.

“É uma organização muito reservada. O modelo de negócio dele se baseia em entender melhor do que qualquer um as probabilidades e cenários do jogo. Quando isso é aplicado a um clube, o impacto é enorme.” — Lee Mooney, ex-chefe de análise do Manchester City e fundador da MUD Analytics

Duvidar do potencial do Hearts sob Bloom, para Mooney, é ignorar seu histórico. Brighton e Union Saint-Gilloise são evidências de que a IA pode nivelar forças e encurtar abismos.

“Brighton na Inglaterra, Union Saint-Gilloise na Bélgica… eles conquistaram resultados gigantes com investimentos bem menores que os rivais. Levar esse modelo para a Escócia pode ser o diferencial para competir com os gigantes.” — Mooney

A corrida, agora, não é apenas por títulos — é por tecnologia. E ela já impacta tudo: análise de jogo, preparação física, prevenção de lesões e, principalmente, scouting. John Park, chefe de recrutamento do St. Mirren e responsável por revelar nomes como Virgil van Dijk e Moussa Dembélé no Celtic, reforça:

“Hoje, alunos de engenharia trabalham com a gente criando perfis de jogadores. O próximo passo é ainda mais avançado: simular um atleta no seu time antes de contratá-lo. A IA recria seus movimentos, coloca ele virtualmente ao lado do elenco atual e a comissão só precisa assistir ao ‘teste’. Podemos chegar ao técnico e dizer: ‘Ele encaixa no nosso modelo’.”

Ainda assim, há resistência. Parte do futebol escocês mantém os pés no chão e questiona até onde a tecnologia deve ir. Mas o movimento parece inevitável: metade dos clubes da Premiership admite usar IA em suas rotinas — e especialistas afirmam que a outra metade usa sem perceber.

Os custos ainda são altos e podem atrasar a adoção. Mas o alerta está dado: quando Celtic e Rangers mergulharem de vez nesse universo, quem não acompanhar ficará para trás. Para alguns dirigentes, o momento de abraçar essa revolução é agora — antes que a elite se distancie de forma definitiva.

Hearts e a liderança surpreendente

Stuart Findlay comemora o gol da vitória do Hearts sobre o Dundee Fc, por 3 a 2. O zagueiro foi autor de dois tentos na partida e foi o principal destaque. Foto: Mark Scates/SNS Group/Getty Images — Reprodução.
Stuart Findlay comemora o gol da vitória do Hearts sobre o Dundee Fc, por 3 a 2. O zagueiro foi autor de dois tentos na partida e foi o principal destaque. Foto: Mark Scates/SNS Group/Getty Images — Reprodução.

 

O time comandado por Derek McInnes faz, até aqui, uma campanha irretocável. São 9 vitórias e 2 empates, mantendo a invencibilidade e liderando a Scottish Premiership com autoridade. O Hearts possui ainda o melhor ataque do campeonato, com 28 gols marcados — 10 a mais que Hibernian, segundo colocado no quesito.

A força ofensiva se explica, em parte, pelo desempenho individual de seus principais jogadores. Os Jambos contam com os dois artilheiros da liga: Lawrence Shankland, com 7 gols, e Cláudio Braga, com 6. No apoio, os destaques são Alexandros Kyziridis (meio campista), com 4 assistências, e Harry Milne (lateral esquerdo), com 3 — embora ambos sejam superados, nesse aspecto, por Cameron Congreve, do Dundee FC, líder em passes para gol no torneio.

Taticamente, McInnes adota predominantemente o 4-4-2, mas não se restringiu a apenas essa disposição tática. O treinador já utilizou o 4-3-3, o 3-5-1-1 e até o 3-5-2 ao longo da temporada. O modelo prioriza posse de bola e agressividade ofensiva, provando que formações consideradas “tradicionais” ainda oferecem possibilidades ricas quando bem executadas. O resultado é um time dominante e protagonista de uma campanha histórica: o Hearts volta a disputar o título após 39 anos — a última vez foi em 1985/86, quando perdeu a taça na rodada final para o Celtic. E o último título escocês conquistado pelo clube foi em 1959/60, ou seja, mais de seis décadas atrás.

A consistência no ataque é marca registrada: em 11 jogos pela liga, o Hearts marcou dois ou mais gols em 10 deles. A única exceção foi no clássico contra o Hibernian — ainda assim, vitória por 1 a 0, com gol do zagueiro Craig Halkett.

Em toda a temporada, o único tropeço relevante ocorreu na Copa da Escócia. Eliminado pelo St. Mirren na segunda fase, o Hearts caiu nos pênaltis por 5 a 4, após empate por 1 a 1 no tempo normal. Fora essa eliminação, a equipe segue sólida, competitiva e alimentando um sonho que parecia distante até pouco tempo atrás.

Próxima parada…

O Hearts volta a campo no próximo domingo (09) para enfrentar o Dundee United, pela 12ª rodada do Campeonato Escocês. O jogo será disputado no Tynecastle Stadium, ao meio dia (horário de Brasília).

Créditos pela foto de capa: Craig Williamson/SNS Group/Getty Images — Reprodução