Cherki Manchester City
Futebol Premier League

Cherki dá show e se credencia como novo protagonista do Manchester City

Rayan Cherki nunca foi do tipo que esconde o que está sentindo. Para o bem ou para o mal, o francês é praticamente um livro aberto, especialmente quando as emoções tomam conta. E, na vitória por 4 a 1 sobre o Crystal Palace, ele não teve como esconder absolutamente nada: nem a frustração com o próprio desempenho no primeiro tempo, nem a alegria depois de comandar um verdadeiro espetáculo na etapa final.

Poucos minutos após o apito final, Cherki foi questionado ao vivo sobre o quanto havia gostado do jogo. A resposta, como era de se esperar, passou longe do tradicional discurso pronto de jogador de futebol. Com uma sinceridade quase excessiva e algumas palavras que não poderiam ir para o jornal, o francês detonou a própria atuação no primeiro tempo.

Ao lado dele, Erling Haaland só conseguiu rir.

O curioso é que, minutos depois, o próprio Cherki havia sido eleito o melhor jogador da partida. A autocrítica pesada simplesmente não combinava com os dois gols marcados e com a forma como o atacante transformou o segundo tempo em um show particular. Se o francês acha que jogou mal, os defensores do Crystal Palace provavelmente discordam.

Cherki responde à primeira oportunidade como titular

O duelo contra o Palace foi um daqueles jogos que podem mudar o status de um jogador dentro de um elenco. Rayan Cherki recebeu uma oportunidade como titular e aproveitou da melhor maneira possível, mostrando que não pretende ficar escondido entre as muitas opções ofensivas do Manchester City.

A temporada passada já havia servido para apresentar o francês ao futebol inglês. Contratado junto ao Lyon por cerca de 30 milhões de libras, o atacante disputou 33 partidas pela Premier League. No entanto, 14 delas aconteceram saindo do banco de reservas.

Cherki mostrou flashes de sua qualidade sob o comando de Pep Guardiola, mas sempre ficou a sensação de que existia algo a mais para ser explorado. Um jogador com aquele tipo de talento dificilmente passa despercebido, mesmo quando ainda não consegue transformar toda a habilidade em regularidade.

Agora, com Enzo Maresca iniciando um novo capítulo no Manchester City, o francês parece disposto a acelerar esse processo.

Na estreia contra o Bournemouth, ele entrou no decorrer da partida e participou diretamente dos dois gols tardios que garantiram a vitória dos Citizens. Depois do jogo, Cherki teve uma conversa bastante animada com Maresca, e a resposta do treinador foi colocá-lo como titular no Selhurst Park.

A aposta funcionou. E funcionou muito bem.

Dois gols, muita magia e trabalho sem a bola

O primeiro grande momento de Cherki aconteceu aos nove minutos do segundo tempo. O Manchester City vencia por 1 a 0, mas o Crystal Palace ainda demonstrava capacidade para complicar a partida.

Foi então que o francês decidiu fazer o que sabe.

Após receber o passe de Phil Foden na entrada da área, Cherki começou uma corrida em direção ao gol cercado por quatro defensores. Com mudanças rápidas de direção e um controle de bola que parecia estar ligado ao piloto automático, o atacante atravessou a marcação e finalizou de pé esquerdo.

O estádio viu uma obra de arte. Cherki viu uma chance de mostrar um pouco de personalidade.

Na comemoração, o francês encarou a torcida do Palace em um gesto que misturava confiança, provocação e aquela pitada de arrogância que, quando o jogador entrega em campo, costuma ser facilmente perdoada.

Depois que o Crystal Palace diminuiu a diferença, Cherki apareceu novamente. Desta vez, soltou um chute forte de fora da área e recolocou o Manchester City com dois gols de vantagem.

Jamie Redknapp não poupou elogios ao analisar a atuação.

Para o ex-meio-campista inglês, Cherki é um “gênio” e possui uma capacidade rara de fazer coisas que poucos jogadores da Premier League conseguem. Redknapp comparou o estilo do francês a nomes como Eden Hazard e Georgi Kinkladze, além de destacar o famoso “fator X” que o atacante oferece ao Manchester City.

E a primeira pintura realmente justificava a comparação.

Quando Cherki entrou na área, os defensores do Palace pareciam com medo de encostar nele e cometer um pênalti. Foi o tipo de jogada que exige talento, improviso e, principalmente, coragem para tentar algo diferente.

Maresca destaca outra versão de Cherki

Por mais que os gols tenham roubado todos os holofotes, o que mais agradou Enzo Maresca foi algo que, durante muito tempo, talvez não fosse a primeira característica associada ao francês: o trabalho sem a bola.

O treinador elogiou a intensidade do atacante e destacou sua atuação na marcação, especialmente no acompanhamento de Adam Wharton.

“Não foi apenas a atuação pelos dois gols, mas também o trabalho sem a bola”, avaliou Maresca. Para o técnico, Cherki pressionou bem, ajudou a equipe e entregou uma apresentação completa.

Em entrevista ao programa Match of the Day, o comandante foi ainda mais enfático ao falar sobre o aspecto defensivo.

Segundo Maresca, todos conhecem a qualidade técnica de Cherki, mas o esforço sem a bola foi “inacreditável”. O francês recebeu a missão de acompanhar Wharton e conseguiu limitar a influência de um dos jogadores mais importantes do Crystal Palace.

Esse detalhe pode ser fundamental para seu futuro.

Não existe dúvida sobre a capacidade técnica de Cherki. A grande questão sempre esteve na forma como ele reagiria às exigências coletivas de um grande clube. Se o atacante conseguir manter o nível de dedicação mostrado contra o Palace, terá cada vez mais argumentos para conquistar espaço.

Talento, temperamento e um novo desafio no City

Rayan Cherki chega a este momento da temporada depois de uma Copa do Mundo decepcionante com a França. O atacante teve participação limitada no torneio e só começou como titular contra a Inglaterra, na disputa pelo terceiro lugar, sendo substituído no intervalo quando sua seleção perdia por 4 a 0.

Também surgiram vídeos que mostravam o jogador aparentemente irritado com Didier Deschamps.

Não foi a primeira vez que o francês deixou suas emoções escaparem. Cherki tem fama de ser um jogador difícil de agradar e Maresca já reconheceu que, quando não está feliz, ele faz questão de demonstrar.

Por enquanto, porém, treinador e jogador parecem estar na mesma sintonia.

“Ele está feliz e eu estou feliz”, resumiu Maresca.

Pode haver momentos de tensão entre um treinador exigente e um talento tão intenso quanto Cherki. Isso parece quase inevitável. Mas o Manchester City também sabe que jogadores assim não são fabricados todos os dias.

Cherki tem a imprevisibilidade dos grandes camisas 10, a confiança de quem acredita ser especial e uma qualidade técnica capaz de desequilibrar um jogo em poucos segundos.

A saída de Guardiola naturalmente trouxe dúvidas sobre o futuro do Manchester City. O time precisaria encontrar novas referências e novas formas de manter seu nível competitivo. A atuação contra o Crystal Palace, porém, mostrou que talvez seja cedo demais para qualquer previsão de queda. E Cherki pode ser uma peça importante nessa transição.

Entre a magia com a bola e o temperamento imprevisível, o francês oferece exatamente aquilo que Redknapp chamou de “fator X”. Ele é capaz de fazer o diferente quando a partida parece precisar de uma solução que ninguém mais está enxergando.

Se continuar combinando seu talento com o trabalho coletivo exigido por Maresca, os 30 milhões de libras investidos pelo Manchester City podem se transformar em uma verdadeira pechincha.

Rayan Cherki ainda terá altos e baixos. Isso faz parte de quem joga no limite entre o gênio e o imprevisível. Mas, depois do espetáculo contra o Crystal Palace, uma coisa ficou clara: ele não pretende ficar no fim da fila. E, para o Manchester City, ter um mágico desses no elenco pode fazer toda a diferença.

Foto: Getty Images