Ser técnico do Chelsea nunca foi e nunca será um trabalho tranquilo. Só que, nesses últimos dias, Enzo Maresca sentiu isso na pele como talvez ainda não tivesse ocorrido desde que chegou a Stamford Bridge. Mesmo com o time ocupando a quarta colocação da Premier League, vivo nas copas e com títulos recentes no currículo, o treinador italiano entrou de vez no modo “panela de pressão”.
Após a vitória contra o Everton no sábado, Maresca surpreendeu ao revelar que havia vivido os piores 48 horas desde que assumiu o clube. A frase caiu como uma bomba. Não foi uma derrota, não foi uma eliminação, se tratou simplesmente de um desabafo. E é difícil ver um time desta magnitude, não potencializar essas situações. Depois de ter vencido o Barcelona por 3 a 0 na Champions, os Blues entraram numa maré caótica.
Estamos falando de quatro jogos sem vitória, para ver esse cenário chegar ao fim nesse último fim de semana.
A fala que acendeu o alerta em Stamford Bridge
Maresca não quis dar muitos detalhes, mas o contexto ajuda a entender o incômodo. Antes de vencer o Everton, o Chelsea vinha de duas derrotas e dois empates, uma sequência que, em qualquer outro clube da Premier League, seria tratada como fase ruim. Já no caso dos Blues, se tratava de uma crise, fazendo com que todos questionassem sobre a possibilidade da magia ter chegado ao fim em Londres.
A pressão vem de todos os lados. Internamente, Maresca costuma receber relatórios técnicos detalhados após cada jogo, enviados pela cúpula do futebol do clube. Externamente, a crítica é ainda mais barulhenta: imprensa, ex-jogadores, comentaristas e, claro, as redes sociais, onde todo mundo é técnico, sabendo tudo sobre a parte técnica, tática, e principalmente, quanto a gestão de elenco.
Uma derrota já soa como sinal de alerta. Quatro jogos sem vencer parecem, para muitos, o fim do mundo. Tudo isso mesmo com o Chelsea tendo goleado o Barcelona por 3 a 0 no mês passado. Detalhes? No futebol moderno, especialmente em Londres, detalhes não importam muito quando o resultado recente não agrada.
Malo Gusto, Atalanta e a faísca que faltava no Chelsea
O mais curioso é que o desabafo de Maresca surgiu durante uma resposta sobre Malo Gusto, que havia jogado bem contra o Everton. A ligação não é aleatória.
Dias antes, o treinador foi bastante criticado após a derrota por 2 a 1 para a Atalanta, quando decidiu escalar Gusto fora de posição, atuando como um camisa 10. Além disso, a não utilização de Estevão gerou questionamentos fortes, sendo talvez, um dos pontos que mais frustrem os torcedores nos tempos atuais, porque existe um enorme carinho pelo brasileiro.
Sem contar numa dúvida enorme sobre o fato dele não ser titular no Chelsea.
Esse tipo de crítica mexe. Não só com o treinador, mas com o ambiente. E é aí que surge uma das leituras mais interessantes do episódio: o italiano pode ter falado tudo isso para proteger o elenco e criar aquele clássico clima de “nós contra eles”. Algo que é bem comum e conhecido no futebol, mas que ainda funciona quando o vestiário compra a ideia.
“Nada a acrescentar”: Maresca fecha a porta para o assunto
Na entrevista coletiva antes do duelo contra o Cardiff City, válido pelas quartas de final da Carabao Cup, Maresca foi direto, algo bem próximo de ríspido até.
“Já falei sobre isso. Não tenho nada a acrescentar. Cardiff amanhã, por favor”, respondeu, deixando claro que não queria transformar o episódio em novela, mudando o foco e mostrando qual seria o próximo passo a se preocupar do Chelsea.
Ele ainda reforçou que vivemos uma era em que todos opinam sobre tudo, disse respeitar as opiniões, mas deixou claro que seu foco está exclusivamente no próximo jogo e na busca por uma vaga na semifinal. Quando questionado sobre seu compromisso com o Chelsea, foi curto e firme: “Absolutamente, sim”.
Pressão grande, mas cenário longe do caos
Apesar do barulho, o momento do Chelsea está longe de ser desastroso ou problemático. O clube é se encontra na quarta colocação da Premier League, posição que garante vaga na próxima Champions League, e pode chegar à semifinal da Carabao Cup com uma vitória fora de casa.
Além disso, Maresca ainda tem muito crédito com a diretoria. Em sua primeira temporada, conquistou dois títulos e recolocou o Chelsea na elite do futebol europeu. Isso não some da memória da diretoria do dia para a noite, por mais que o torcedor às vezes queira apertar o botão do pânico rapidamente, quando as suas equipes voltam a aparecer nas principais prateleiras, é normal ter uma certa ansiedade dos fãs.
O plano do clube londrino sempre foi claro: fazer uma avaliação completa do trabalho de Maresca no próximo verão, após dois anos à frente da equipe. Esse tipo de revisão é padrão no Chelsea, mas não pôde ser feito no último ciclo por conta da participação do clube no Mundial de Clubes.
Foto: Adrian Dennis/AFP