O Chelsea viveu um dos capítulos mais movimentados de sua janela de transferências justamente quando parecia ter encerrado suas principais movimentações. A venda de Enzo Fernández para o Manchester City por £125 milhões abriu espaço no meio-campo, e o clube londrino tentou aproveitar as últimas horas do mercado para contratar Lamine Camara, do Monaco.
O problema é que a negociação acabou envolvida em uma sequência de acontecimentos que também teve Folarin Balogun e Everton no meio.
Uma fonte com ligações tanto com Chelsea quanto com Monaco resumiu o episódio de maneira bastante direta: os dois clubes “brincaram com fogo e acabaram queimados”. E não é difícil entender o motivo. Em poucas horas, Camara chegou a fazer exames médicos, conversar com Xabi Alonso e assinar um contrato que iria até 2033, mas acabou permanecendo no Monaco.
Do outro lado, o Chelsea ficou sem o substituto que procurava para Enzo Fernández, enquanto o Monaco viu uma venda considerada praticamente encaminhada desaparecer nos minutos finais. Para completar, Balogun também acabou não deixando o clube francês.
Chelsea tinha Camara no radar há dez dias
Lamine Camara, de 22 anos, era um dos nomes analisados pelo Chelsea para reforçar o setor de meio-campo. O volante senegalês ganhou espaço no planejamento do clube londrino enquanto a saída de Enzo Fernández para o Manchester City se aproximava.
O Monaco, porém, não estava disposto a facilitar a negociação. Segundo Thiago Scuro, diretor esportivo do clube francês, as conversas com o Chelsea vinham acontecendo havia cerca de dez dias, mas a resposta permanecia a mesma: Camara não estava à venda pelo valor oferecido.
“Estive falando com eles nos últimos dez dias”, explicou Scuro. De acordo com o dirigente, o Chelsea voltou a fazer contato por volta das 16h do último dia da janela e recebeu novamente uma negativa.
Naquele momento, o Monaco acreditava que Camara continuaria no elenco. O clube também havia autorizado Folarin Balogun a viajar para Merseyside para concluir sua transferência de £40 milhões para o Everton.
Ou seja: parecia que cada peça do quebra-cabeça estava em seu lugar. Só parecia.
Balogun muda completamente o cenário
A situação começou a virar quando surgiram problemas nos exames médicos de Balogun no Everton. O atacante americano estava perto de trocar o Monaco pelo clube inglês, mas as dificuldades durante o processo abriram uma oportunidade inesperada para o Chelsea.
O clube londrino enxergou a situação e voltou a conversar com o Monaco. A lógica era simples: se o Monaco precisava vender jogadores e Balogun estava com problemas para concluir sua transferência, por que não tentar aproveitar a oportunidade para contratar Camara?
Scuro confirmou que o Chelsea entrou em contato e apresentou a possibilidade de ser a solução para o clube francês.
A partir daí, as conversas foram retomadas por volta das 20h. Pouco depois, Chelsea e Monaco chegaram a um acordo de aproximadamente £47 milhões por Camara. O negócio parecia encaminhado. E, dessa vez, não era apenas uma conversa de corredor.
Camara chegou a assinar com o Chelsea
O Chelsea fez toda a documentação necessária para concluir a contratação de Camara e não precisava sequer recorrer a um deal sheet, mecanismo utilizado para solicitar tempo adicional à Premier League quando uma transferência não é finalizada antes do fechamento da janela.
Camara também teria passado pelos exames médicos, conversado com Xabi Alonso e assinado um contrato válido até 2033.
Só que havia um detalhe: o Monaco ainda precisava resolver a situação de Balogun.
Enquanto o Chelsea trabalhava para fechar a contratação de Camara, o Everton não havia encontrado uma alternativa para o atacante e decidiu retomar o negócio. O clube inglês voltou à mesa nos minutos finais da janela.
Segundo Scuro, por volta das 22h, o Everton informou ao Monaco que os problemas envolvendo Balogun estavam resolvidos e que estava pronto para assinar o contrato.
Foi nesse momento que o negócio de Camara começou a desmoronar.
Monaco escolheu Balogun e irritou o Chelsea
Assim que recebeu a confirmação do Everton, o Monaco voltou a falar com o Chelsea e informou que a transferência de Camara não aconteceria.
Para o clube francês, a escolha fazia sentido. O Monaco precisava gerar receitas com vendas e acreditava ter garantido a saída de Balogun ao assinar um deal sheet poucos minutos antes das 23h, permitindo que a transferência para o Everton fosse concluída depois do fechamento oficial da janela.
O Chelsea, naturalmente, não recebeu a decisão da mesma maneira.
O clube londrino ficou furioso e alegou que o Monaco comunicou por escrito que a transferência não seguiria em frente, em vez de telefonar diretamente para informar a mudança de planos. E havia outro problema: Camara já estava emocionalmente envolvido com a mudança.
O meio-campista havia conversado com Alonso, realizado exames e assinado um contrato. De repente, tudo foi cancelado. O jogador ficou decepcionado e precisou retornar ao Monaco.
É o tipo de situação que faz o último dia da janela parecer mais uma roleta do que uma operação planejada.
E Balogun também não foi para o Everton
Se o Monaco imaginava que o desfecho resolveria seus problemas, a história ainda guardava mais uma reviravolta.
Durante a madrugada de terça-feira, Balogun mudou de ideia. O atacante deixou o centro de treinamento do Everton, em Finch Farm, sem assinar contrato com o clube inglês.
O Monaco afirma que o jogador se sentiu maltratado durante sua passagem pelo centro de treinamento. O Everton, por sua vez, contesta essa versão. Com isso, o clube francês acabou ficando sem os dois resultados que esperava: Camara não foi vendido ao Chelsea e Balogun também não foi transferido para o Everton.
Scuro afirmou que o Monaco precisou respeitar a decisão do atacante e que o clube chegou a questionar a avaliação médica para tentar encontrar uma solução.
“Não quero criar uma guerra com Chelsea ou Everton”, afirmou o dirigente, destacando que sua função é defender os interesses do Monaco.
O clube francês ainda pode tentar vender outros jogadores para mercados onde a janela de transferências permanece aberta, justamente para alcançar os recursos que precisava gerar neste verão.
Chelsea poderia ter evitado o problema?
É justamente aqui que começa a discussão sobre a atuação do Chelsea.
O clube tinha conhecimento do interesse em Camara havia pelo menos dez dias e poderia ter tentado fechar a negociação antes. O problema é que o Monaco considerava o jogador praticamente inegociável durante boa parte da janela, a menos que recebesse uma proposta “excepcional”.
Portanto, antecipar a contratação poderia significar pagar mais do que o Chelsea considerava adequado.
A diretoria londrina também não estava desesperada para encontrar um substituto para Enzo Fernández a qualquer preço. A ideia era reforçar o elenco, mas apenas dentro dos parâmetros estabelecidos pelo clube.
Mesmo assim, o desfecho deixou uma dúvida importante: o Chelsea realmente tem profundidade suficiente no meio-campo para atravessar a temporada sem Camara?
Meio-campo vira ponto de atenção
Xabi Alonso conta com Reece James, Moises Caicedo, Romeo Lavia e os recém-chegados Jordan Henderson e Valentin Barco para o setor. O próprio James é visto pelo treinador principalmente como uma opção para atuar no meio-campo.
O problema é que lesões de Caicedo e Henderson, somadas ao desgaste de James, já fizeram Alonso improvisar Malo Gusto na posição.
Isso aconteceu na vitória por 4 a 3 sobre o Brighton, partida em que o Chelsea terminou com apenas 25,6% de posse de bola, sua menor marca desde que esse tipo de registro começou a ser contabilizado, em 2003/04.
Barco, de 21 anos, poderia ter sido utilizado, mas o Chelsea pretende administrar cuidadosamente sua adaptação depois de uma passagem curta pelo Brighton.
Por isso, a possibilidade de buscar Camara novamente em janeiro não está descartada. O clube também pode analisar outros nomes caso perceba que o setor não oferece a qualidade e a profundidade necessárias.
Apesar do caos, janela do Chelsea teve saldo positivo
É importante colocar o episódio em perspectiva. A janela do Chelsea não pode ser resumida apenas ao fracasso envolvendo Camara.
O clube conseguiu registrar lucro líquido no mercado e ainda adicionou jogadores importantes ao elenco. Entre os reforços estão o campeão mundial Emiliano Martínez, o francês Maxence Lacroix, o atacante Morgan Rogers, contratado por valor recorde de £117 milhões, além do experiente Danny Welbeck e dos laterais Pep Chavarria e Marco Palestra.
A venda de Enzo Fernández por £125 milhões para o Manchester City também proporcionou uma enorme receita ao clube. Além disso, o Chelsea teve a possibilidade de cancelar a transferência do argentino, mas optou por não fazê-lo por uma questão de “profissionalismo”.
No fim das contas, o clube conseguiu aquilo que buscava em grande parte do mercado: movimentar o elenco, gerar receita e acrescentar qualidade. Mas a novela Camara mostrou que nem sempre o dinheiro e a documentação são suficientes para fechar um negócio.
O Chelsea chegou ao último dia da janela acreditando que poderia encontrar uma solução para o meio-campo. Encontrou Camara, chegou a encaminhar a contratação e, poucas horas depois, viu tudo desaparecer.
Agora, a resposta terá de ser dada dentro de campo. Com a temporada em andamento e o confronto contra o Arsenal pela frente, Xabi Alonso terá a missão de provar que o Chelsea tem peças suficientes para competir no alto nível, mesmo depois de uma das noites mais caóticas de sua janela de transferências.
Foto: Getty Images



