Igor Thiago resolveu aparecer no momento perfeito para o Brentford, ou melhor, o scout da equipe inglesa decidiu trabalhar com a realidade quando disse pros torcedores ficarem tranquilos. A saída de Bryan Mbeumo, Yoane Wissa, Norgaard e Thomas Frank fez com que muito se perguntassem o que seria dos Bees nas próximas temporadas, e para tranquilizá-los em um desses casos, colocaram um centroavante brasileiro para segurar as pontas.
Igor Thiago não teve o luxo de adaptação gradual. Para que o Brentford tivesse qualquer chance de manter a competitividade, ele precisava entrar em campo e resolver. E foi exatamente isso que fez. Aos 24 anos, ele não apenas assumiu o protagonismo, como virou um dos atacantes mais letais de toda a Europa na temporada 2025/26, ajudam bastante a esquecer a antiga dupla de ataque que entregou 39 gols na campanha passada.
Artilharia, contexto e o “asterisco” dos pênaltis
Durante boa parte da temporada, Igor Thiago ocupou a segunda colocação na artilharia da Premier League, algo que naturalmente chama atenção, mas também gera debate. Cinco dos seus 14 gols foram de pênalti, mais do que qualquer outro jogador da liga. Para alguns, isso diminui o feito. Para outros, é só parte do jogo. Afinal, pênalti não se bate sozinho, apesar de ser uma realidade considerada mais simples, o futebol moderno não responde desta forma.
E se alguém ainda torcia o nariz, o brasileiro tratou de responder dentro de campo, onde todo mundo presta mais atenção. No último fim de semana, ele anotou seu primeiro hat-trick na Premier League, na vitória por 4 a 2 sobre o Everton, detalhe importante: todos os gols com bola rolando, e agora, onde está o seu Deus? Foi apenas o quarto hat-trick da liga na temporada. Sim, ele conseguiu isso antes até de Erling Haaland.
Hoje, Igor Thiago soma 14 gols no campeonato, atrás apenas do norueguês (19). Em gols sem pênalti, também é vice-líder, com nove, enquanto Haaland lidera com 18. No recorte das cinco grandes ligas europeias, apenas Harry Kane (19) e Kylian Mbappé (18) têm números superiores. Mais ninguém passou de 11 gols.
Simplesmente Igor Thiago fazendo história
Se marcar mais dois gols até o fim da temporada, Igor Thiago se tornará o brasileiro com mais gols em uma única edição da Premier League, superando marcas de Roberto Firmino, Gabriel Martinelli e Matheus Cunha, todos com 15, nomes que considerados de alto nível na competição. Nada mal para alguém que, pouco tempo atrás, carregava frutas e assentava tijolos para ajudar a família, como ele mesmo contou ao site do Brentford após deixar o Club Brugge.
A história de superação não para aí, o que ajuda a aumentar ainda mais o carinho pelo profissional. Na temporada anterior à transferência para a Inglaterra, Igor Thiago marcou 29 gols em 55 jogos pelo Brugge, mas praticamente perdeu seu primeiro ano no futebol inglês por lesão. Em 2024/25, foram apenas 168 minutos em campo, duas finalizações e nenhuma participação direta em gol. Ou seja: chegou em 2025/26 devendo tudo e entregando ainda mais.
Os números mostram o tamanho do impacto. Igor Thiago é responsável por 44% dos gols do Brentford na Premier League nesta temporada, sendo capaz de brilhar dentro e fora da área, tem sido comum vê-lo explorar o jogo fora da banheira. Após 20 rodadas, o time ocupa a sétima colocação, apenas um ponto atrás do top-5. Isso depois de perder seus dois principais atacantes do ano anterior.
Ele marcou seu primeiro gol na liga contra o Sunderland, mesmo na derrota por 2 a 1. Pouco depois, fez dois contra o Manchester United em uma vitória por 3 a 1, tornando-se apenas o segundo jogador a marcar duas vezes nos primeiros 20 minutos contra os Red Devils na era Premier League, o outro nem foi um profissional conhecido, apenas Alexis Sánchez, em 2015.
Apesar de ser o substituto direto de Wissa como centroavante, Igor Thiago oferece muito mais do que presença de área. Ele finaliza bem, finaliza muito e finaliza com qualidade. São 44 chutes, sendo 26 no alvo, só Haaland tem mais, novamente o dinamarquês mostrando que é um exemplo na posição, não deixa o brasileiro andar sozinho. Sua taxa de precisão de 59,1% é a melhor da liga entre jogadores com pelo menos 30 finalizações.
E ele não é previsível. Dos seus chutes sem pênalti, 16 foram com a direita, 14 com a esquerda e oito de cabeça. Defender um atacante assim vira um jogo de adivinhação.
Mais um pedreiro da bola fazendo sucesso
Se tem algo que explica a confiança do técnico Keith Andrews em Igor Thiago, é o trabalho sem bola. O brasileiro é o segundo jogador que mais pressiona na Premier League (1.510 ações) e o líder em pressões de alta intensidade (1.012). Isso não é acaso: faz parte do DNA do Brentford, mas exige entrega, e Thiago tem feito isso, simplesmente mostrando e dando valor para cada minuto disponibilizado a ele dentro de campo.
Ele também está entre os jogadores que mais fazem corridas sem bola, sprints e movimentos em profundidade, levando o marcador com ele, confundindo os defensores. Contra o Everton, foram 35 corridas ofensivas sem bola, a quinta maior marca da temporada em um único jogo. O prêmio? Um hat-trick.
Defensivamente, ele também contribui: são 35 cortes defensivos, número superado apenas por Richarlison entre os atacantes da liga. Meu Deus, a gente está falando de um camisa nove, ou um 5, são estatísticas excepcionais, o que levantam muitas dúvidas, sobre se alguém está vendo isso.
O futuro está aberto
Com a tabela extremamente apertada no meio da Premier League, o Brentford sabe que qualquer sequência ruim pode derrubar o time. Mas também sabe que, com Igor Thiago em campo, sonhar com vaga europeia não é nenhum delírio coletivo. Se tratam de um time que chegou na elite, se manteve, em inúmeras vezes dava uma bagunçada na cabeça dos melhores da liga, então, o céu é o limite.
O próximo desafio é justamente contra o Sunderland, em casa, o mesmo adversário do primeiro gol do brasileiro na competição. Apostar contra ele, neste momento, parece mais coragem do que lógica. Esse tem tudo para ser um grande jogo, porque o Mirassol inglês tem se dado muito bem na Premier League, principalmente com Granit Xhaka os coordenando, logo, os Bees precisarão do apoio de seu camisa 9.
Igor Thiago não apenas preencheu o vazio deixado por Mbeumo e Wissa. Ele transformou ausência em protagonismo. E, se continuar assim, o Brentford pode acabar descobrindo que perdeu dois jogadores… mas ganhou um líder. Importante ressaltar um ponto, olho nele, Carlo Ancelotti, diante da ausência de atacantes de confiança na Seleção Brasileira, uma oportunidade não fará mal a ninguém.
Foto: Catherine Ivill – AMA/Getty Images



