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Automobilismo Fórmula 1

A incoerência de Verstappen nas críticas à “regra papaia” da McLaren

Max Verstappen, da Red Bull Racing, voltou a criticar a McLaren pela chamada “regra papaia”, adotada pela equipe britânica na temporada passada. Segundo o tetracampeão mundial de Fórmula 1, a “igualdade” pregada pelo time de Woking não foi cumprida em momentos decisivos do campeonato de 2025. Para o holandês, um dos exemplos mais claros ocorreu no GP da Itália, quando Lando Norris teria sido favorecido intencionalmente graças a um pit-stop demorado de Oscar Piastri, situação que interferiu diretamente no resultado da corrida e na disputa pelo título.

Incomodado com o que classificou como incoerência estratégica da McLaren, Verstappen foi duro ao comentar a postura da equipe em relação aos seus pilotos. “Definitivamente não aceitaria essa ordem da equipe. Se você faz isso uma vez sem um motivo claro, está vendendo a alma. A equipe passa a poder fazer o que quiser com você. E não podemos esquecer que Piastri estava no meio da disputa pelo título”, disse o piloto da RBR, deixando claro que, em sua visão, a prioridade velada a Norris contradiz o discurso de tratamento igualitário defendido pela McLaren ao longo da temporada.

Um discurso que não se sustenta

Apesar do impacto midiático de suas declarações, a fala de Verstappen carrega uma incoerência difícil de ignorar. O holandês não tem, propriamente, lugar de fala quando o assunto é favorecimento interno. Desde que chegou à Red Bull, ainda jovem, ele se tornou o centro absoluto do projeto esportivo da equipe austríaca. Ao longo dos anos, decisões estratégicas, desenvolvimento do carro e até escolhas políticas dentro do paddock foram claramente orientadas para maximizar seus resultados, muitas vezes em detrimento de seus companheiros.

Recentemente, Sergio Pérez, ex-companheiro do “Super Max”, abordou de forma franca essa dinâmica interna. Ao descrever o ambiente da RBR, o mexicano foi direto ao chamar a equipe de “complicada”, ressaltando que todos os esforços visavam privilegiar Verstappen. No entendimento do experiente piloto, que defenderá a Cadillac a partir deste ano, essa estratégia extrema acabou cobrando seu preço. Para Pérez, a Red Bull poderia ter dominado a Fórmula 1 por ainda mais tempo se tivesse conseguido equilibrar melhor suas forças internas e extrair mais consistência do segundo carro.

Em um time moldado quase exclusivamente em torno de Verstappen, qualquer variação de desempenho do segundo piloto se transforma em fonte de tensão. Se anda mais rápido, ameaça a hierarquia estabelecida e passa a ser visto como um risco político. Se anda mais lento, vira um problema esportivo e midiático, acusado de não estar à altura do equipamento. Esse ambiente, longe de ser igualitário, é um dos mais assimétricos do grid atual, o que torna paradoxal a cobrança feita por Verstappen à McLaren.

Justamente por isso, sua crítica à “regra papaia” soa hipócrita. Ao mesmo tempo em que exige igualdade em uma equipe rival, o holandês desfruta de todos os privilégios possíveis dentro da Red Bull, desde estratégias pensadas exclusivamente para ele até um status praticamente intocável nas tomadas de decisão. Diante desse cenário, seria mais coerente que Verstappen se abstivesse de comentar a política interna de outras equipes e focasse apenas no que acontece nas pistas.

Foca na pista, Verstappen

Não se trata de questionar o talento do tetracampeão. Verstappen é, indiscutivelmente, um dos pilotos mais completos da história recente da Fórmula 1. Seu controle de carro, agressividade calculada e capacidade de leitura de corrida o colocam em um patamar que o credencia a, no futuro, alcançar marcas de Michael Schumacher e Lewis Hamilton. Com esse nível de excelência, ele não precisa recorrer a falas incoerentes para tentar desestabilizar adversários ou criar narrativas externas.

Olhando para 2026, ano que marcará a introdução de um novo regulamento técnico na Fórmula 1, Verstappen terá desafios suficientes pela frente. A adaptação a um carro profundamente diferente, em um cenário de possível reequilíbrio de forças no grid, exigirá foco total. Reviver polêmicas de 2025 ou apontar o dedo para escolhas estratégicas da McLaren pouco acrescenta à sua trajetória. Para um piloto do seu calibre, o melhor discurso continua sendo aquele construído com desempenho, não com contradições.

Foto: Reprodução/Getty Images