O Arsenal estaria trabalhando em um acordo para contratar Julián Álvarez, atualmente no Atlético de Madrid. Apesar de se tratar de um jogador já testado na Premier League, por sua passagem vitoriosa pelo Manchester City, a possível contratação levanta mais dúvidas do que certezas dentro do contexto atual dos Gunners.
O principal motivo não está em Álvarez, mas no próprio modelo de jogo de Mikel Arteta — especialmente na forma como o treinador vem utilizando Viktor Gyökeres, a principal contratação ofensiva do clube na última janela de verão.
O sueco chegou por 65,8 milhões de euros, após uma temporada histórica pelo Sporting: 54 gols, 12 assistências e 52 jogos. Um centroavante dominante, participativo e decisivo. No Arsenal, porém, sua função foi completamente redefinida.
Isso levanta uma pergunta inevitável: se Gyökeres não consegue atuar dentro de suas virtudes no sistema atual, por que seria diferente com Julián Álvarez?
Gyökeres: de protagonista a peça funcional

No Sporting, Gyökeres tinha 42,4 ações com a bola por jogo, número que o colocava no percentil 88 entre atacantes das principais ligas europeias. Isso se traduzia em impacto direto:
- 39 gols em 33 jogos de liga (12 de pênalti)
- 4,46 finalizações/90’
- 1,93 dribles/90’
- 1,99 chances criadas/90’
No Arsenal, o cenário mudou drasticamente:
- 24,0 toques por jogo
- 2,13 finalizações
- 0,33 dribles certos
- 0,73 chances criadas/90’
- 5 gols em 20 jogos de Premier League
Parte da queda se explica pelo salto de nível competitivo entre a Liga Portugal e a Premier League. Mas há um fator ainda mais determinante: mudança de função.
Gyökeres deixou de ser um atacante participativo na construção para atuar quase exclusivamente como fixador de zagueiros, ocupando a última linha defensiva, com pouco envolvimento no jogo associativo — algo que era uma de suas maiores virtudes em Portugal. Além disso, passou a sofrer mais nos duelos físicos constantes contra defensores ingleses.
Julián Álvarez mudaria o cenário?

Tecnicamente, Álvarez é diferente: menos força física, mais mobilidade, inteligência espacial e capacidade associativa. Seus números mostram isso — média de 52,0 toques por 90 minutos, um perfil muito mais participativo.
Se Arteta o utilizasse em moldes semelhantes aos de Gabriel Jesus, o encaixe poderia ser mais natural. Em 2023/24, última temporada em que Jesus esteve majoritariamente saudável, o brasileiro teve 53,8 toques por 90 minutos em 27 jogos de liga.
Há, inclusive, um argumento técnico favorável: Álvarez pode ser uma versão mais eficiente de Jesus. Na última temporada, marcou 17 gols com 14,3 xG, enquanto o brasileiro, historicamente, tende a performar abaixo do xG ao longo da carreira.
Mas isso só funciona sob uma condição essencial: o sistema precisa se adaptar ao atacante — não o contrário.
O problema não é o nome. É o modelo

Até agora, Arteta não adaptou o sistema para Gyökeres. Adaptou Gyökeres ao sistema. E é exatamente esse o ponto central da análise.
Sem uma mudança clara de estrutura — com mais protagonismo do centroavante na construção, mais liberdade de movimentação e mais participação no jogo associativo — qualquer contratação de alto nível corre o mesmo risco:
Um grande atacante preso a um modelo que não potencializa suas virtudes. Nesse cenário, Julián Álvarez não seria solução — seria repetição de problema.
Por isso, a questão não é se Álvarez é bom o suficiente para o Arsenal. A questão real é outra: O Arsenal está disposto a mudar seu modelo para extrair o melhor de um camisa 9? Se a resposta for não, então a busca por Julián Álvarez deveria, sim, ser encerrada.
Créditos pela foto de capa: Oscar del Pozo/AFP