Quando a Real Sociedad anunciou a contratação de Pellegrino Matarazzo em dezembro, a decisão foi recebida com surpresa e curiosidade. Não apenas por se tratar de uma mudança em meio à temporada, mas porque o treinador nascido em Nova Jersey tornou-se o primeiro técnico norte-americano da história da La Liga. Em um campeonato tradicionalmente fechado a perfis estrangeiros fora do eixo europeu clássico, a escolha representava ousadia. Mas, acima de tudo, representava ruptura.
E era exatamente disso que o clube precisava.
O fim natural de um ciclo vitorioso
A saída de Imanol Alguacil marcou o encerramento de uma era iniciada em 2018. Sob seu comando, a Real consolidou identidade, valorizou a base e conquistou a Copa do Rei em 2019–20. Ao lado do diretor esportivo Roberto Olabe, o clube construiu um projeto admirado em toda a Europa.
No entanto, os pilares daquele time começaram a se desfazer. Alexander Isak saiu em 2022. Depois vieram Robin Le Normand e Mikel Merino. A perda mais simbólica foi a de Martín Zubimendi, contratado pelo Arsenal de Mikel Arteta após anos de assédio europeu.
Sem essas referências técnicas e emocionais, a tentativa de manter continuidade com Sergio Francisco revelou-se um equívoco. O contexto havia mudado profundamente. A pergunta já não era como preservar o modelo anterior, mas como reconstruir uma nova identidade.
Uma mudança estrutural imediata
Desde a chegada de Matarazzo, os números falam por si. A equipe passou a somar 2,3 pontos por jogo na liga, em contraste gritante com a média anterior. A sequência invicta colocou o clube entre os mais consistentes das cinco grandes ligas europeias.
Mas a transformação vai além dos resultados. O estilo mudou radicalmente.
A posse deixou de ser um princípio absoluto. A Real tornou-se vertical, agressiva e imprevisível. O time pressiona alto, reduz o tempo de decisão do adversário e aceita o caos como parte da estratégia. O PPDA caiu significativamente, refletindo uma equipe que busca recuperar a bola o mais rápido possível.
Ao invés de longas sequências de passes, a equipe prioriza transições rápidas e ataques diretos. É um futebol mais intenso e menos contemplativo.
O impacto nos jogadores
A revolução tática trouxe benefícios individuais claros. Beñat Turrientes, antes visto como herdeiro ainda verde de Zubimendi, ganhou papel central e maior liberdade para pressionar e recuperar bolas. Seus números de duelos vencidos e recuperações aumentaram consideravelmente.
Sergio Gómez encontrou uma função híbrida como lateral agressivo que invade o meio-campo. A nova abordagem valoriza sua técnica e mobilidade.
Gonçalo Guedes também ressurgiu. Após passagens irregulares por diferentes clubes, voltou a ser decisivo explorando espaços internos, com liberdade para atacar zonas dinâmicas em vez de permanecer fixo na linha lateral.
O caso mais simbólico, porém, é o de Mikel Oyarzabal. Após a grave lesão no ligamento cruzado anterior e um período de oscilações, o capitão reencontrou protagonismo. Sua média de xG por 90 minutos atingiu o ponto mais alto sob o novo comando, refletindo um papel mais inteligente: ele recua para articular e surge na área no momento decisivo.
Uma identidade adaptável
Sob Alguacil, a Real era altamente posicional. Com Matarazzo, tornou-se fluida. Os jogadores não ocupam apenas zonas pré-determinadas — interpretam espaços de acordo com o contexto do jogo. Essa elasticidade tática permite adaptações rápidas contra diferentes adversários.
A vitória sobre o Athletic Club em San Mamés pela Copa do Rei exemplificou essa nova personalidade competitiva. O time mostrou agressividade, intensidade emocional e capacidade de sofrer quando necessário. Contra o FC Barcelona, mesmo diante de números estatísticos desfavoráveis, a equipe soube capitalizar momentos-chave.
A Real deixou de buscar controle absoluto para priorizar eficiência.
Real Sociedad é um projeto ainda em construção
É cedo para afirmar que a transformação está completa. O futebol é volátil e sequências positivas podem se dissipar rapidamente. Um confronto no Santiago Bernabéu contra o Real Madrid representa novo teste de maturidade.
Ainda assim, os sinais são encorajadores. A equipe está próxima de retornar a uma final de Copa do Rei, algo raro nas últimas décadas. Mais importante do que títulos imediatos, porém, é a sensação de direção clara.
A Real Sociedad precisava mais do que continuidade administrativa ou tática. Precisava de reinvenção.
Pellegrino Matarazzo não apenas assumiu o desafio histórico de ser o primeiro americano na La Liga — ele entendeu o momento do clube. Ao rasgar o roteiro anterior e escrever um novo capítulo, devolveu intensidade, convicção e competitividade a uma equipe que corria o risco de se tornar refém de seu próprio passado recente.
A revolução não era apenas desejável. Era inevitável. E, até aqui, está sendo conduzida com coragem e coerência.