As fornecedoras de motor da Fórmula 1 acusam a Mercedes de ter explorado uma brecha no regulamento de 2026 em relação à taxa de compressão do motor. Ao operar com um valor superior ao das rivais, a montadora alemã teria encontrado um ganho de 0,3s por volta. Agora, uma votação entre fabricantes irá definir o futuro das unidades de potência da categoria.
Os “Flechas de Prata” não eram os únicos apontados como tendo contornado a regra. A Red Bull investiu pesado na construção de sua unidade de potência própria ao contratar cerca de 200 funcionários da Mercedes entre 2023 e 2024, e teve contato com o truque com antecedência. A equipe austríaca também teria explorado a brecha, mas, sem o mesmo sucesso dos alemães, mudou de lado na guerra política e se juntou aos que tentam banir o artifício.
A FIA (Federação Internacional de Automobilismo) segue em constante contato com as marcas que afirmaram se sentir lesadas pela Mercedes e buscará resolver o imbróglio de forma democrática. O resultado da votação deve sair nos próximos 10 dias.
Como a Mercedes explorou a taxa de compressão?

O regulamento de 2026 da F1 trouxe mudanças importantes no que diz respeito às unidades de potência, algo que tem causado dor de cabeça a equipes, pilotos e fabricantes. Em relação à taxa de compressão, isto é, a relação entre o volume máximo do cilindro (quando o pistão está no ponto mais baixo) e o volume mínimo (quando está no ponto mais alto), a regra é explícita ao dizer que o valor deve ser de 16:1 no momento da medição.
O cerne da questão é que essa medição é feita com os carros parados, em temperatura ambiente. O que as rivais alegam é que a Mercedes teria encontrado uma forma eficiente de aumentar essa taxa para 18:1 enquanto o carro está na pista, graças à expansão causada pela temperatura. No momento da inspeção, o valor volta a ser de 16:1 e mascara o artifício.
A vantagem que isso dá em relação às adversárias é uma incógnita. Embora veículos de mídia especializada apontem para 15 cavalos de potência (ou 3 décimos de segundo), é difícil quantificar com eficiência durante a pré-temporada, quando diferentes programas estão sendo trabalhados pelas equipes. O fato é que isso causou uma guerra nos bastidores entre times que são a favor e outros que são contra o truque.
Quem está de que lado e o que está em jogo?
Com a mudança de lado da Red Bull, a Mercedes agora está sozinha na defesa da sua artimanha. Ferrari, Honda e Audi contam com o apoio da RBPT (em parceria técnica com a Ford), formando maioria para mudar o regulamento e eliminar a brecha.
A votação não é especificamente para banir o motor da rival, mas para alterar a metodologia de medir a taxa de compressão. A proposta apresentada é de que a conformidade deve ser demonstrada não apenas em condições ambientais, mas também a uma temperatura operacional de 130 °C, de acordo com comunicado emitido pela entidade máxima do esporte a motor.
A medida impactaria não somente a Mercedes e sua dupla George Russell e Kimi Antonelli, mas também as equipes que importam sua unidade de potência: Alpine, McLaren e Williams.
Mudança não terá efeito imediato
Apesar do alarde em cima do tema, o artifício da montadora de Brackley está assegurado até, pelo menos, o dia 1º de agosto de 2026. Ou seja, a suposta vantagem só será mitigada após a volta das férias da F1. Até lá, é esperado que a Mercedes seja uma das ponteiras do grid, junto à própria Red Bull.
Não é a primeira vez que um truque da escuderia tem aval da FIA para ser usado durante a temporada, apesar de protestos das rivais. Em 2020, a equipe desenvolveu o DAS (Dual Axis Steering, ou direção de duplo eixo), que controlava, por meio de ajustes para frente e para trás no volante, o posicionamento da suspensão.
Na ocasião, o órgão baniu a implementação do mecanismo na temporada 2021, em um período anterior ao teto de gastos, em que a categoria já buscava reduzir custos operacionais, mas permitiu seu uso pelo restante de 2020. Na prática, o DAS sequer foi tão usado como temiam rivais e fãs, dada a grande dominância do W11, que deu a Lewis Hamilton seu sétimo título mundial com 11 vitórias em 17 etapas.
(Foto principal: Race Pictures)



