Se alguém dissesse em agosto que o Crystal Palace viveria uma temporada com técnico anunciando saída, ídolos indo embora, críticas públicas à diretoria e protestos da torcida… mas ainda brigando por título europeu, muita gente pediria para repetir a dose do café. Simplesmente estão querendo viver um pouco da realidade do Tottenham na temporada passada, mesmo em frangalhos, ainda querem levar algo pra casa.
Mas é exatamente isso que está acontecendo em Selhurst Park.
Depois de vencer o Zrinjski por 2 a 0 e fechar o agregado em 3 a 1, garantindo vaga nas oitavas da Conference League, o goleiro e capitão Dean Henderson resumiu o sentimento com ironia: “Não sei qual foi todo esse alvoroço”. Uma frase que mistura sarcasmo e alívio. Porque, sim, tem sido um ano insano.
Do céu ao caos (e talvez de volta ao céu)
Em maio, o Palace viveu o maior momento de sua história ao bater o Manchester City e conquistar a FA Cup, o primeiro grande título do clube. Três meses depois, ainda levantou a Community Shield ao vencer o Liverpool nos pênaltis. Era o início de uma nova era dourada? Parecia. Mas o futebol raramente respeita roteiros lineares.
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O craque Eberechi Eze foi vendido ao Arsenal. O capitão Marc Guéhi ficou perto de sair para o Liverpool, resistiu… mas cinco meses depois acabou negociado com o City. O artilheiro Jean-Philippe Mateta esteve a detalhes de fechar com o AC Milan, mas reprovou nos exames médicos, algo que não é dos melhores mundos para o Crystal Palace.
E no meio disso tudo, o técnico Oliver Glasner, o mais vitorioso da história do clube, anunciou em janeiro que deixaria o cargo ao fim da temporada. Não satisfeito, ainda criticou a diretoria, dizendo que o elenco havia sido “abandonado”. Clima leve? Nem um pouco.
A torcida reagiu. Em um dos jogos recentes, antes da vitória por 1 a 0 sobre o Wolverhampton Wanderers, uma faixa nas arquibancadas estampava: “Ele está acabado”. Só que… ele não parece estar.
Glasner fica e o Crystal Palace responde
Apesar do anúncio de saída e das críticas públicas, Glasner continua no cargo, existiam alguns rumores sobre uma possível despedida em meio a temporada, mas ele não concorda com esse fato. E, segundo ele, com respaldo total da diretoria. “100%”, garantiu ao ser perguntado se tinha segurança no emprego.
O austríaco admite que talvez tenha dado entrevistas “não muito úteis”, mas reforça que sempre fala o que sente. Transparência que pode não ser diplomática, mas parece ter mantido o vestiário ao seu lado. E isso, no futebol, vale mais do que qualquer coletiva ensaiada.
“O mais importante é que os jogadores acreditam em mim”, disse Glasner. “Se não acreditam, você faz as malas e vai embora.”
O Crystal Palace está em 13º na Premier League. Não é brilhante, mas também não é drama: são 10 pontos acima da zona de rebaixamento e apenas três atrás do oitavo colocado, posição que pode garantir vaga europeia dependendo das combinações da temporada.
Ou seja: a temporada pode ter sido um terremoto emocional, mas ainda está viva.
Conference League: favorito? Sim, senhor
Na Conference League, o Palace entrou como favorito desde o início. Mesmo terminando apenas em 10º na fase de liga e precisando passar por dois jogos contra o campeão bósnio Zrinjski para chegar às oitavas, o clube londrino segue com moral nas casas de aposta. E, olhando para os possíveis adversários Mainz ou Larnaca, não parece absurdo.
O curioso é que os EAgles já perderam para o Larnaca na fase anterior. A Conference pode não ter o glamour da Champions, mas não perdoa distrações. Dean Henderson, agora capitão após a saída de Guéhi, mantém os pés no chão: “Estamos com fome de mais títulos, mas não se fala em ganhar nada três meses antes. É mata-mata.”
Ex-zagueiro do clube, James Tomkins foi mais direto: o Palace é favorito para levar o troféu. E, convenhamos, não é exagero. O elenco pode não ser estrelado como o de gigantes europeus, mas tem estrutura, intensidade e, principalmente, confiança renovada após duas vitórias consecutivas, algo que parecia impossível durante a sequência de 12 jogos sem vencer entre dezembro e janeiro.
Glasner até chegou a destacar algo importante: vencer quando “todos esperam que você vença” é mais difícil do que parece. E Selhurst Park voltou a pulsar.
A torcida, que foi crítica, também sabe apoiar. O estádio tem sido combustível em noites europeias. E, com o departamento médico esvaziando, o cenário melhora: Mateta e o volante Jefferson Lerma devem retornar em duas semanas. Mais opções, mais equilíbrio, mais esperança.
Final de filme ou mais um plot twist?
O Palace pode terminar a temporada com três títulos em dois anos. Algo que, há pouco tempo, soaria como delírio coletivo no sul de Londres. Glasner vai sair? Vai ficar? A diretoria vai recuar? O elenco vai se manter unido até maio?
Não sabemos.
Mas sabemos de uma coisa: mesmo no meio do caos, o Crystal Palace está vivo na briga por um título europeu inédito. E se tem algo que essa temporada já ensinou é que previsibilidade não mora em Selhurst Park. Se o roteiro seguir nessa linha, o final pode ser daqueles que ninguém esperava… mas que todo torcedor vai querer contar para os netos.
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