O Atlético-MG saiu do Mangueirão com a sensação de que deixou escapar uma oportunidade importante no Brasileirão. O empate por 2 a 2 com o Remo, neste sábado, não representa apenas a perda de dois pontos na tabela, mas expõe um problema que o time de Eduardo Domínguez ainda precisa resolver: a dificuldade de controlar partidas depois de assumir a vantagem.
O Galo conseguiu reagir a um início ruim, virou o placar ainda no primeiro tempo e parecia ter encontrado o caminho para conquistar uma vitória importante fora de casa. O problema é que, em vez de utilizar o resultado a seu favor, a equipe recuou excessivamente na segunda etapa, entregou a iniciativa ao adversário e acabou castigada.
A invencibilidade após a pausa para a Copa do Mundo continua, mas o desempenho diante do Remo mostra que permanecer sem perder não necessariamente significa estar evoluindo. Para uma equipe que busca alcançar a Libertadores de 2027, empates como este podem custar caro.
A virada mostrou um Atlético capaz de competir
O começo da partida foi justamente o cenário que o Atlético precisava evitar. Logo aos dois minutos, Jajá aproveitou uma falha coletiva da defesa para abrir o placar. O lance expôs uma equipe desatenta, com os zagueiros incapazes de controlar a movimentação do atacante após a bola lançada por Everson retornar ao campo defensivo.
Depois do gol, no entanto, o Galo assumiu o controle territorial da partida. O Remo recuou suas linhas e permitiu que os visitantes tivessem mais posse, embora isso não tenha necessariamente se traduzido em um grande volume de oportunidades.
Ainda assim, o Atlético conseguiu encontrar soluções principalmente pelo lado direito. Preciado apareceu como uma peça importante para dar profundidade ao time, enquanto Cissé e os jogadores de meio-campo ajudaram a criar superioridade naquele setor.
A recompensa veio no fim do primeiro tempo. Cissé encontrou Preciado em boa posição, e o lateral avançou até a linha de fundo antes de cruzar para Reinier. O atacante, que vinha de dias turbulentos após o episódio envolvendo um torcedor na Arena MRV, apareceu bem colocado para empatar.
O gol mudou o ambiente da partida e, principalmente, devolveu confiança ao Atlético. Poucos minutos depois, Maycon encontrou Alan Minda, que atacou o espaço e cruzou rasteiro para Bernard completar a virada.
Nesse momento, o Galo tinha exatamente o que precisava: vantagem no placar, confiança e um adversário que havia perdido o controle emocional da partida. Era a oportunidade para administrar o jogo com inteligência. Foi justamente aí que o Atlético errou.
O problema não foi se defender, mas abrir mão de jogar
A postura adotada pelo Atlético no segundo tempo não pode ser explicada apenas pela intenção de proteger a vantagem. Todo time precisa saber sofrer em determinados momentos de uma partida, especialmente como visitante. O problema foi a maneira como o Galo passou a sofrer.
A equipe praticamente abriu mão da posse e da capacidade de ameaçar o Remo nos contra-ataques. Com pouca presença ofensiva, o adversário ganhou campo, passou a circular a bola com tranquilidade e começou a empurrar o Atlético para perto da própria área.
A diferença entre as duas etapas foi evidente. No primeiro tempo, mesmo sem dominar completamente o jogo, o Galo conseguia encontrar espaços e acelerar as jogadas quando recuperava a bola. Depois do intervalo, essas transições praticamente desapareceram.
O Remo percebeu a mudança e passou a atacar com mais jogadores. Quando uma equipe se posiciona tão recuada sem oferecer ameaça na saída, o adversário inevitavelmente ganha confiança. Foi o que aconteceu.
O empate nasceu justamente de uma infiltração nas costas da defesa. Taliari recebeu lançamento, atacou o espaço e chegou à linha de fundo antes de finalizar para vencer Everson. O goleiro também teve participação negativa no lance, mas seria simplista colocar o empate exclusivamente na conta dele. A origem do problema estava na postura coletiva.
O Atlético permitiu que o Remo jogasse perto demais de sua área durante tempo suficiente para que um erro individual se transformasse em gol.
Invencibilidade não pode esconder os problemas
O Atlético segue invicto desde a retomada após a Copa do Mundo, e isso é um dado positivo. Mas a sequência precisa ser analisada além dos resultados. O empate diante do Remo mostra que o time ainda apresenta dificuldades para transformar momentos de superioridade em controle efetivo das partidas. O Galo consegue reagir, encontra soluções ofensivas e demonstra capacidade para competir, mas ainda não consegue sustentar seu desempenho durante os 90 minutos.
Esse é um problema particularmente relevante para Domínguez porque a temporada entra em uma fase na qual cada ponto passa a ter peso maior. O objetivo de alcançar a Libertadores exige regularidade, e o Atlético não pode desperdiçar vantagens contra adversários que estão abaixo na tabela.
A sensação após o jogo é justamente essa: o Galo não perdeu porque foi amplamente inferior ao Remo, mas porque não teve coragem ou capacidade para continuar jogando depois de virar.
Há uma diferença importante entre controlar uma partida sem a bola e simplesmente recuar. O primeiro exige organização, compactação e capacidade de escolher os momentos para pressionar ou acelerar. O segundo deixa o adversário confortável e transforma cada ataque em uma ameaça. O Atlético escolheu a segunda alternativa.
Domínguez precisa encontrar um equilíbrio
O trabalho de Eduardo Domínguez ainda está em processo de construção, e o elenco passou por mudanças importantes. Por isso, é natural que existam oscilações. O problema é que algumas delas começam a se repetir dentro das partidas.
O treinador precisa fazer o Atlético entender que uma vantagem não significa necessariamente a necessidade de abandonar suas características ofensivas. Pelo contrário: em determinadas situações, continuar atacando pode ser a maneira mais eficiente de se defender.
O jogo contra o Remo mostrou isso de maneira clara. O Atlético encontrou dois gols quando teve coragem para atacar os espaços e utilizar a velocidade pelos lados. Quando recuou, deixou de produzir ofensivamente e passou a depender exclusivamente de sua defesa.
Para uma equipe que pretende disputar a parte de cima da tabela, essa escolha é perigosa. O Galo poderia ter chegado aos 32 pontos e encostado no G-5. Em vez disso, saiu do Mangueirão com 30 e com a sensação de que perdeu uma oportunidade importante de transformar a invencibilidade pós-Copa em uma arrancada.
O empate não representa uma crise, mas funciona como um alerta. O Atlético tem recursos para brigar por objetivos maiores, porém precisa aprender a jogar os 90 minutos com a mesma personalidade. Caso contrário, continuará chegando perto dos resultados que precisa sem conseguir transformá-los em vitórias.
(Foto: Pedro Souza/Atlético-MG)



