A aquisição dos direitos de transmissão da Fórmula 1 pela Globo trouxe consigo uma consequência negativa para dois jovens pilotos brasileiros: a Fórmula 3 ficou de fora do pacote oferecido pela emissora. Dentre as categorias de acesso, apenas a Fórmula 2 foi confirmada e será exibida pelo canal por assinatura SporTV.
Pedro Clerot e Fernando Barrichello não terão suas corridas transmitidas por nenhum veículo de televisão nacional. Isso impacta não somente a dupla, mas os próximos representantes brasileiros que trilham o caminho rumo à maior categoria do automobilismo. Embora haja caminhos alternativos, as três categorias que compõem o sistema “Road to F1” são hoje a maior vitrine para a Fórmula 1.
Ausência de transmissão afeta visibilidade de pilotos brasileiros

O crescimento de audiência da Fórmula 1 nos últimos anos — impulsionado pela série Drive to Survive, lançada em 2019, e pela revalorização do “produto F1” promovida pelo grupo Liberty Media — gerou efeitos positivos também em suas categorias de base.
Se antes Fórmula 2 e Fórmula 3 eram campeonatos de nicho, acompanhados por poucos fãs assíduos de automobilismo no Brasil, a partir de 2020 o cenário mudou significativamente. Nomes como Felipe Drugovich, Enzo Fittipaldi, Gianluca Petecof e, mais tarde, Gabriel Bortoleto e Rafael Câmara passaram a receber um destaque raro para categorias de acesso. Boa parte deles foi impactada pelo destaque dado pelo Grupo Bandeirantes, que exibia as corridas no Bandsports (TV fechada) e, em decisões por título que envolviam brasileiros, abriu espaço para as categorias de base no sinal aberto.
Petecof é um exemplo claro do engajamento que passou a existir entre público e pilotos juniores. Na disputa do título da Fórmula Regional Europeia, em 2020, o brasileiro declarou em entrevistas que não teria orçamento para completar a temporada. A reação do público veio nas redes sociais, com uma campanha para atrair patrocinadores e viabilizar a continuidade de sua carreira. Em 2026, ele fará parte da equipe de comentaristas da Fórmula 2 — categoria que disputou em 2021 — no SporTV, após deixar o grid da Stock Car Pro Series.
Porém, a ausência de transmissão no Brasil compromete diretamente a visibilidade dos pilotos jovens do país, especialmente na hora de negociar com empresas locais. O desafio já é naturalmente maior para atletas sul-americanos, diante da desvalorização cambial e dos altos custos do esporte. Uma temporada de Fórmula 2, por exemplo, pode custar entre 10 e 12 milhões de reais. O cenário se torna ainda mais complexo sem uma plataforma de exibição que amplifique a exposição das marcas que apostam no futuro do automobilismo nacional.
Não são raros os casos de pilotos que interromperam o sonho de chegar à Fórmula 1 por falta de patrocínio. No passado recente, Igor Fraga, que disputou a Fórmula 3 em 2020, passou anos afastado antes de retornar aos monopostos no automobilismo japonês. Atualmente, o nipo-brasileiro compete na Super Fórmula.
Globo abdicou de categorias de base já em 2020

No último ano da parceria entre Globo e Fórmula 1, a emissora já havia deixado de transmitir a Fórmula 2. A solução encontrada pela organização do campeonato foi disponibilizar as corridas no YouTube, com comentários em inglês. O cenário também foi visto em outros países sem cobertura televisiva oficial, como Índia e Alemanha.
Ainda assim, um número relevante de fãs acompanhou e apoiou os três brasileiros presentes no grid à época, Drugovich, Guilherme Samaia e Pedro Piquet. Na Fórmula 3, onde corriam Fittipaldi e Fraga, o desafio era maior, especialmente em um período em que o streaming oficial da categoria, F1TV Pro, ainda não operava no Brasil.
O cenário contrasta com o visto alguns anos antes, quando o SporTV exibia não só a Fórmula 2, mas também a GP3 Series e a Fórmula 3 Europeia. Em razão de conflitos de grade, no entanto, essas categorias por vezes iam ao ar apenas em reprise. Em 2019, as duas categorias se fundiram no Campeonato de Fórmula 3 da FIA, que vendeu os direitos de transmissão à DAZN para o ano inaugural.
F1 Academy e Porsche Supercup também podem estar fora
Outra categoria que ainda não tem transmissão confirmada para 2026 no Brasil é a F1 Academy. O campeonato criado em 2023 — equivalente à Fórmula 4 — é exclusivamente feminino e conta com a pilota brasileira Rafaela Ferreira no grid. A catarinense integra a Academia da Red Bull.
A F1 Academy não foi mencionada pelos veículos de comunicação do Grupo Globo e, ao que tudo indica, também deve ficar fora da grade. A etapa de abertura está marcada para Xangai, na segunda semana de março.
Situação semelhante vive a Porsche Supercup, categoria de carros de turismo que tradicionalmente acompanha a Fórmula 1 no calendário. Neste caso, o prazo até a estreia é maior: a rodada inaugural será em Mônaco, entre 4 e 6 de junho.
Em 2021, a W Series (campeonato feminino que antecedeu a F1 Academy) chegou a ser exibida pelo SporTV, mesmo após a saída da Fórmula 1 da Globo. De acordo com informações de bastidores, o contrato que a Globo fez com a Fórmula 1 foi feito separadamente, e não um pacote completo. Na prática, isso significa que outras emissoras ainda poderiam assumir a os direitos de transmissão destes campeonato menores — incluindo a própria Fórmula 3.
Como assistir Fórmula 3 no Brasil?
Por enquanto, a alternativa para os fãs que desejam acompanhar a Fórmula 3, a F1 Academy e a Porsche Supercup é a assinatura da F1TV Pro. O plano anual custa 44,99 dólares (cerca de 233 reais), enquanto o mensal sai por 5,99 dólares (aproximadamente 31 reais). A F1 Academy também tem transmissão via YouTube no canal oficial da categoria com comentários em inglês.
Nenhuma dessas categorias, porém, conta com comentários em português. Quem optar pela plataforma precisará acompanhar as transmissões em outros idiomas, como inglês, espanhol ou italiano.
Fórmula 2 e Fórmula 3 abrem a temporada 2026 neste fim de semana, com a etapa da Austrália, no circuito de Albert Park. Saiba a programação completa.
(Foto principal: Reprodução / Fórmula 3)


