Arsenal Raya
Futebol Premier League

Hurzeler acusa Arsenal de fazer cera contra o Brighton, mas números absolvem o líder da PL

A vitória por 1 a 0 do Arsenal sobre o Brighton no Amex Stadium não terminou quando o árbitro apitou o fim da partida. Pelo contrário: o debate começou ali mesmo e ganhou força nas entrevistas pós-jogo, principalmente por parte o time derrotado.

O técnico dos Seagulls, Fabian Hurzeler, foi direto nas críticas. Bastante irritado com o comportamento do adversário, atual líder da Premier League, ele acusou o Arsenal de “criar suas próprias regras” e adotar táticas claras de cera para segurar o resultado.

Segundo o treinador, apenas um time tentou jogar futebol.

A declaração gerou discussão nas redes sociais e entre torcedores, principalmente porque o jogo teve mesmo um ritmo quebrado, cheio de paralisações e reclamações. Mas quando os números entram em campo, a história fica um pouco mais complexa.

Gol cedo e clima quente

A partida foi decidida logo no começo. Aos nove minutos, Bukayo Saka marcou o único gol do jogo e colocou o Arsenal em vantagem no placar.

A partir daí, o cenário ficou claro: o Brighton teve mais posse de bola, tentou pressionar e empurrar o adversário para trás, enquanto os visitantes administravam o resultado, contando bastante com o alto nível de David Raya dentro das quatro linhas.

Nada muito diferente do roteiro clássico do futebol.

Mesmo assim, o clima no estádio ficou cada vez mais tenso. A torcida dos mandantes passou a reclamar de qualquer paralisação, e Hurzeler acabou levando essa frustração para a coletiva. Para ele, o Arsenal exagerou nas interrupções e prejudicou o espetáculo.

Arsenal realmente demora nas bolas paradas?

Curiosamente, um dos pontos levantados por Hurzeler tem respaldo estatístico. De acordo com dados da Opta, o Arsenal é o time da Premier League que mais demora para cobrar escanteios nesta temporada.

Em média, os Gunners levam 44,5 segundos para executar esse tipo de jogada, o maior tempo da liga. Ou seja: nesse ponto específico, a reclamação do técnico do Brighton tem fundamento.

Mas quando olhamos para todas as reposições de bola, o cenário muda um pouco. No jogo em questão, considerando escanteios, laterais e faltas, o Arsenal levou 31,4 segundos em média para reiniciar as jogadas. Parece muito? Nem tanto.

Entre 285 partidas analisadas na temporada, houve 195 ocasiões em que times demoraram mais que isso. Além disso, existem cinco equipes da Premier League que demoram mais que os Gunners para reiniciar o jogo, entre elas:

  • Leeds United

  • Newcastle United

  • Crystal Palace

  • Brentford

  • Sunderland

Já o Brighton aparece praticamente no extremo oposto: é o segundo time que mais reinicia rapidamente o jogo, com média de 26,5 segundos, se encontra bastante na posição de querer que a bola role, que a partida ocorra. Ou seja, o choque de estilos também ajuda a explicar a frustração.

O fator que muda tudo: estar ganhando

Existe ainda um detalhe importante que às vezes passa batido nas análises. Quando um time está vencendo, ele naturalmente tenta controlar o ritmo da partida. Quando está perdendo, acelera o jogo.

Simples assim.

E nesse quesito o Arsenal tem um “problema” curioso: o time costuma ficar muito tempo na frente do placar. Na atual temporada da Premier League, os Gunners passaram 45,4% do tempo vencendo suas partidas, número superado apenas pelo Manchester City.

O Brighton, por outro lado, liderou o placar em apenas 23,8% do tempo.

Um jogo cheio de interrupções

Apesar de o tempo médio de reposição não ter sido absurdo, o jogo teve muitas paralisações.

Segundo a Opta, o Arsenal registrou 59 atrasos no reinício de jogadas.

Esse número foi o 8º maior em uma partida da Premier League nesta temporada. Já o tempo total de interrupções chegou a 30 minutos e 51 segundos, o 22º maior da competição. Ou seja, o ritmo travado realmente existiu e ajudou o Arsenal a controlar o jogo.

A polêmica envolvendo o goleiro Raya

Outro alvo das críticas de Hurzeler foi o goleiro David Raya. O treinador afirmou que o jogador teria caído no gramado três vezes para parar o jogo. Mas a revisão das imagens mostra algo um pouco diferente.

Segundo análise da Sky Sports, houve apenas duas situações em que Raya ficou no chão. A primeira aconteceu aos 37 minutos, quando o japonês Kaoru Mitoma fez contato com o goleiro durante uma disputa aérea. A segunda veio aos 58 minutos, após uma defesa em chute de Georginio Rutter. Nesse momento, Raya recebeu atendimento médico.

A paralisação durou dois minutos e oito segundos, mas parte desse tempo aconteceu porque o Arsenal realizou duas substituições, com as entradas de:

  • Kai Havertz

  • Leandro Trossard

Ou seja, não foi exatamente um teatro digno de Oscar.

Afinal, quanto tempo a bola rolou?

Hurzeler também reclamou que o jogo teve apenas 50 minutos de bola rolando. Mas os dados oficiais mostram outro cenário. De acordo com a Opta, o tempo de bola em jogo foi de 53 minutos e 58 segundos.

Isso representa 53,5% do tempo total da partida, que durou pouco mais de 100 minutos considerando os acréscimos. Ainda parece pouco, e de fato é, mas o número está apenas 1,8% abaixo da média da Premier League, que é de 55,3%. Mais interessante ainda: em duas partidas da mesma rodada, o tempo de bola rolando foi ainda menor.

Por exemplo:

  • Newcastle United x Manchester United — 53min17s

  • Leeds United x Sunderland — 52min02s

Ou seja, o problema não é exclusivo do Arsenal.

O verdadeiro debate da Premier League

Os números mostram que a reclamação de Hurzeler não é totalmente injusta. O Arsenal realmente tentou quebrar o ritmo da partida depois de abrir o placar. Mas também revelam algo maior. A redução do tempo de bola rolando é um fenômeno da liga inteira.

Segundo a Opta, a temporada atual tem o segundo menor tempo médio de bola em jogo desde 2006/07. E quando analisamos apenas o Arsenal, o clube aparece acima da média da liga nesse quesito. No fim das contas, o debate sobre cera, ritmo de jogo e tempo perdido vai continuar, especialmente quando o resultado favorece um dos lados.

Mas para o Arsenal, a verdade é simples: com mais três pontos na conta e a liderança no radar, a discussão provavelmente não tira o sono de ninguém no norte de Londres.

Foto: Getty Images