O reinado de Oleksandr Usyk nos pesos pesados pode estar entrando em um momento decisivo, não necessariamente dentro do ringue, mas nos bastidores políticos do boxe. O campeão ucraniano, que hoje detém os cinturões do World Boxing Council (WBC), da International Boxing Federation (IBF) e da World Boxing Association (WBA), enfrenta um cenário cada vez mais complexo após anunciar uma luta inesperada contra o kickboxer Rico Verhoeven.
O combate está programado para acontecer em maio nas Pirâmides de Gizé, no Egito, em um evento claramente pensado como espetáculo global. Mas, enquanto o duelo promete chamar atenção do público, ele também levanta dúvidas sobre o futuro dos títulos mundiais que Usyk carrega atualmente.
A grande questão é simples: ao escolher enfrentar um lutador fora do boxe tradicional e não cumprir as defesas obrigatórias de seus cinturões, Usyk corre o risco real de perder parte deles sem sequer lutar.
A luta de Usyk contra Verhoeven e o dilema dos cinturões
A luta contra Rico Verhoeven será válida apenas pelo cinturão do WBC. Isso ocorre porque o próprio conselho confirmou que se trata de uma defesa voluntária, ou seja, uma luta que não faz parte da fila obrigatória de desafiantes.
Essa decisão cria um problema imediato. Enquanto o WBC aceitou o combate como válido, os outros dois organismos ainda não deram garantias de que permitirão que seus títulos estejam em jogo na mesma luta.
No boxe profissional, cada federação possui regras próprias para a defesa de cinturões. Campeões precisam enfrentar seus desafiantes obrigatórios dentro de determinados prazos, ou podem ser destituídos do título. E é exatamente essa situação que começa a se desenhar ao redor de Usyk.
Entre os três cinturões atuais do ucraniano, o da IBF parece ser o mais ameaçado no curto prazo. O britânico Derek Chisora tornou-se desafiante obrigatório após vencer Otto Wallin em uma eliminatória oficial. Desde então, seu promotor, Kalle Sauerland, tem pressionado a federação para que o título seja colocado em disputa.
A lógica do lado de Chisora é simples: Usyk ainda não realizou nenhuma defesa obrigatória do cinturão da IBF durante seu reinado nos pesados. Diante disso, Sauerland argumenta que o título deveria ser declarado vago caso o ucraniano não enfrente o desafiante.
Se isso acontecer, o cinturão poderia ser disputado por outros pesos pesados bem posicionados no ranking, possivelmente envolvendo nomes como Deontay Wilder, que luta contra Chisora em breve.
Em outras palavras: enquanto Usyk participa de um grande evento contra um kickboxer, a IBF pode simplesmente decidir que o título precisa continuar circulando entre os boxeadores ativos da divisão.
A situação da WBA e o desafio de Gassiev
Outro organismo que observa atentamente os movimentos de Usyk é a WBA. O russo Murat Gassiev atualmente possui o cinturão “regular” da associação, uma espécie de segundo título dentro da organização. Já Usyk detém o status de “super campeão”, reservado normalmente para lutadores que unificaram cinturões ou têm grande relevância.
O problema é que Usyk não faz uma defesa obrigatória da WBA desde 2023, quando enfrentou Daniel Dubois.
Com isso, a equipe de Gassiev pede clareza da federação. Caso a luta contra Verhoeven não coloque o título em jogo, a WBA pode tomar uma de duas decisões: retirar o cinturão de Usyk ou colocá-lo como “campeão em recesso”
Ambos os cenários abririam caminho para que Gassiev fosse elevado ao posto de campeão principal da entidade. Curiosamente, essa rivalidade tem história. Os dois já se enfrentaram em 2018 na final do torneio World Boxing Super Series dos cruzadores, quando Usyk venceu por decisão e se tornou campeão absoluto da categoria.
Hoje, porém, Gassiev é um peso pesado consolidado e acredita que poderia oferecer uma luta muito mais competitiva.
Se a ameaça de perder cinturões parece improvável, a história recente mostra que isso já aconteceu com Usyk. Em 2025, ele abriu mão do título da World Boxing Organization (WBO) ao não enfrentar o desafiante obrigatório Fábio Wardley. A decisão permitiu que Wardley fosse elevado a campeão e que a divisão seguisse seu curso. O episódio deixou claro que as organizações não hesitam em retirar cinturões quando campeões optam por outras lutas.
Ou seja: o cenário atual não é inédito.
O efeito dominó na divisão dos pesados
A possível perda de cinturões por Usyk pode gerar um verdadeiro efeito dominó na categoria. Se a IBF declarar o título vago, novos combates por cinturão serão organizados rapidamente. O mesmo vale para a WBA, caso Gassiev seja promovido a campeão principal.
Até mesmo o WBC pode entrar nessa equação. O britânico Lawrence Okolie, atual número 1 do ranking, já declarou acreditar que Usyk eventualmente deixará o título vago. Nesse caso, ele poderia enfrentar o campeão interino Agit Kabayel pelo cinturão. Isso significa que, em poucos meses, a divisão pode ter três novos campeões diferentes, mesmo sem que Usyk seja derrotado.
Negócio ou legado?
A decisão de enfrentar Rico Verhoeven também revela uma mudança estratégica na carreira do ucraniano. Aos 39 anos, Usyk parece priorizar “money fights”, com grande apelo midiático. O combate nas Pirâmides de Gizé certamente se encaixa nesse perfil.
Promotores e analistas reconhecem que esse tipo de decisão faz sentido do ponto de vista comercial. Muitos campeões históricos, incluindo Tyson Fury e Anthony Joshua, já participaram de lutas semelhantes fora da lógica tradicional de rankings.
Mas o preço pode ser alto.
No sistema fragmentado do boxe, manter múltiplos cinturões exige cumprir obrigações com várias federações ao mesmo tempo, algo cada vez mais difícil quando um campeão opta por eventos especiais.