Depois que o Arsenal venceu o Chelsea com dois gols de escanteio algumas semanas atrás, o ex-campeão da Premier League, Chris Sutton lançou uma provocação: “Se eles confirmarem o título, serão o campeão mais feio da história da Premier League?”
A crítica ganhou eco com outra voz influente: Paul Scholes. O ex-meia do United afirmou recentemente que os Gunners podem acabar se tornando “o time mais entediante” a conquistar o campeonato. O curioso é que essas críticas surgem justamente no momento em que o Arsenal vive uma das temporadas mais completas de sua história recente.
A equipe comandada por Mikel Arteta lidera a Premier League com sete pontos de vantagem, está na final da Copa da Liga, nas quartas de final da FA Cup e segue viva na UEFA Champions League. Entretanto, para o técnico espanhol, a discussão estética não é prioridade.
“Trata-se de jogar o melhor futebol possível, aquele que o jogo exige e que te dá a melhor chance de vencer. É só isso.” — pontuou o comandante
Produção ofensiva
Os números ajudam a contextualizar o debate. O Arsenal marcou 59 gols em 30 partidas da Premier League nesta temporada — média de 1,97 por jogo. Se mantiver esse ritmo, será o campeão com menor média de gols desde o título do Leicester City em 2015-16 (1,79).
Ainda assim, o número está longe de ser excepcionalmente baixo. Ele supera a média de 12 campeões anteriores da liga, incluindo cinco títulos do Manchester United, os três conquistados pelo Chelsea sob o comando de José Mourinho — e até o lendário Arsenal dos “Invincibles”, que, na campanha invicta de 2003-04, por exemplo, a média foi de 1,92 gol por partida.
O peso das bolas paradas
É fato que ao analisar como os gols são marcados, os críticos encontram argumentos. Dos 59 gols do Arsenal na liga, 24 vieram de bolas paradas — cerca de 41% do total. Este percentual é superior ao registrado por qualquer campeão anterior da Premier League.
Há também uma curiosidade interessante: Sutton e Scholes, aqueles que mais fizeram críticas atuaram justamente nas equipes que mais dependiam desse tipo de jogada antes do Arsenal atual. O Blackburn Rovers campeão de 1994-95 e o Manchester United de 2007-08 marcaram 80 gols em suas campanhas, sendo 28 deles em bolas paradas — cerca de 35%.
Torcedores do Arsenal argumentam que esse número não indica falta de criatividade ofensiva, mas sim eficiência em um fundamento específico do jogo. Mesmo assim, os dados mostram certa dependência: o time marca apenas 1,17 gol por jogo em bola rolando.
Entre os campeões da Premier League, apenas o Manchester United que conquistou a primeira edição da liga, em 1992-93, teve média tão baixa nesse quesito.
A defesa do estilo
Nas últimas partidas, um dos técnicos que mais propagou críticas foi: Fabian Hurzeler, do Brighton. O técnico, apesar de não ser muito adepto ao estilo de jogo Arteta, revelou que conversou o comandante dos Gunners. No papo, cada um defendeu seu ponto de vista e que tinham ideias diferentes.
O Arsenal ainda pode conquistar quatro títulos na temporada. No próximo compromisso pela liga, enfrenta o Everton. E, novamente, outro personagem vai de encontro com os líderes: David Moyes.
Curiosamente, Arteta atuou por cinco anos no Everton sob o comando de Moyes — que saiu em defesa do estilo dos Gunners:
“Vocês estão tratando como um problema o fato de eles serem bons em bolas paradas e fisicamente fortes. Eu não vejo problema nenhum. Isso faz parte do jogo.” — argumentou
“Você pode jogar o melhor futebol do mundo, mas o que realmente importa é vencer.” — acrescentou
Outros campeões também “ganharam feio”
Mesmo quem critica o estilo do Arsenal reconhece que outros campeões da liga também triunfaram de maneira pouco estética. O título do Leicester em 2015-16 é um exemplo clássico. Só naquela campanha, 10 dos 68 gols vieram de pênalti. O time teve menos finalizações e toques na área adversária que vários rivais e 14 das 23 vitórias foram por apenas um gol de diferença.
Além disso, embora o canto “1-0 to the Arsenal” seja famoso entre os torcedores, apenas cinco das 20 vitórias da equipe nesta temporada foram por 1 a 0. Para efeito de comparação, o Chelsea campeão de 2004-05 venceu 11 jogos por 1 a 0, enquanto o Manchester United de 2008-09 teve 10 vitórias nesse placar.
Beleza é relativa
Outro ponto importante que sustenta o debate é que o Arsenal também não é um time particularmente agressivo. Os Gunners receberam 40 cartões amarelos em 30 jogos, número bem abaixo do recorde de 73 advertências do Chelsea campeão de 2014-15.
A equipe ainda pode se tornar apenas o quarto campeão da Premier League sem expulsões. Ou seja, embora o estilo esteja longe do futebol hipnotizante do Barça do Guardiola, o Arsenal também não representa uma ruptura radical em relação a outros campeões da liga.
Na verdade, os números mostram algo mais simples: ganhar de maneira pragmática sempre fez parte da história da Premier League. Inclusive para alguns dos times em que seus críticos mais ferozes atuaram.
Créditos da foto de capa: Divulgação/Arsenal
