A passagem de Endrick pelo Lyon tem sido marcada por uma contradição curiosa. Em campo, o jovem brasileiro soma números sólidos desde que chegou por empréstimo do Real Madrid: cinco gols e cinco assistências, dez participações diretas em gols em poucos meses. Fora de campo, ou melhor, nas páginas da imprensa esportiva francesa, a narrativa parece completamente diferente.
Após o empate contra o Celta de Vigo pela UEFA Europa League, por exemplo, Endrick marcou o gol que manteve o Lyon vivo na competição. Mesmo assim, o tradicional jornal esportivo L’Équipe deu nota 4 ao brasileiro, classificando sua atuação como “irritante”. O contraste entre desempenho e avaliação levanta uma pergunta inevitável: por que a imprensa francesa parece ter tanta má vontade com Endrick?
A expectativa desproporcional em cima de Endrick
Parte da explicação pode estar na expectativa criada em torno do atacante. Endrick chegou à Europa cercado de hype, rotulado como um dos maiores talentos do futebol brasileiro da nova geração. Esse rótulo inevitavelmente cria um padrão de cobrança mais alto do que o aplicado ao restante do elenco.
Na França, isso costuma significar algo bastante específico: se o jogador é tratado como estrela, espera-se que ele decida partidas sozinho. Não importa se o time está desfalcado, se o contexto coletivo é desfavorável ou se o adversário está recuado. A expectativa é que o talento resolva.
Foi exatamente o que aconteceu na partida em Vigo. O Lyon entrou em campo com diversos desfalques importantes e teve dificuldades coletivas para criar chances claras. Mesmo assim, Endrick foi praticamente o único jogador capaz de gerar perigo real. Tentou sete finalizações, acertou dois chutes no alvo, acertou 94% dos passes e ainda criou duas grandes oportunidades para Corentin Tolisso e Roman Yaremchuk.
Se essas chances tivessem sido convertidas, provavelmente a narrativa da imprensa seria outra. Mas o fato de o gol ter surgido após um erro do goleiro Ionut Radu acabou servindo como argumento para minimizar o impacto do brasileiro.
Essa relação tensa entre jogadores brasileiros e a imprensa francesa não é exatamente uma novidade. O caso mais emblemático ocorreu com Neymar durante sua passagem pelo Paris Saint-Germain.
Neymar chegou a Paris em 2017 como a contratação mais cara da história do futebol. Dentro de campo, produziu números extraordinários: gols, assistências, protagonismo em títulos nacionais e participação decisiva na campanha que levou o PSG à final da UEFA Champions League em 2020.
Mesmo assim, a relação com a imprensa francesa foi frequentemente marcada por críticas severas. Muitas vezes, o foco das análises parecia menos voltado ao desempenho esportivo e mais ao estilo do jogador: as dribles considerados “exagerados”, as comemorações, a postura em campo.
Esse padrão revela algo mais profundo do que simplesmente análise tática.
O choque cultural do futebol brasileiro
Jogadores brasileiros tradicionalmente representam um estilo de futebol que valoriza criatividade, improviso e individualidade. Dribles, jogadas de efeito e gestos técnicos fazem parte da identidade cultural do futebol do país.
Na França, assim como em outras partes da Europa, existe historicamente uma valorização maior de disciplina tática e eficiência coletiva. Quando um jogador rompe esse padrão, ele pode ser visto como excessivo, individualista ou até provocador.
Endrick carrega exatamente essas características. Ele tenta dribles, arrisca chutes de média distância e participa ativamente da construção ofensiva. Em Vigo, por exemplo, tentou 16 dribles, com 50% de sucesso, um número alto considerando o contexto do jogo.
Para muitos analistas franceses, esse tipo de comportamento pode ser interpretado como “irritante”, especialmente quando nem todas as tentativas dão certo.
A questão racial e os estereótipos
Existe também um debate mais sensível, mas que não pode ser ignorado: o componente racial e os estereótipos associados a jogadores negros latino-americanos na Europa.
Tanto Neymar quanto Endrick compartilham características que frequentemente desafiam os padrões tradicionais do futebol europeu. São jogadores expressivos, emotivos, criativos e tecnicamente ousados. Esses elementos, que fazem parte da cultura do futebol brasileiro, nem sempre são recebidos com a mesma naturalidade em contextos mais conservadores.
Historicamente, jogadores negros que demonstram forte personalidade em campo muitas vezes são rotulados com termos como “arrogante”, “provocador” ou “indisciplinado”. Quando atletas europeus demonstram comportamentos semelhantes, a narrativa frequentemente muda para “competitivo” ou “confiante”.
Esse tipo de diferença de percepção ajuda a explicar por que jogadores brasileiros, especialmente os mais criativos, acabam enfrentando um escrutínio maior.
No caso específico de Endrick, há ainda outro fator relevante: ele não é apenas um jogador jovem tentando se firmar na Europa. Ele representa uma nova geração de talentos brasileiros que chegam ao futebol europeu cercados de enorme expectativa.
Essa expectativa cria uma dinâmica curiosa: cada atuação é analisada como se fosse um teste definitivo. Um gol pode ser visto como sorte. Um drible errado vira evidência de imaturidade. Uma tentativa ousada pode ser interpretada como excesso. No jogo contra o Celta, por exemplo, Endrick foi o jogador mais participativo do ataque do Lyon. Mesmo assim, a narrativa dominante foi a de que sua atuação foi “insuficiente”.
Entre o talento e a narrativa
A história recente mostra que esse tipo de relação conflituosa entre imprensa e jogadores brasileiros na França raramente dura para sempre. Neymar, apesar das críticas constantes, terminou sua passagem pelo PSG como um dos jogadores mais influentes da história do clube.
Endrick ainda está apenas no começo de sua trajetória europeia. Seus números já indicam impacto relevante, especialmente considerando o contexto turbulento do Lyon.
Mas a reação da imprensa francesa sugere que o jovem brasileiro talvez enfrente o mesmo desafio que tantos compatriotas antes dele: provar seu valor não apenas dentro de campo, mas também contra uma narrativa que parece sempre pronta para questioná-lo.
Se depender apenas do talento, Endrick tem tudo para responder da maneira mais tradicional do futebol brasileiro: com bola na rede e dribles que continuam irritando, para o desespero de alguns críticos, as defesas adversárias.
(Foto: Getty Images)