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México sofre com falta de espaço na Europa mesmo após Copa do Mundo histórica; entenda

O mercado de transferências deste verão deveria representar um momento importante para o futebol mexicano. Depois de uma campanha histórica na Copa do Mundo de 2026, a expectativa era de que vários jogadores da seleção do México deixassem a Liga MX para dar o próximo passo em suas carreiras e atuar em grandes clubes europeus. Porém, aconteceu justamente o contrário.

O México protagonizou o que pode ser considerado o melhor desempenho de sua história em uma Copa do Mundo. A seleção venceu quatro partidas pela primeira vez em uma mesma edição e chegou a levar a Inglaterra, que terminou o torneio na terceira colocação, ao limite em uma derrota dolorosa. Além dos resultados, a equipe apresentou um futebol considerado atrativo e eficiente, com jogadores pouco conhecidos internacionalmente ganhando destaque no maior palco do futebol.

Dos 26 jogadores convocados para a Copa do Mundo, 12 atuavam na Liga MX. Seis deles foram titulares nos dois jogos eliminatórios disputados pelo México. Com as boas atuações individuais e coletivas, era natural imaginar que vários desses atletas receberiam propostas de clubes importantes da Europa após o Mundial.

Poucos mexicanos deixaram a Liga MX

A realidade do mercado, entretanto, foi bem diferente. Depois do encerramento da janela de transferências, apenas um dos 12 jogadores que estavam na Liga MX durante a Copa do Mundo deixou o futebol mexicano rumo à Europa. Ao mesmo tempo, três jogadores da seleção do méxico que já atuavam no futebol europeu fizeram o caminho inverso e retornaram ao país.

O cenário chama atenção justamente pelo momento vivido pela seleção. O México conseguiu competir em alto nível no Mundial, mas esse desempenho não foi suficiente para provocar uma grande migração de jogadores para as principais ligas europeias. A situação expôs uma dificuldade que já acompanha o futebol do méxico há alguns anos.

O problema envolve diferentes fatores, mas um dos principais está na maneira como os clubes da Liga MX enxergam o mercado de jogadores. A prioridade em muitos casos é maximizar o lucro nas negociações, fazendo com que atletas considerados importantes sejam colocados à venda por valores elevados. Isso acaba dificultando a saída para o futebol europeu.

O problema da Liga MX

Diferentemente de outras ligas da América Latina, a venda de jogadores não representa a principal fonte de receita dos clubes mexicanos. Patrocínios e direitos de transmissão possuem grande importância financeira para as equipes da Liga MX. Em outros países, como a Argentina, a negociação de atletas para a Europa muitas vezes é uma necessidade para manter os clubes financeiramente saudáveis.

Por isso, jogadores argentinos historicamente conseguem deixar seus clubes por valores relativamente baixos, com exceção dos grandes talentos. Como as equipes precisam das receitas das transferências, existe menos espaço para inflacionar o preço de seus principais jogadores.

Nos Estados Unidos e no Canadá, a situação também é diferente. A Major League Soccer não depende das vendas de atletas para sobreviver, mas, ainda assim, o futebol norte-americano passou a trabalhar de maneira mais organizada para levar jovens jogadores às principais ligas europeias. A estratégia contribuiu para aumentar a presença de atletas desses países no futebol internacional.

O ex-técnico da seleção mexicana Gerardo Martino resumiu o problema em uma frase que ganhou bastante repercussão: “Os jogadores mexicanos não vão para a Europa porque os clubes não deixam”.

Um exemplo recente envolve Sebastian Berhalter. O meio-campista da seleção dos Estados Unidos, que se destacou pelo Vancouver Whitecaps, foi negociado com o Middlesbrough, da segunda divisão inglesa, por US$ 2 milhões. Enquanto isso, o Club América teria recusado uma proposta de aproximadamente US$ 5 milhões da Roma pelo defensor Israel Reyes, pedindo pelo menos US$ 8 milhões. O clube italiano não apresentou uma segunda oferta e preferiu contratar o argentino Nahuel Molina.

Europa também perdeu confiança

Embora o sistema da Liga MX seja apontado como um dos principais motivos para a baixa presença mexicana na Europa, existe outro problema: os clubes europeus também parecem estar menos dispostos a apostar em jogadores mexicanos.

Nos últimos anos, os casos de sucesso diminuíram. Muitos atletas que se destacaram no futebol mexicano tiveram dificuldades para repetir o desempenho quando atravessaram o Atlântico. Alguns acabaram retornando à Liga MX depois de passagens curtas e sem grande impacto.

César Huerta é um dos exemplos mais recentes. O jogador, que esteve com o México na Copa do Mundo de 2026, foi um dos principais nomes do Pumas durante boa parte de dois anos antes de se transferir para o Anderlecht, da Bélgica, em janeiro de 2025. Depois de uma temporada e meia marcada por problemas físicos, o atacante retornou ao Pumas na reta final da janela de transferências.

Huerta explicou que tentou permanecer na Europa e esperou por uma nova oportunidade, mas afirmou que o Anderlecht deixou claro que não contava mais com ele. O jogador acabou separado do grupo e, sem conseguir outra proposta europeia, decidiu retornar ao futebol mexicano.

Outro caso é o de Jorge Sánchez. Mesmo depois de uma boa participação do México na Copa do Mundo, o lateral retornou à Liga MX com o Atlas apenas seis meses e 11 partidas depois de ter chegado ao PAOK, da Grécia.

Um caminho cada vez mais difícil

O contraste é evidente. Coletivamente, o México mostrou que pode enfrentar e vencer seleções com jogadores de alto nível atuando nas principais ligas europeias. Individualmente, porém, os clubes do continente não demonstram o mesmo interesse em contratar jogadores mexicanos, especialmente quando os valores pedidos pela Liga MX são considerados elevados.

Existe ainda outro fator importante. Os atletas que conseguem chegar à Europa precisam apresentar resultados rapidamente. Os casos recentes indicam que nem sempre existe paciência para que jogadores mexicanos tenham um longo período de adaptação ao futebol europeu.

Ao mesmo tempo, permanecer na Liga MX pode ser uma opção bastante confortável para muitos atletas. Eles podem receber salários mais altos do que aqueles oferecidos em alguns mercados europeus e continuam atuando em um ambiente conhecido, no qual já estão adaptados e conseguem apresentar seu melhor futebol.

A combinação desses fatores criou uma espécie de bloqueio na passagem de jogadores mexicanos para a Europa. E a janela de transferências deste verão tornou essa situação ainda mais evidente.

Armando González é a exceção

Entre os jogadores que estavam na seleção mexicana na Copa do Mundo de 2026, Armando González foi o único a deixar a Liga MX rumo à Europa neste verão. O atacante de 22 anos foi contratado pelo Olympiacos, da Grécia, após um ano de destaque ofensivo pelo Chivas.

Outro jogador que pode seguir o mesmo caminho é Erik Lira. O meio-campista do Cruz Azul, que também se destacou durante a Copa do Mundo, é esperado no Monaco. Porém, ainda não existe um acordo entre os clubes, e o Cruz Azul já recusou a primeira proposta apresentada pela equipe francesa.

Enquanto alguns jogadores não conseguem sair, outros estão fazendo o caminho de volta. Além de Huerta e Sánchez, Orbelín Pineda encerrou sua passagem pelo futebol europeu e retornou à Liga MX para defender o Monterrey, depois de atuar pelo AEK Atenas.

O cenário pode ficar ainda mais movimentado. Álvaro Fidalgo, do Real Betis, estaria sendo colocado no mercado e já aparece ligado a um possível retorno ao Club América, apenas seis meses depois de ter deixado o clube mexicano para atuar na Espanha.

Gilberto Mora é a esperança

Diante de um cenário tão complicado, muitos olhares estão voltados para Gilberto Mora. Aos 17 anos, o jogador do Tijuana é apontado como um dos maiores talentos produzidos pelo futebol mexicano nas últimas décadas e já desperta interesse de alguns dos maiores clubes do mundo.

A expectativa é de que Mora consiga realizar uma grande transferência para a Europa quando atingir a idade necessária. Caso consiga se destacar no futebol europeu, o jovem pode ajudar a mudar a percepção sobre os jogadores mexicanos no mercado internacional.

É claro que colocar tamanha responsabilidade sobre um jogador de apenas 17 anos não é justo. Ainda assim, a expectativa mostra o tamanho do problema. Atualmente, o caminho entre o futebol mexicano e as principais ligas europeias está longe de ser natural.

A grande campanha do México na Copa do Mundo de 2026 poderia ter servido como uma vitrine para vários jogadores da Liga MX. Em vez disso, apenas um dos 12 atletas que estavam no futebol mexicano durante o Mundial conseguiu fazer a mudança para a Europa neste verão.

O cenário mostra que o problema vai muito além do desempenho da seleção. Para que o México volte a exportar jogadores regularmente para os grandes centros do futebol mundial, mudanças serão necessárias dentro do próprio sistema da Liga MX. Enquanto a prioridade continuar sendo a maximização dos valores das transferências, porém, a construção de uma ponte consistente entre o futebol mexicano e a Europa continuará sendo um desafio.

Carl Recine/Getty Images (Huerta), Nick Potts/PA Images/Getty Images (Sánchez), Hugo Rivera/Jam Media/Getty Images (Pineda)