A discussão em torno do Flamengo e seu estilo de jogo ganhou novos contornos desde a chegada de Leonardo Jardim. Após um período marcado por oscilações e uma dependência cada vez maior de individualidades, o time dá sinais de reorganização, mas ainda divide opiniões: trata-se de uma equipe novamente dominante ou de um conjunto que continua sustentado pelo brilho de seus principais jogadores?
Uma das principais mudanças percebidas é na fase ofensiva. Sob o comando de Jardim, o Flamengo tem buscado maior organização na construção das jogadas, com ocupação mais racional dos espaços e tentativa de controlar o ritmo da partida através da posse. Há uma preocupação maior em estruturar o ataque desde a saída de bola, evitando a dependência exclusiva de jogadas individuais.
No entanto, a cultura recente do clube (baseada em talento e liberdade criativa) ainda se faz presente. Em momentos de dificuldade, o time recorre ao improviso, especialmente quando enfrenta defesas bem postadas, e o resultado disso é um modelo híbrido: mais organizado do que antes, mas ainda distante de uma engrenagem totalmente coletiva e previsível em termos de padrão.
Mesmo com avanços táticos, o Flamengo segue fortemente atrelado ao desempenho de seus principais nomes. Em jogos equilibrados no Brasileirão, são esses atletas que frequentemente desequilibram, seja com um passe decisivo, um drible ou uma finalização de alta qualidade. Definitivamente isso não é um grande problema, pois times vencedores costumam ter protagonistas diversos.
A questão é o grau de dependência: quando o coletivo não funciona plenamente, a responsabilidade recai quase integralmente sobre esses jogadores. Contra adversários mais organizados, essa dependência pode limitar o time, tornando-o mais previsível e mais fácil de ser neutralizado.
Controle de jogo x volume ofensivo: o grande dilema no Flamengo
Outro ponto central no debate é a diferença entre controlar o jogo e simplesmente produzir volume ofensivo. O Flamengo de Jardim tem, em certos momentos, maior posse de bola e presença no campo adversário, dando sinais de controle territorial. No entanto, isso nem sempre se traduz em chances claras de gol, pois há partidas em que o time finaliza bastante, mas com baixa qualidade, evidenciando um problema na transformação de domínio em efetividade.
Controlar o jogo implica ditar o ritmo, reduzir riscos e criar oportunidades de forma consistente. Já o volume ofensivo, por si só, pode mascarar dificuldades na construção e na tomada de decisão no último terço. Diante deste cenário, surge uma dúvida: afinal, o Flamengo com Jardim precisa ser dominante ou jogar em transição?
A resposta talvez esteja no meio do caminho, pois o Mengão apresenta sinais claros de evolução com a atual comissão técnica, especialmente em termos de organização e controle. No entanto, ainda não atingiu um nível de consistência que permita classificá-lo como dominante de forma incontestável.
A equipe parece viver um processo de transição: deixando para trás a dependência quase total do talento individual, mas ainda sem alcançar um modelo coletivo plenamente consolidado. Ou seja, o próximo passo será justamente transformar essa organização em regularidade, e fazer com que o brilho individual seja um diferencial, não uma necessidade.
Imagem: Getty Images


