Wrexham: torcida global é mais marketing do que paixão real?
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Wrexham: torcida global é mais marketing do que paixão real?

O Wrexham se tornou um dos fenômenos mais comentados do futebol mundial nos últimos anos. A chegada dos atores Ryan Reynolds e Rob McElhenney, somada à série documental “Welcome to Wrexham”, transformou um clube histórico do País de Gales em marca global. 

Grupos de torcedores surgiram na Noruega, em Dubai, na Islândia, na Austrália, na Tailândia e até na Alemanha e na Ucrânia. Mas será que essa expansão se resume apenas à fama de Hollywood e ao apelo de uma história de superação? Uma análise mais crítica mostra que nem tudo é tão romântico quanto parece.

A torcida internacional do Wrexham cresceu de forma impressionante. Na Noruega, o grupo Norwegian Reds tem 440 membros. Em Dubai, os Dubai Reds se reúnem regularmente em um pub irlandês para assistir aos jogos. Na Islândia, o Wrexham Icelandic Supporters Club foi fundado por Matthias Matthiasson, que se apaixonou pela cidade e pelo povo galês. São histórias bonitas, mas que merecem ser vistas com ressalvas.

Muitos citam a narrativa do “underdog”, o clube antigo que luta para voltar à elite, e a hospitalidade galesa. Steinar Pedersen, fundador dos Norwegian Reds, diz que se sente em casa quando visita Wrexham, comparando os galeses aos noruegueses por serem “pessoas trabalhadoras e acolhedoras”. Dylan Owen, um dos líderes dos Dubai Reds, destaca que o clube representa algo maior que o futebol: uma comunidade.

No entanto, é impossível ignorar o papel do marketing pesado. A série documental e a presença constante de Reynolds e McElhenney nas redes sociais transformaram o Wrexham em conteúdo de entretenimento. Torcedores distantes não se conectam apenas com o time em campo, eles consomem uma história bem contada. 

Isso gera engajamento, mas também levanta dúvidas sobre a profundidade dessa conexão. Quantos desses fãs continuariam acompanhando o clube se a narrativa de “superação hollywoodiana” perdesse força?

O risco quando o sucesso esportivo diminuir

Aqui entra o ponto mais crítico. O Wrexham vive um momento de ascensão, com bom desempenho na League One e chance real de acesso. Mas e quando os resultados não forem mais tão positivos? Quando a equipe estacionar ou cair de divisão? A torcida local, que acompanha o clube há décadas, continuará presente. Já a internacional, construída em grande parte sobre fama e storytelling, pode esfriar rapidamente.

Grupos como os Norwegian Reds e os Dubai Reds garantem que permanecerão fiéis “não importa o que aconteça”. Mas a história do futebol está cheia de clubes que viraram moda por um período e depois perderam o brilho global quando o sucesso diminuiu. O Wrexham ainda não passou por esse teste de fogo.

Além disso, o clube vive um paradoxo financeiro. Enquanto a receita cresce com vendas de camisas, streaming e turismo (gerando £191 milhões para a economia local em 2024), a maior parte vem de fora do Reino Unido. Isso cria dependência de uma torcida internacional que, em grande medida, foi atraída por um fenômeno midiático. Se Reynolds e McElhenney um dia decidirem reduzir o investimento ou vender o clube, como ficará essa base global?

O que o Wrexham realmente oferece além da fama

O lado positivo é inegável. A cidade de Wrexham ganhou visibilidade, o estádio Racecourse Ground vive dias de casa cheia e o clube voltou a sonhar com divisões superiores, estando atualmente na Championship, com o sonho de chegar à Premier League. A torcida local se beneficia diretamente dessa exposição. Grupos internacionais também trazem diversidade e recursos financeiros.

Porém, o verdadeiro teste para a sustentabilidade dessa torcida global virá quando o “efeito Hollywood” perder força. Quando o Wrexham não for mais a história mais sexy do futebol inglês, restará saber quantos desses torcedores distantes continuarão acompanhando os resultados, comprando camisas e viajando para o País de Gales.

O Wrexham é um clube centenário, o terceiro mais antigo do mundo entre os profissionais. Sua torcida local carrega décadas de história, sofrimento e paixão genuína. A torcida internacional, por mais numerosa que seja, ainda precisa provar que vai além do entretenimento e da narrativa bem embalada.

Enquanto o time vencer e a história continuar bonita, o fenômeno deve se manter. Mas quando os tropeços chegarem, e eles sempre chegam no futebol, será possível separar os fãs de verdade dos consumidores de conteúdo? Essa é a pergunta que o Wrexham ainda não precisou responder. E que, mais cedo ou mais tarde, terá de enfrentar.

Foto: Martin Rickett/PA